Quadro de John Trumbull mostra cinco dos Founding Fathers apresentam o rascunho da Declaração de Independência ao Segundo Congresso Continental, na Filadélfia. (Foto: Wikimedia Commons/Domínio público)
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No próximo 4 de julho, os Estados Unidos celebrarão os 250 anos de sua independência. Poucas nações podem olhar para trás e enxergar dois séculos e meio de continuidade institucional, de estabilidade constitucional e de uma experiência de liberdade tão duradoura. Sua revolução e sua Constituição serviram de inspiração pra muitas nações, e impulsionaram o republicanismo, a democracia, o constitucionalismo e o Estado de Direito mundo afora. A data convida não apenas à comemoração, mas também à reflexão sobre a geração extraordinária que tornou tudo isso possível.
George Washington, Thomas Jefferson, John Adams, Benjamin Franklin, James Madison, Alexander Hamilton e tantos outros homens que hoje conhecemos como os Founding Fathers (os “pais fundadores”) não eram figuras mitológicas. Eram seres humanos, com virtudes e defeitos, divergências profundas e interesses muitas vezes conflitantes. O que os tornava excepcionais não era alguma característica sobre-humana, mas a combinação rara de preparação intelectual, coragem política e senso de responsabilidade histórica.
Ao contrário da caricatura moderna que reduz a política a marketing, slogans e redes sociais, aqueles homens protagonizaram uma marca política no Ocidente tendo dedicado boa parte de suas vidas ao estudo. Conheciam os clássicos gregos e romanos. Estudavam história, filosofia política, direito e economia. Eram profundamente influenciados pela tradição jurídica inglesa, por pensadores como Locke e Montesquieu, e pelas lições extraídas da ascensão e da queda das repúblicas do passado.
O que tornou os Founding Fathers excepcionais foi a combinação rara de preparação intelectual, coragem política e senso de responsabilidade histórica
Thomas Jefferson acreditava que a liberdade dependia de cidadãos capazes de compreender e defender suas instituições. Em uma de suas frases mais conhecidas, escreveu que “se uma nação espera ser ignorante e livre, espera aquilo que nunca foi e nunca será”. Para ele, a preservação da liberdade exigia conhecimento, vigilância e participação cívica.
Mas conhecimento, sozinho, não basta. Em julho de 1776, aqueles homens não estavam assinando apenas um documento. Estavam assinando uma sentença que poderia lhes custar tudo. Se a revolução fracassasse, poderiam ser enforcados por traição. Ainda assim, encerraram a Declaração de Independência comprometendo-se mutuamente com suas “vidas, suas fortunas e sua sagrada honra”.
Não foi um gesto simbólico. Muitos perderam patrimônio. Alguns perderam familiares. Todos assumiram riscos enormes. A independência norte-americana não nasceu de circunstâncias favoráveis. Nasceu porque uma geração decidiu estar à altura do desafio que a história lhe apresentou.
Anos depois, ao deixar a Convenção Constitucional da Filadélfia, Benjamin Franklin foi abordado por uma senhora que lhe perguntou qual havia sido o resultado dos trabalhos. A resposta tornou-se uma das frases mais célebres da história política: “Uma república, se vocês conseguirem mantê-la”.
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Repúblicas não sobrevivem por inércia. Constituições não se preservam sozinhas. Instituições não funcionam automaticamente. A liberdade depende da qualidade moral e intelectual daqueles que exercem o poder, mas depende também das escolhas feitas pelos cidadãos.
É justamente aí que a celebração dos 250 anos da independência americana oferece uma reflexão útil para o Brasil. Não precisamos idealizar os Estados Unidos nem imaginar que seus fundadores eram homens perfeitos. Também não faz sentido esperar o surgimento repentino de uma geração de Washingtons, Jeffersons ou Madisons brasileiros. Mas podemos nos perguntar se estamos exigindo dos nossos líderes ao menos os requisitos mínimos para o exercício da vida pública.
Temos sido rigorosos na escolha daqueles que recebem a responsabilidade de governar? Temos valorizado caráter, competência e compromisso com o interesse público? Ou continuamos premiando os mesmos grupos políticos que há décadas produzem escândalos, desperdício de recursos e sucessivas frustrações?
Em breve vamos às urnas. Talvez não consigamos eleger uma geração de fundadores. Talvez não encontremos estadistas da estatura daqueles que construíram a maior experiência republicana da história moderna. Mas já seria um enorme avanço se conseguíssemos deixar de eleger os corruptos e os ineptos.
Não precisamos idealizar os EUA nem imaginar que seus fundadores eram homens perfeitos, mas podemos nos perguntar se estamos exigindo dos nossos líderes os requisitos mínimos para o exercício da vida pública
Não votar em candidatos que apareceram nas planilhas da Odebrecht, por exemplo, já seria um começo razoável. Não premiar aqueles que usaram o Estado para benefício próprio já representaria um progresso considerável. Não entregar novamente o poder a quem fracassou repetidamente talvez seja o primeiro passo para construir algo melhor.
Os americanos tiveram seus Founding Fathers porque uma geração assumiu a responsabilidade de fundar uma nação livre. Nós não temos a tarefa de fundar o Brasil. Essa obra já foi iniciada há muito tempo, e nossa história já está farta de tentativas de refundação, que normalmente nada mais fazem do que tentar apagar o passado para repetir seus erros. Não. Temos, todavia, uma missão igualmente importante: impedir que o país continue sendo administrado por aqueles que jamais deveriam ter recebido essa responsabilidade.
Como lembrou Franklin, uma república só sobrevive se seus cidadãos forem capazes de mantê-la. E essa tarefa se renova a cada vez que entramos numa cabine de votação.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos
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