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“Sem Curitiba não se faz governador” — e Sandro Alex tem dificuldades na capital, avalia líder do PP

A escolha de Sandro Alex como pré-candidato ao governo do Paraná não estava nos planos de ninguém — nem do próprio Ratinho Junior, segundo o deputado federal Ricardo Barros (PP-PR). Para o articulador político que forçou a saída de Sergio Moro da federação União-Progressistas, a equação eleitoral do candidato governista apresenta um problema central: os votos em Curitiba.

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A cerca de 100 dias para a realização do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, Barros diz que a federação União Progressista no Paraná analisa todas as candidaturas para definir apoio — e não descarta que a escolha possa até ser apoio à candidatura de Moro. O que ele antecipa é que essa decisão não será unânime.

Os principais destaques da entrevista com Ricardo Barros

A reconhecida habilidade do senhor como articulador colocou-o em situações complicadas ao longo de todas essas décadas de carreira política? Ao longo dos últimos anos, seu nome esteve envolvido em escândalo de corrupção, durante a pandemia, denúncia de recebimento de propina. Dessas situações, acha que foi injustiçado, que culpa o senhor teve?

Ricardo Barros: Eu fui relator da Lei de Abuso de Autoridade. Ou seja, eu fui escolhido o relator de uma matéria para enfrentar o Judiciário. Aceitei a tarefa e, obviamente, me custou alguma retaliação. Respondi muitos processos por conta de meus adversários. Eu nunca tive problemas, porque ganhei todos esses processos. Teve o caso da Covid, você lembra…

Esse foi o mais difícil? Teve mais projeção nacional.

Ricardo Barros: Não foi difícil, pois eu não devia nada. Então, eu estava bem tranquilo, mas ficamos sob fogo cerrado. Era todo dia televisão batendo em mim. Mas eu tive a confiança do presidente Bolsonaro, que não me tirou do cargo de líder do governo; afinal, não era eu que estava sendo atacado, mas sim o próprio presidente. Quando querem atacar o presidente, atacam os líderes de governo. É o que está acontecendo com o Jaques Wagner agora, que é o líder do governo e está sendo alvo de uma operação. Se ele deve ou não, ele que vai provar. Eu provei sempre que não devia.

Não tenho mágoa nenhuma, porque não devia. Acho que faz parte da política e não tenho problema nenhum em estabelecer a articulação. Em todos os meus escritórios tem uma mesa de xadrez, que é o que eu faço. É estratégia, é articulação. Não é minha índole atacar meus adversários. Mas é da política. Mas hoje você não vê nenhum promotor dando coletiva… isso é a Lei de Abuso de Autoridade. Não vê pessoas sendo filmadas presas às 6h. É a lei do abuso de autoridade. Isso porque pode ser que as pessoas não sejam culpadas, como aconteceu comigo em todos os processos em que fui acusado e não provaram nada.

Tenho uma trajetória política que me permite superar qualquer tipo de ataque. Meu eleitor já se acostumou. A gente prova que não deve. Esse ativismo político do Judiciário, sim, é um problema muito grande no Brasil e que precisa ser combatido. O Judiciário deve permanecer despachando em processos e não querendo ser protagonista de eleição, como estão sendo agora no Rio de Janeiro. Eles têm presidente da Assembleia eleito. Tem que assumir o governo, mas não deixam ele assumir. Há interferência política, como quando tiraram e colocaram o Lula numa eleição, e tiraram o Bolsonaro dessa. Tudo isso é ativismo político do Judiciário. Eles querem e estão interferindo e tendo sucesso na pretensão de quem o povo pode e deve escolher.

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A Lei de Abuso de Autoridade não deveria abranger também essa questão do ativismo jurídico que o senhor menciona?

Ricardo Barros: Sim, claro. Lá na legislação fala assim: “Acusar quem sabidamente é inocente”. É abuso de autoridade e isso já coíbe muitos ataques que eram feitos gratuitamente. Se você pensar, a Fernanda Richa foi presa e nunca foi acusada de nada. Imagina uma pessoa ser presa e nunca ser acusada de nada. O Robson Andrade, presidente da Federação Nacional da Indústria, foi preso e nunca foi acusado de nada. Isso é abuso de autoridade. Então, a lei está aí para poder permitir a quem quiser recorrer dos abusos que sofreram.

