A Dívida Pública Federal (DPF) superou mais uma marca importante: com um aumento de R$ 234,4 bilhões apenas no mês de maio, agora ela está em R$ 9,033 trilhões, de acordo com dados do Tesouro Nacional divulgados na sexta-feira. Quase 60% da elevação registrada no mês passado se deveu à emissão de novos títulos; o restante correspondeu à incorporação dos juros ao estoque da dívida. No acumulado de 2026, a dívida pública ficou R$ 397,6 bilhões maior – alta de 4,6%. Endividando-se cada vez mais para bancar o “pacote de bondades” que ajude na reeleição de Lula, o governo federal cava um buraco ainda mais fundo e que torna mais difícil o afrouxamento monetário que o petismo vive pedindo, enquanto critica o Banco Central por ser o único que trabalha para proteger o valor da moeda brasileira.
A expansão da dívida pública calculada pelo Tesouro – que não inclui estados, municípios, estatais e os títulos em posse do Banco Central – não deve parar por aí, e uma marca ainda mais relevante deve ser atingida ainda em 2026, pois o Plano Anual de Financiamento (PAF) prevê que, no fim do ano, o estoque da dívida esteja entre R$ 9,7 trilhões e R$ 10,3 trilhões. E, embora o relatório do Tesouro não mencione outro indicador importante, a dívida pública como porcentagem do Produto Interno Bruto, um outro relatório, da Instituição Fiscal Independente (IFI), vinculada ao Senado, não permite otimismo a esse respeito.
Governos incapazes de manter as contas em ordem são forçados a pagar juros maiores para convencer os investidores, o que por sua vez eleva a pressão sobre a dívida pública
O Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF) publicado na semana passada trata, entre outros assuntos, da evolução da Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) – que, ao contrário da DPF, também inclui estados, municípios e Previdência. A DBGG fechou abril em 80,1% do PIB, deve terminar o ano em 82,5%, chegar a 102% em 2032, e subir até 115% do PIB daqui a uma década, em 2036 – recorde-se que Lula subiu a rampa do Planalto, em janeiro de 2023, com uma DBGG de 71,7% do PIB, a menor porcentagem desde a recessão lulodilmista de 2015-16. “Trata-se de um nível de endividamento extremamente elevado para uma economia emergente”, diz o relatório, referindo-se às projeções; de fato, dívidas acima de 100% do PIB são típicas de países ricos, que têm mais facilidade em rolar suas dívidas e são mais confiáveis, podendo oferecer juros menores aos investidores – um perfil bastante diferente do brasileiro.
As projeções da IFI para a dívida pública já foram até piores que as publicadas na semana passada, mas continuam extremamente alarmantes. Até existe um cenário otimista no qual a DBGG se estabiliza, subindo até 85,8% em 2028 para passar a cair muito lentamente e terminar 2036 em 79,4% do PIB. Mas a concretização desse cenário exigiria um verdadeiro milagre: “um superávit primário do setor público consolidado de 2,1% do PIB ao ano para estabilizar a dívida (com crescimento real médio da economia de 2,3% e juros reais implícitos de 5,0% a.a.)”. Os juros reais, hoje, estão na casa dos 9%; o país não deve crescer mais de 2% ao ano mesmo com os estímulos governamentais para superaquecer a atividade; e superávits primários são uma impossibilidade com um governo gastador como o petista – e talvez continuem sendo inalcançáveis mesmo se Lula for substituído por um sucessor fiscalmente responsável, tantas são as despesas que estão sendo contratadas para o futuro.
VEJA TAMBÉM:
Na ata de sua última reunião, o Copom mencionou explicitamente a gastança petista, ainda que não com essas palavras, ao elencar os “estímulos à demanda agregada, em particular ao componente de consumo, que tenham como resultado o crescimento da atividade econômica acima do produto potencial” entre os riscos de alta para a inflação. Governos incapazes de manter as contas em ordem são forçados a pagar juros maiores para convencer os investidores, o que por sua vez eleva a pressão sobre a dívida pública. A gastança cria uma espiral da qual fica mais e mais difícil de escapar.


