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O vídeo de Michelle e o enigma da oposição

Michelle acusa Flávio de tê-la humilhado após crise interna no PL e relata campanha de ataques promovida por aliados do bolsonarismo. (Foto: Reprodução/Instagram/michellebolsonaro)

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O conflito entre Michelle e Flávio Bolsonaro surpreendeu muita gente experiente em política. Não só pela desavença em si, mas principalmente pela forma como foi exposta. Sem dúvida, a candidatura governista irá explorar o episódio durante a campanha eleitoral.

Aliás, o episódio já está sendo explorado em pesquisas de opinião, gerando uma espécie de polêmica da polêmica. É legítimo amplificar a ressonância de determinados fatos com o objetivo (ou suposto objetivo) de medir o impacto deles na opinião pública? Num ambiente de garantias plenas à livre expressão e ao exercício desimpedido de atividades intelectuais e de comunicação em geral, sim. É legítimo.

O que se verifica, nesse universo de institutos de pesquisa que traz historicamente as suas idiossincrasias, é que o alegado objetivo sociológico de aferição da opinião pública pode sofrer distorções e tendências, conforme questionamentos já apresentados (e aceitos) no caso das pesquisas sobre outro fato com impacto em uma das candidaturas favoritas. Fora o fato de que pesquisas eleitorais e resultados de eleições andaram se desencontrando bastante ao longo dos anos, o que não favorece a confiança do público nos variados institutos.

Se começarem a surgir pesquisas aferindo o impacto de casos como os do INSS e o do Master na candidatura da situação, será mais viável um debate sobre o instrumento em si. Caso contrário, fica constatado um viés antioposição nessas sondagens, e aí o Brasil estará novamente diante do espelho para responder que tipo de distorção estatística flagrante é tolerável ou não numa democracia.

O longo vídeo gravado e publicado pela ex-primeira-dama pareceu intrigante para alguns, confessional para outros e surpreendente para quase todos. Ela não rompe com a candidatura do enteado, mas dirige a ele, pessoalmente, alegações graves, especialmente no atual momento de supervigilância quanto à proteção da condição feminina.

O que Michelle alega que se passou entre ela e Flávio, em termos de agressividade e até preconceito por parte dele, soa bastante desabonador para qualquer homem. Ao mesmo tempo, a forma quase espetacular como isso foi feito passou a suscitar também dúvidas sobre as motivações eventualmente não visíveis a olho nu para essa atitude da ex-primeira-dama.

Seja como for — e, na política, nem sempre todas as motivações acabam vindo à tona —, não há dúvida de que Michelle quis atingir Flávio. Se teve motivos legítimos e suficientes para isso é algo que o tempo tende a mostrar

No caso do senador Sergio Moro, por exemplo, as acusações que fez ao então presidente Jair Bolsonaro para pedir demissão do cargo de ministro da Justiça soam hoje, para muitos, inconsistentes, considerando-se que não restou demonstrada a alegada interferência na PF. Para outros, Moro seguiu suas convicções e não tinha obrigação de preservar o governo de uma imprensa que vivia à sua caça.

Não há dúvida de que a campanha de Lula festejou o vídeo de Michelle e de que ele será material de propaganda eleitoral do PT. Também não há dúvida de que Michelle sabia que isso ocorreria, e a questão que se coloca é se vai ficar claro ou não que ela precisava fazer isso, contra algo pior do que o impacto negativo que causaria na campanha presidencial que apoia.

Por enquanto, o que se vê, em decorrência desse episódio, é mais lenha na fogueira da balbúrdia digital que se espalha pelo campo da oposição. Se a estratégia do presidente da República é chamar de traidor seu principal concorrente eleitoral, por conta de suas alianças nos EUA, a mesmíssima pecha é jogada em 360 graus nos debates mais inflamados entre oposicionistas. Descobre-se um traidor por dia, desde que se discutia se o governador Tarcísio de Freitas deveria ou não ser o sucessor de Bolsonaro.

O Palácio do Planalto agradece.

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