Mas, no caso da nossa legislação, você não pode processar o juiz e nem o promotor que lhe causou uma acusação indevida, você tem que processar o Estado brasileiro, que se quiser, regressivamente, encontra quem cometeu o erro. Então, acaba ficando meio inócuo. A lei está aí para isso. Foi o que eu fiz na Covid. Eu notifiquei todos os senadores por abuso de autoridade, porque todos eles sabiam que eu não devia. Fui ouvido por duas horas na CPI, enquanto outros ficaram 10, 11 horas. Por que tão pouco tempo no meu caso? Porque liquidei eles. Me dispensaram e nunca mais me chamaram. Enfrentei eles e mostrei que estavam fazendo um circo e que metade do que foi falado lá não era verdade, que eles se prevaleciam do interesse da mídia que dizia que todos eram bandidos. Provei que não, e todas as denúncias foram arquivadas. Tive muitos ataques, que hoje são capital político para mim. Eu mostro que fui atacado, mas que não devo nada. Para o eleitor o importante é o que eu trago para o município.

Aqui no Paraná, o senhor e seu partido protagonizaram recentemente um episódio que mudou a configuração das eleições para o governo do Paraná. O senador Sergio Moro estava no seu partido, mas o senhor disse publicamente que ele não seria candidato, forçando-o a sair e buscar outra legenda. O que aconteceu para o senhor ter tomado essa posição?

Ricardo Barros: Um posicionamento nosso.

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Mas quando receberam ele, não tinha nenhuma promessa ou projeto político? O que aconteceu?

Ricardo Barros: Nada. O senador Sergio Moro estava no União Brasil, foi eleito por lá. Na verdade, ele estava antes no Podemos, saiu de última hora, foi para o União e se elegeu lá. Quando foi feita a federação do União Brasil com o Progressistas, a expectativa era de que ele se integrasse, fizesse articulação política em torno do seu projeto. Mas, por alguma razão, pelo estilo pessoal de fazer política, ele não se aproximou dos parlamentares. Então, anunciamos que, na federação, o Progressistas não homologaria a candidatura dele.

Ficamos oito meses com a federação pronta e ele não nos procurou para se integrar ao time. Quando ele percebeu que isso era necessário, ele até tentou uma interação. Mas com a decisão do Ratinho (Junior) em ser candidato a presidente, e cancelar a aliança com o PL que tinha construído no Paraná, o Moro foi convidado pelo PL e foi para lá. Era muito melhor para ele, tinha mais identidade. Fez uma mudança correta, que lhe favoreceu.

E nós cumprimos o nosso objetivo, que era não tê-lo como nosso candidato e agora negociar com qualquer das candidaturas, que é o que está acontecendo. Inclusive com ele mesmo, que percebeu a necessidade da convivência com a classe política e tem procurado o apoio da União Progressistas, com um comportamento muito dentro da expectativa que tínhamos lá no início, mas que ele achou que não era o caso.

Filipe Barros, presidente do PL (no Paraná), tem feito uma interlocução ampla para aumentar a aliança. Tínhamos um posicionamento e conseguimos o nosso objetivo, que era não ter o Moro como candidato. Na federação temos gente que é Moro, que é Ratinho Junior, que é Greca e tem gente que é da candidatura própria também — o (Marcelo) Belinati ou até a Cida Borghetti. Nós ainda precisamos maturar isso internamente e precisamos do tempo necessário para tomar uma decisão, que não será unânime, mas que dará conforto a todos os companheiros do partido. Todos merecem ser bem tratados pelo partido.

Tem uma tendência de posição para a União Progressistas hoje, aqui na eleição local?

Ricardo Barros: A federação está aberta para o diálogo com todos os candidatos. Não foi estabelecida ainda no Paraná uma comissão da federação, então ninguém tem autoridade para dizer se vai para cá, vai para lá. Eu estou falando aqui como um participante da articulação, mas minha posição não é determinante. Quando fizemos a reunião da executiva, sim, era uma decisão da executiva do partido. A presidente Maria Vitória (filha de Ricardo Barros) é que articulou a reunião e a maioria decidiu. Não era nem a posição dela, mas era o partido.

Agora nós vamos ter paciência para aguardar que aqui seja nomeada a comissão estadual e quando isso acontecer vamos fazer um debate. Nós temos correntes que tendem para todos os candidatos e também para candidatura própria. Vamos chegar a uma decisão mais confortável para todos, sem ninguém ser tratorado ou atropelado, o mais democrático possível.

