Comemoração pela vitória de Jair Bolsonaro no segundo turno da eleição presidencial de 2018, no Rio de Janeiro. (Foto: Fernando Maia/EFE)
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Para derrotar o adversário em uma guerra, você pode lançar um soldado de paraquedas além das linhas inimigas, diretamente na capital, ou até mesmo dentro do palácio presidencial do inimigo, mas sozinho e isolado; ou construir um avanço gradual e mais lento, com a retaguarda protegida. No primeiro caso, você chegará antes, mas será logo cercado pelos capangas do líder; no segundo caso, chegará mais tarde, mas mais sólido e com toda a tropa.
Quando Jair Bolsonaro venceu as eleições em 2018, eu já dizia que se tratava do primeiro caso, e que havia sido cedo demais. Todos reagiam com tristeza, porque só queriam comemorar. O presidente passou quatro anos apanhando de todos os lados; hoje, finalmente, muitos entenderam o que eu queria dizer.
O bolsonarismo nasceu na onda do antipetismo, cresceu muito rapidamente e chegou antes da existência de uma própria direita. A casa era de palha, o lobo soprou e ela desabou. A história dos Três Porquinhos ensina como construir corretamente até para as crianças. Mais didático que isso, impossível.
Eleições são um jogo que ocorre a cada quatro anos; a política é um jogo de décadas
As pessoas confundem eleições com política de forma geral, e confundem eleições presidenciais com poder. Política não é Banco Imobiliário nem War, onde atinge-se o objetivo e o jogo acaba; quem domina é sempre quem tem mais peças no tabuleiro. Eleições são um jogo que ocorre a cada quatro anos; a política é um jogo de décadas. No primeiro caso, um marqueteiro pode até ganhar com uma campanha de dez meses; no segundo, é preciso contar com um verdadeiro estrategista.
Oito anos depois daquela vitória de Bolsonaro, a direita continua apanhando de todos os lados no Congresso, no Executivo, no Judiciário e na cultura. Só no jornalismo surgiram mais contrapontos. A esquerda marxista continua sendo hegemônica.
Como se chegou a essa situação? Não é o resultado de algo implantado ontem. Além do histórico patrimonialismo brasileiro, durante a ditadura a esquerda foi proibida de participar da vida política; além de reclamar, focou nas escolas, nas universidades, na arte, no cinema, na música, na cultura, no jornalismo etc. Depois de 40 anos, chegaram no poder automaticamente, sólidos e com toda a tropa. É a estratégia de Antonio Gramsci: chegar ao poder gradualmente, preparando antes a população por meio da obra dos “intelectuais orgânicos”.
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O que se deve e pode fazer então, agora? Não se trata de fazer a mesma coisa ao contrário; você não precisa se transformar no seu inimigo. É preciso refundar as instituições sociais, fundar escolas e universidades que ensinem de verdade em lugar de fazer lavagem cerebral, escrever livros didáticos sem doutrinação, refundar as disciplinas de História e Geografia, formar juristas que vejam o direito como “método de resolução de conflitos” (em lugar de “ferramenta de mudança social”), cientistas políticos realistas, economistas que queiram economizar, jornalistas que queiram simplesmente investigar e informar etc.
Demora? Sim, eu sei. Na obra Democracia: o deus que falhou, Hans Hermann-Hoppe mostra que populações com preferências temporais baixas (ou seja, que priorizam apenas o curto prazo) tendem a não prosperar. Em um famoso experimento social de 1970, deixaram algumas crianças sozinhas em uma sala com um marshmallow diante delas, e os pesquisadores prometiam: “se quando eu voltar, você não o tiver comido, eu lhe darei dois”. Algumas crianças resistiram, outras não. Essas mesmas crianças foram acompanhadas ao longo de décadas; as que souberam postergar o momento do prazer se tornaram mais ricas, em média. É a diferença entre quem poupa e quem não.
Você pode ter toda a pressa que quiser, mas não adianta. Caso a direita ganhe em outubro, estará um pouco mais preparada que em 2018, mas não adianta vencer as eleições sem ter retaguarda, não adianta querer a cobertura sem fundação; um prédio se constrói de baixo para cima, e quem só olha para o curto prazo não terá nada – nem no curto nem no longo prazo.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos
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