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Ata do Copom não dissipa dúvidas sobre futuro da Selic

Na semana passada, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu mais uma vez a taxa Selic em 0,25 ponto porcentual, para 14,25% ao ano. Embora a decisão fosse esperada pelo mercado financeiro, o comunicado deixou dúvidas e gerou críticas, pois a argumentação apresentada parecia trazer mais justificativas para a manutenção da Selic em 14,50% que para sua redução, ainda que mínima. A ata da reunião, divulgada nesta terça-feira, não ajudou a dissipar os questionamentos, mesmo afirmando que os juros provavelmente seguirão altos por mais tempo que o projetado até pouco tempo atrás.

Em toda reunião, o Copom lista o que chama de “riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa”. Tanto o comunicado quanto a ata listaram quatro riscos de alta contra três riscos de baixa. O problema, no entanto, não é apenas o placar numérico, mas o fato de os riscos de alta serem mais prováveis ou mais intensos que os de baixa. Considere-se, por exemplo, o quarto desses riscos de alta: “estímulos à demanda agregada, em particular ao componente de consumo, que tenham como resultado o crescimento da atividade econômica acima do produto potencial”. Em bom português, trata-se de uma referência à gastança desenfreada do governo e às bondades eleitoreiras que incentivam o consumo, de forma a manter a economia artificialmente superaquecida em época eleitoral – um risco, aliás, que apareceu pela primeira vez (ao menos descrito com essas palavras) no comunicado e na ata desta última reunião.

O problema não é que haja mais riscos de alta que de baixa da inflação, mas o fato de os riscos de alta serem mais prováveis ou mais intensos que os de baixa

Gastança governamental – especialmente nos níveis que Lula tem imposto à destruição das contas públicas – não tem consequências apenas de curto prazo; suas consequências se prolongam no tempo, inclusive na forma de inflação. O comunicado reconhece que “o cenário havia se deteriorado desde a última decisão” e que “a projeção do Copom para o quarto trimestre de 2027, atual horizonte relevante, foi de 3,7%, evidenciando um distanciamento maior da meta relativamente à projeção da reunião anterior (3,5%)”. Por isso, a afirmação, feita mais abaixo na ata, de que a inflação estaria “convergindo para a meta no primeiro trimestre de 2028” parece mais wishful thinking que uma estimativa sólida.

Segundo a ata, o Copom não pretende “reagir integralmente a variações de preços decorrentes de choques de oferta, que no momento atual incluem incertezas relevantes” – o comitê menciona tanto os preços do petróleo, dependentes do desfecho das negociações entre Estados Unidos e Irã, quanto os preços de alimentos, que devem sofrer os efeitos do “super El Niño” previsto para os próximos meses. No entanto, ainda que faça sentido não submeter a política monetária a choques de oferta que podem ser momentâneos, há outros fatores em número e intensidade suficientes, a começar pelo enorme rombo que o governo Lula está contratando, para recomendar muita cautela nos próximos passos.

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O IPCA acumulado dos últimos 12 meses já rompeu novamente o limite máximo de tolerância; Japão, Europa, Reino Unido e Estados Unidos estão mantendo ou elevando seus juros – o que ainda diminui a atratividade da moeda brasileira com a redução entre a diferença entre a Selic e os juros estrangeiros, pressionando o câmbio. A janela que se abriu para a redução da taxa Selic meses atrás está se fechando. O presidente do BC, Gabriel Galípolo, conseguiu superar a desconfiança inicial após sua nomeação, com uma gestão técnica que resistiu às pressões políticas de Lula e do petismo; se insistir em reduzir juros em condições que aconselhariam postura diferente, colocará em risco essa credibilidade, ressuscitará os temores de uma “tombinização” do BC, e ainda correrá o risco de deixar a inflação escapar do controle mais uma vez.

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