Como é que o termo “Centrão” soa para o senhor? Para muita gente, causa desconforto, pois parece sempre algo que fica em cima do muro e oscila muito.

Ricardo Barros: É o Centrão quem governa o Brasil. Se ganha a direita, é centro-direita. Se ganha a esquerda, é centro-esquerda. É o Centrão quem decide as coisas no Brasil. O Lula não elegerá mais de 100 deputados nessa eleição. O Flávio Bolsonaro não elegerá mais de 100 deputados na eleição.

Para aprovar uma lei precisa de 257 votos e uma emenda constitucional, 308 votos. Então quem decide as matérias mais relevantes é o Centrão, claro, em acordo com direita e esquerda. Mas o centro sabe que sua responsabilidade é dar governabilidade para quem venceu. Então, se uma pessoa venceu a eleição, venceu com a maioria e precisa implementar o que é melhor para a maioria. O vencedor tem as propostas, mas cabe ao centro lhe dar condições de implementar aquilo que ele prometeu durante a campanha. Nós somos a governabilidade do Brasil. Desde a Constituição, o centro é quem decide o que é ou não aprovado.

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O senhor falou de direita, esquerda, o poder do Centrão, e citou a polarização. Por que o centro nunca teve um candidato forte o suficiente para vencer uma eleição para presidente?

Ricardo Barros: Eu diria que isso é circunstancial, porque como o centro está sempre dando governabilidade a um governo, ele tende a apoiar esse governo no seu projeto. Nessa eleição, por exemplo, temos o PSD, que lançou o seu candidato (Ronaldo Caiado). O Ratinho (Junior) poderia ter sido, ou o Eduardo Leite. Mas outros partidos, como o MDB, podiam, mas no Nordeste é muito governista e os líderes já têm o seu compromisso com o governo de plantão. As alianças são construídas em cima de projetos de viabilidade eleitoral. Por isso não se une em torno de um candidato, pois ainda não surgiu alguém com esse potencial de atrair diversos partidos.

O Ratinho Junior não poderia ser esse nome? O que o senhor acha que aconteceu para ele decidir não encampar essa luta?

Ricardo Barros: Sim, tinha potencial. Em função do bom governo que desenvolveu aqui, o Ratinho tinha capital político pessoal muito grande. E, eventualmente, pudesse ser uma opção para essa eleição de presidente da República, mas dificilmente ele superaria o (Flávio) Bolsonaro e o Lula para ir ao segundo turno. A polarização é que estabelece esse cenário. Mas eu acho que a decisão dele foi de caráter pessoal. (A decisão) Influenciou, obviamente, muito a eleição do Paraná. Se ele tivesse decidido logo que não iria disputar, não perderia a aliança com o PL e o cenário do Paraná hoje seria totalmente diferente.

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E isso acabou dando mais trabalho para o senhor, como articulador?

Ricardo Barros: É, deu muito trabalho. Está dando. Mas também isso aconteceu porque o Ratinho (Junior) começou o seu debate sobre sucessão estadual com quatro possibilidades: (Darci, vice-governador) Piana, (Alexandre, presidente da Assembleia Legislativa do Paraná) Curi, (Rafael, ex-prefeito de Curitiba) Greca e Guto (Silva). Ele tinha essas opções para escolher uma chapa que fosse vencedora.

Não escolheu o Piana, depois não quis o Curi e nem o Greca, que eram os mais viáveis politicamente, e substituiu o Guto pelo Sandro Alex, que não estava nas suas projeções iniciais. Então, olhando esse quadro, o que nos dá trabalho não é ele ter desistido de ser presidente, mas de escolher um outsider, um candidato que não era nem cogitado e inicia com pouca intenção de voto. Isso dificulta as alianças, a decisão dos partidos. Então o Ratinho (Junior) está tendo muito trabalho para poder tentar compor uma aliança em torno do candidato que ele escolheu.

Nós estamos ouvindo propostas de todas as correntes políticas e debatendo internamente. Acho que o cenário que está proposto é um cenário que não é impossível como muitos veem. Eu mesmo, quando fui prefeito de Maringá, tinha 1% nas pesquisas iniciais e venci a eleição. O Greca se elegeu aqui em Curitiba no PMN, que era um partido muito pequeno. A Cristina Graeml foi para o segundo turno sem nada de tempo de televisão.

O Bolsonaro também.

