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O pecado da não indignação: brasileiro não se revolta mais contra a ostentação dos corruptos

Um milhão de dólares dos Estados Unidos. Foi o valor que o Banco Master pagou para que meia dúzia de mandriões participasse de uma degustação exclusiva de uísque e charutos. Em Nova York, claro. A notícia, derivada da investigação em curso, pode servir de inspiração para vários questionamentos, crônicas e análises sociológicas, e indignação. Comecemos pelo mau negócio: afora exclusividades em leilões, os melhores uísques do mundo – por exemplo, o Dalmore Cask Curation, US$ 37 mil – e os melhores charutos – Gurkha His Majesty, US$ 750 – jamais alcançariam essa superfaturada conta. Pior ainda, nada sugere que algum dos convivas tivesse talhe para distinguir entre raridades etílicas e produtos ordinários. Provavelmente não houve qualquer prazer degustativo, apenas ostentação.

Uma segunda análise se dá pela ótica da indignação. Deveria causar indignação o desperdício conspícuo às custas de fundos de aposentados e pirâmides financeiras. A espetacularização do luxo manifestada em eventos faraônicos destinados a cooptar a elite da República. E gestores públicos que não titubearam em participar, sabendo – ou não querendo saber – da origem e das consequências das farofadas glutonescas.

Padre Antônio Vieira dizia que há pecados por ação e pecados por omissão. Entre os últimos, poucos parecem tão brasileiros quanto o pecado da não indignação. A repetição incessante do grotesco cria anestesia moral. Brasileiros parecem ter dificuldade em resistir ao fascínio da exorbitância. Talvez seja herança colonial. Talvez seja provincianismo. Seja qual for a explicação, sempre há alguém disposto a admirar o preço da garrafa quando deveria perguntar como se pagou a conta.

Mas há uma terceira reflexão, talvez mais interessante, relacionada à exagerada vulgaridade desses convescotes. O fenômeno é histórico e, em Roma clássica, os patrícios já escreviam troças sobre as pretensões estéticas dos novos ricos. Nesta leitura, o arrivista com elevado capital econômico, mas escasso capital cultural legitimado ou herdado, adota uma postura hiperbólica em sua busca por prestígio, convertendo o consumo em um espetáculo financeiro que trai sua própria insegurança e origem de classe.

Padre Antônio Vieira dizia que há pecados por ação e pecados por omissão. Entre os últimos, poucos parecem tão brasileiros quanto o pecado da não indignação. A repetição incessante do grotesco cria anestesia moral

No mundo atual, exemplos para indignação saltam: pão e circo se transformam num ringue de UFC nos jardins da Casa Branca, uma vulgaridade com considerável custo para o contribuinte norte-americano.

Mas chama a atenção, no caso brasileiro, não apenas o caríssimo e exagerado mau gosto, mas também a ostentação como forma de cooptação. Talvez valha a explicação de Contardo Calligaris, para quem a modernização aos trancos e barrancos do país produziu uma elite cindida entre os resquícios da mentalidade colonial de favores e a futilidade do consumismo hipermoderno.

Nesta leitura, a vulgaridade cara da elite rentista brasileira é a estética do próprio capitalismo de compadrio que vigora no país, em que a proximidade entre dinheiro, influência e poder continua sendo o principal ativo de mercado. A ostentação conspícua do Faria Limer seria, desta forma, a atualização digitalizada da opulência da casa-grande, uma performance contínua que visa travestir de modernidade meritocrática o que, na prática, é o mesmo processo oligárquico de rapina patrimonial.

Em democracias consolidadas, sobretudo na Europa, o novo rico busca compensar suas limitações por meio de ações sociais. Patrocina universidades, concertos, o que seja necessário para lhe trazer a roupagem de uma burguesia ilustrada que pode conviver em ambientes seletivos.

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No Brasil, as elites rentistas não têm essa preocupação, seja pela distância murada do populacho, seja porque seu círculo próximo tampouco sente prazer estético no que não brilha muito. Ou porque acham que os Ensaios de Montaigne são lançamento de nova grife. Ou porque a rapinagem leva à urgência em comprar influência ou proteção institucional, na forma de desembargadores e deputados de baixo clero.

Da Festa dos Guardanapos à degustação de US$ 1 milhão, não há muita novidade no enfastiante espetáculo do desperdício conspícuo. Sempre numa capital importante do mundo, como se a localização geográfica trouxesse, sozinha, algum atributo intelectual.

Aliás – e esta será a observação derradeira –, a investigação em curso detalha várias dessas viagens. Sem querer parecer elitista, mas é notável a ausência – de uma, umazinha ao menos – de visita a museu, exposição, concerto. Gastaram milhões indo a Paris, sem qualquer programa cultural, sempre oferecido gratuitamente nos vários parques daquela cidade. Só que daí seria sem exclusividade e com o povaréu. Vieira reconheceria aqui, talvez, o verdadeiro pecado da não indignação. Não o charuto, não o uísque, nem mesmo a bizarrice. Mas a incapacidade coletiva de sentir constrangimento diante do gasto vazio.

Welber Barral é doutor em Direito Internacional pela USP.

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