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A migração econômica do PCC: criminosos estão invadindo a economia formal

Durante três décadas, tratamos o PCC como uma quadrilha de tráfico que ocasionalmente lavava dinheiro. A realidade se inverteu. O que existe hoje é um conglomerado criminoso que passou a disputar setores econômicos regulados. (Foto: Ney Douglas/EFE/Arquivo )

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Enquanto grande parte do debate público ainda mede o combate ao crime por apreensões e prisões, o Primeiro Comando da Capital (PCC) migra capital para a economia formal e passa a disputar setores regulados por dentro de empresas e estruturas empresariais.

Em agosto de 2025, a Operação Carbono Oculto revelou algo que deveria ter mudado a forma como o Brasil enxerga o crime organizado – e não mudou. Investigadores da Receita Federal e da Polícia Federal não foram atrás de um depósito de drogas nem de uma boca de fumo. Foram atrás de distribuidoras de combustíveis, de fintechs na Faria Lima e de fundos de investimento. O Primeiro Comando da Capital não estava escondido nas margens da economia. Estava no centro dela.

Durante três décadas, tratamos o PCC como uma quadrilha de tráfico que ocasionalmente lavava dinheiro. A realidade se inverteu. O que existe hoje é um conglomerado criminoso que passou a disputar setores econômicos regulados, como combustíveis, postos, transporte e meios de pagamento, utilizando empresas formais e estruturas empresariais que muitas vezes controla, infiltra ou usa como fachada. A droga já não parece ser sua única prioridade estratégica: tornou-se apenas uma entre várias linhas relevantes de receita de uma estrutura que planeja, contrata e investe como uma corporação.

O caso dos combustíveis é didático. Tratada pelas autoridades como a maior operação já realizada contra o crime organizado no país, a Carbono Oculto revelou que cerca de mil postos vinculados ao grupo movimentaram R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024, com recolhimento de tributos considerado irrisório. Os recursos eram reinseridos na economia por meio de dezenas de fundos de investimento, com patrimônio na casa dos R$ 30 bilhões, em camadas destinadas a ocultar os beneficiários finais. Não é lavagem improvisada: é engenharia financeira.

A blindagem do PCC não está nas armas. Está na fragmentação do Estado brasileiro. A polícia investiga o crime; a Receita, o tributo; a ANP fiscaliza o combustível; o Banco Central regula o pagamento. Cada órgão enxerga um pedaço, e ninguém enxerga o conglomerado

E há um detalhe que revela a natureza do problema melhor do que qualquer apreensão. Depois da primeira fase, o esquema não parou: foi reconstruído. A organização criou novas fintechs para operar como bancos paralelos, acrescentou camadas de blindagem e ampliou o desvio de nafta. Em maio de 2026, a segunda fase, a Operação Fluxo Oculto, revelou que apenas seis dessas instituições movimentaram mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025, uma delas recebendo mais de R$ 1 bilhão em espécie. Uma quadrilha comum se desfaz quando é atingida; uma corporação se reestrutura. O PCC se reestruturou.

Passei 23 anos investigando o crime organizado em São Paulo, em unidades de elite da Polícia Civil, e vi essa transformação acontecer por dentro. O criminoso que antes temia a abordagem policial aprendeu a contratar advogados, contadores e operadores financeiros; trocou o confronto pela contabilidade. Aprendi que o erro mais caro do Estado não é subestimar a violência do crime: é subestimar a sua inteligência. Enquanto o Estado comemora apreensões, a facção migra capital para o mercado legal, onde o lucro é maior, o risco é menor e a fiscalização é mais lenta.

E o combustível é apenas o caso mais visível: a mesma lógica alcança o cigarro, o transporte e qualquer setor regulado de margem alta e fiscalização fragmentada.

Aqui está o ponto que o debate público insiste em ignorar. O crime organizado é, ao mesmo tempo, um caso de segurança, de inteligência financeira, de tributação, de regulação e de concorrência. Mas tornou-se também um problema econômico de primeira grandeza, e é justamente essa dimensão que menos enxergamos. Quando entra em um setor regulado, o crime não compete pelas regras. Sonega o imposto que o concorrente paga, adultera o produto e pratica um preço que nenhuma empresa honesta consegue praticar.

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O efeito é uma seleção ao contrário: o capital honesto é expulso, o investimento idôneo recua e o ambiente de negócios se deteriora. O mercado não é destruído: é capturado. E quem paga a conta é o consumidor, o empresário que cumpre a lei e o próprio Estado, que financia a sua erosão por meio dos impostos que deixa de arrecadar.

A blindagem do PCC não está nas armas. Está na fragmentação do Estado brasileiro. A polícia investiga o crime; a Receita, o tributo; a ANP fiscaliza o combustível; o Banco Central regula o pagamento. Cada órgão enxerga um pedaço, e ninguém enxerga o conglomerado. A organização, integrada, explora as costuras entre instituições que não conversam entre si. As duas fases da Carbono Oculto só avançaram porque, pela primeira vez, esses atores agiram juntos. Foi exceção, não método.

Tratar o crime organizado como caso de polícia tornou-se uma escolha confortável e ultrapassada. A próxima fronteira do enfrentamento não está na rua: está na contabilidade, no compliance, na inteligência financeira e na regulação setorial. Exige que o Estado deixe de contar apreensões para mapear cadeias econômicas e integre de forma permanente, e não episódica, polícia, Receita, reguladores e Ministério Público em torno do mesmo alvo patrimonial. E exige enxergar o empresário-laranja, o fundo de fachada e a fintech paralela como aquilo que de fato são: a infraestrutura do crime, e não seus acessórios.

Carlos Eduardo da Silva é investigador de polícia aposentado, com 23 anos de atuação em unidades especializadas da Polícia Civil de São Paulo, DEIC (Departamento Estadual de Investigações Criminais) e Denarc (Departamento Estadual de Investigações sobre Entorpecentes).

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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