Ricardo Barros: Exato, o próprio Bolsonaro concorreu com pouquíssima estrutura. E nós, lá em Maringá, fizemos o sucessor por mais dois mandatos, depois o vice, o Pupin saiu de 5%, e venceu. É possível com esse desenho político, seja pelo Ratinho ou por talento pessoal do candidato ou pela estrutura. No caso do Greca decorreu do mau governo do (Gustavo) Fruet e o povo queria alguém mais experiente, que não fosse surpresa. Tudo tem uma razão de ser. A do Pupin fizemos uma frente ampla e conseguimos vencer o PT no auge deles no Brasil. É possível o Sandro vencer, mas depende de algumas coisas, como uma grande estrutura política, com uma grande aliança.

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É uma tendência de cenário a briga ficar entre o Sandro Alex e o Sergio Moro?

Ricardo Barros: Ah, sim. Se olhar do ponto de vista da lógica, do pragmatismo eleitoral, sim. Mas tem variáveis, por exemplo, que não estão se confirmando, né?

O que, por exemplo?

Ricardo Barros: Uma ampla aliança política, mas ele preteriu peças que não estão se submetendo à escolha que ele fez, como é o caso do Rafael Greca. Então, nós temos uma campanha com três candidatos de Curitiba (Greca, Moro e Requião Filho) que vão disputar com alguém de Ponta Grossa, considerando que o eleitor de Curitiba é muito conservador, então qual é a perspectiva de ele conseguir uma grande votação em Curitiba? Nenhuma. Com o que eles estão contando? Com o apoio do Eduardo Pimentel, contra o Greca? Acho difícil.

E tem que contar obrigatoriamente com Curitiba…

Ricardo Barros: Sem Curitiba não se faz um governador. Todos os governadores eleitos desde o Alvaro Dias foram prefeitos de Curitiba ou, no caso do Ratinho, disputaram contra alguém do interior, que foi a Cida. Então Curitiba é o peso maior da eleição. A equação Sandro Alex apresenta dificuldades em Curitiba, a não ser que surjam fatos novos. Não é impossível, mas não é nossa missão, pois não fomos chamados a participar da decisão. Por isso, temos interesse em avaliar se nos interessa ou não.

Muita gente não enxerga com bons olhos a figura das famílias políticas. O senhor tem a sua esposa, Cida Borghetti, que foi governadora, sua filha é deputada e seu irmão prefeito. Como o senhor analisa essa aversão das pessoas pela perpetuação de famílias na política?

Ricardo Barros: É uma questão de gosto. Quando o filho de médico é médico, quando o filho de advogado é advogado, quando o empresário consegue que o seu filho o suceda na administração da sua empresa, tudo isso é visto como sucesso. Tudo isso é visto como pessoas que fazem por amor àquela atividade gratificante. Quando a gente consegue despertar nas pessoas que estão próximas o interesse por aquilo que nós fazemos, é porque eles entendem o benefício que aquilo traz para a população.

Fiz boa dupla com o Doutor Batista, que teve muitos mandatos, o Nishimori que foi lançado por nós, o Evandro Júnior foi lançado por nós, pelo nosso grupo político. Divanir Braz Palma também, que foi deputado. Nós temos uma série de outras lideranças que fazem parte do nosso espectro de atuação política.

As pessoas precisam ter sua luz própria na política. Temos Ricardo Barros, Cida Borghetti e Maria Vitória. Não é uma transmissão de sobrenome. É uma oportunidade que cada uma dessas pessoas tem de mostrar seu talento para servir e resolver o problema das pessoas. Nós não usamos o nome para facilitar a transmissão do legado político, senão teríamos o mesmo nome. Cada um tem sua marca e personalidade, inclusive o meu irmão que tem personalidade totalmente diferente da minha.

E fui parceiro de muitos prefeitos de Maringá, que não eram do mesmo pensamento. Trouxe obras que começaram num mandato, terminaram em outro. Nós não olhamos para isso, nós olhamos para a nossa missão. Se ganhamos ou perdemos a eleição, não muda o objetivo principal, que é melhorar a vida das pessoas. É isso que vale na política.

Agora, imagina a dificuldade de um empresário quando ele percebe que nenhum filho quer tocar a empresa dele ou de um médico que construiu consultório, clientela importante, mas que não tem um sucessor. Se o filho quer ser o que o pai foi, percebeu que ele estava realizado na profissão e criou afinidade. Se não quer, é justo, mas deve ter tido algum problema, que não despertou nele o desejo da sucessão.

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