Belgas comemoram vitória e senegaleses lamentam eliminação da Copa do Mundo, após vitória da Bélgica por 3 a 2 na prorrogação. (Foto: Stephen Brashear/EFE/EPA)
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Amigos, Nelson Rodrigues não me abandona, continua escrevendo certo por minha digitação torta. Aviso ao leitor menos frequentador de arquivo morto: não é plágio, é possessão. Ele dita, eu erro a pontuação, ele corrige e seguimos os dois diante da televisão, torcendo pela Seleção – e contra todos, que é a única torcida decente que existe.
Na tela, enquanto aguardamos a Espanha entrar em campo, conferimos a reprise da Bélgica morrer contra o Senegal. Dois a zero, quase acabando. De Bruyne sumido, Doku sacado, Lukaku no banco feito móvel velho esperando a casa pegar fogo para ser útil. E Nelson aqui, pensando: a Bélgica vai morrer como morrem os aristocratas, sem drama, apenas cansada de si mesma.
Nós, particularmente, não cremos em acaso. Cremos em destino, que é o acaso com CPF. E o destino, nesta Copa de 2026, anda especialmente cruel com os africanos. Lukaku entrou e os belgas empataram nos minutos finais, em uma saída errada do goleiro senegalês, um instante que ficará, para Mory Diaw, como fica para todo homem a lembrança exata do momento em que confundiu a mulher errada com a certa.
Não cremos em acaso. Cremos em destino, que é o acaso com CPF. E o destino, nesta Copa de 2026, anda especialmente cruel com os africanos
Quando a prorrogação chegava ao minuto final e já nos preparávamos para os pênaltis, relembrávamos nossa virada contra o Japão. Como sofremos. O bastante para não perder o velho complexo de vira-lata que inventei – sim, fui eu, Nelson – e que o brasileiro carrega como sua certidão de batismo. E vencemos nos acréscimos, porque no Brasil tudo se resolve assim. Martinelli marcou como um menino chutando a própria angústia para dentro do gol.
Falando em angústia, pensem agora na Alemanha, que tentava o penta e perdeu pro Paraguai – o Paraguai! Antes de morrer de vergonha, morreu nos pênaltis, que é a forma mais civilizada de suicídio que o futebol inventou. E o goleiro paraguaio Orlando Gill, que ninguém conhecia até terça-feira, entrou para a história como quem despacha visita inconveniente.
A Holanda também caiu nos pênaltis, e voltou para casa laranja e murcha, como sempre voltou de todas as Copas. Não houve viúva chorando: a arrogância morre sozinha, sem cortejo. Vale para os alemães também. E quase para os ingleses, derrotados quase sempre, mas não (ainda) nesta Copa. Ainda assim, sofrem. É da natureza inglesa sofrer, mesmo vencendo a República Democrática do Congo.
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Quem não sofreu foi a França, que passeou sobre a Suécia com a crueldade elegante de moça bonita que sabe que é bonita. Tampouco o México, que atropelou o Equador, e os outros anfitriões da Copa, que avançaram também sem maiores sustos. O Canadá bateu a África do Sul por 1 a 0, com a austeridade de quem nunca leu um romance russo, e a torcida dos EUA acredita até agora que venceu por 3 a 0 porque não entende a regra do impedimento.
A Noruega bateu a Costa do Marfim e se tornou nossa próxima adversária. Contemplamos o rosto de Haaland no final, aquela alegria escandinava que não sabemos se está de férias no verão ou num velório no inverno. Não sentimos medo algum. Talvez tenhamos exorcizado nossos medos com os nipônicos. Ou talvez seja o humano preconceito que atesta que gigante loiro pode ser ótimo para publicidade de leite, não pro futebol.
Voltamos à Bélgica, que marcou na bacia das almas da prorrogação, vencendo o jogo. Concluímos em voz baixa, católicos envergonhados, que no futebol a metafísica é outra: morre-se em noventa minutos, ressuscita-se depois de mais trinta, e às vezes é preciso esperar a descida do Espírito Santo na cobrança de pênaltis para consumar o sacrifício.
Antes de morrer de vergonha, a Alemanha morreu nos pênaltis, que é a forma mais civilizada de suicídio que o futebol inventou
Vai ver é por isso que não tememos os noruegueses. Os deuses nórdicos que fiquem com seus fiordes como zagueiros e sua austeridade luterana no meio de campo e seu viking solitário no ataque. No campo, a religião é outra, e só a Seleção reza na língua certa.
Mas cesse tudo o que a musa antiga canta, pois as trombetas da vaidade ibérica começam a soar na tela iluminada. Entra em campo a Espanha, com seus passes de uma geometria milimétrica, asséptica, quase profilática. Vão enfrentar a Áustria, que parece aguardar um massacre com a dignidade impotente de sua aristocracia fantasmal.
Nelson ajeita os óculos escuros na ponta do nariz e dá a última baforada no seu cigarro imaginário. Já não me dita nada, apenas observa, olímpico, a soberba europeia em campo. Aguarda o momento exato em que a bola – essa mulher caprichosa e sem coração – decidirá punir os que jogarem sem pecado e sem paixão.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos
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