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Em um cenário em que o desinteresse pela escola e a dificuldade de engajamento dos estudantes se tornam desafios cada vez mais presentes, repensar as práticas pedagógicas é uma necessidade. Moreira (2023) destaca que modelos de ensino baseados predominantemente na transmissão de conteúdos tendem a limitar a participação dos estudantes no processo de aprendizagem, evidenciando a importância de metodologias que favoreçam o protagonismo, a investigação e a construção ativa do conhecimento.
Nesse contexto, práticas que aproximam o estudante de problemas reais e estimulam a pesquisa tornam a aprendizagem mais significativa e fortalecem seu vínculo com a escola.
No Colégio SESI da Indústria de Campo Largo, a Iniciação Científica integra há muitos anos a cultura pedagógica da instituição. Alinhada à metodologia de aprendizagem por projetos e ao método científico, essa prática incentiva os estudantes a investigar problemas relacionados à sua realidade, construir soluções e desenvolver competências que vão além do currículo tradicional. Mais do que produzir pesquisas, os jovens assumem o papel de protagonistas do próprio aprendizado, compreendendo que o conhecimento científico pode gerar impactos concretos na comunidade e contribuir para a transformação social.
Essa proposta parte do entendimento de que o interesse pela ciência se constrói a partir de experiências significativas e investigativas. Nesse sentido, Oliveira, Carvalho e Jesus (2018) defendem que atividades dessa natureza favorecem a formação de estudantes curiosos, criativos, flexíveis e inovadores. De forma complementar, Pontel e Vieira (2020) destacam que a ampliação da Iniciação Científica para a Educação Básica representa um avanço importante para a formação integral dos estudantes, ao aproximá-los da pesquisa desde cedo e fortalecer o pensamento crítico.
Um exemplo dessa prática é o projeto “Mordidas Nutritivas”, desenvolvido por uma estudante durante as atividades de Iniciação Científica. A pesquisa surgiu da observação de um problema real: o desperdício de hortaliças em mercados e centros de agricultura, ao mesmo tempo em que muitas organizações de proteção animal enfrentam dificuldades para oferecer alimentação adequada aos animais resgatados.
A partir dessa realidade, a estudante desenvolveu petiscos nutritivos para cães utilizando hortaliças que seriam descartadas. O projeto integra os três pilares da sustentabilidade ao reduzir desperdícios, produzir alimentos de baixo custo e fortalecer ações sociais por meio da doação contínua dos produtos a organizações não governamentais de proteção animal da região. Ao longo do processo, foram mobilizados conhecimentos científicos, planejamento experimental, análise de resultados e diálogo com a comunidade.
Os impactos dessa experiência ultrapassaram os resultados acadêmicos. Ainda aos 16 anos, a estudante foi selecionada para apresentar sua pesquisa na St. John Fisher University, no estado de Nova Iorque, nos Estados Unidos, onde participou de uma semana de intercâmbio científico com estudantes de diferentes países. A experiência ampliou seus horizontes e fortaleceu sua autonomia, evidenciando como projetos desenvolvidos na Educação Básica podem alcançar reconhecimento internacional.
Os resultados, entretanto, vão além das premiações e apresentações. Segundo relato da própria estudante e de sua família, houve um aumento significativo do interesse em frequentar a escola, maior participação nas atividades escolares e fortalecimento dos vínculos sociais. A convivência com o grupo de pesquisa favoreceu a construção de amizades e um sentimento de pertencimento que antes era uma dificuldade vivenciada pela aluna.
Essa transformação confirma aquilo que observamos diariamente na prática pedagógica. Quando os estudantes assumem o papel de pesquisadores, aprendem a formular perguntas, analisar evidências, argumentar com embasamento, comunicar ideias e trabalhar colaborativamente. O erro deixa de representar fracasso e passa a ser compreendido como parte essencial da construção do conhecimento.
A Iniciação Científica também fortalece a cultura escolar ao estimular investigação, criatividade e colaboração entre estudantes e professores. Os projetos desenvolvidos inspiram novas pesquisas, aproximam a escola da comunidade e demonstram que a educação ganha significado quando conecta teoria e prática.
Mais do que formar futuros pesquisadores, experiências como essa formam cidadãos capazes de compreender a realidade, propor soluções e atuar de forma ética e responsável diante dos desafios da sociedade. O projeto “Mordidas Nutritivas” evidencia que a pesquisa científica na Educação Básica pode transformar trajetórias individuais, fortalecer vínculos sociais e reafirmar o papel da escola como espaço de inovação, pertencimento e desenvolvimento humano.
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