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Vitória de Keiko comprova a força política do fujimorismo no Peru

A vitória da candidata conservadora Keiko Fujimori, de 51 anos, no segundo turno da eleição presidencial no Peru comprova que, duas décadas e meia após o fim do governo do seu pai, Alberto Fujimori (mandatário entre 1990 e 2000), o chamado fujimorismo ainda é uma grande força política no país andino.

Keiko venceu na sua quarta tentativa de chegar à presidência, após ter perdido no segundo turno as eleições de 2011, 2016 e 2021.

Seu desempenho eleitoral nessas disputas comprova como o fujimorismo segue dividindo o povo peruano: exceto na eleição de 2011, quando o esquerdista Ollanta Humala teve 51,45% dos votos válidos contra 48,55% de Keiko, nos outros três pleitos a diferença foi de menos de um ponto percentual.

Durante sua gestão, Alberto Fujimori derrotou o grupo guerrilheiro Sendero Luminoso e estabilizou a economia peruana, mas foi acusado de violações de direitos humanos, de autoritarismo e corrupção.

No chamado Autogolpe de 1992, fechou o Congresso, o Judiciário, o Ministério Público, o Tribunal Constitucional e o Conselho da Magistratura.

Em 2000, acusado de corrupção, se refugiou no Japão e apresentou uma carta de renúncia à presidência peruana via fax. Porém, o Congresso peruano rejeitou o documento e aprovou seu impeachment.

Em 2005, foi preso durante visita ao Chile e foi extraditado para o Peru em 2007. Em dezembro do mesmo ano, Fujimori foi condenado a seis anos de prisão por ordenar buscas e apreensões ilegais. Em abril de 2009, veio uma condenação a 25 anos por violações de direitos humanos, pelos massacres de Barrios Altos (1991) e La Cantuta (1992), ocorridos durante seu governo.

O ex-presidente foi sentenciado posteriormente a sete anos e meio de prisão por apropriação indébita e se declarou culpado em um quarto julgamento, desta vez por suborno, o que gerou uma pena adicional de seis anos.

Em dezembro de 2023, após anos de disputas legais relativas ao perdão presidencial concedido pelo então mandatário Pedro Pablo Kuczynski em 2017, o Tribunal Constitucional do Peru decidiu pela libertação de Fujimori devido à sua idade avançada e questões de saúde (problemas gastrointestinais e cardíacos e câncer) e o ex-presidente morreu em setembro do ano seguinte, aos 86 anos.

Keiko se manteve em evidência defendendo “pilares” do fujimorismo, diz analista

Em artigo para o site do think tank Fundação para a Educação Econômica (FEE), o analista político Jake Scott disse que o nome de Alberto Fujimori é decisivo na vida política da filha, já que Keiko tem um currículo modesto na vida pública.

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Ela foi primeira-dama do Peru entre 1994 até o fim do mandato do pai, depois que sua mãe, Susana Higuchi, se separou do então presidente. Fora isso, Keiko também foi deputada, entre 2006 e 2011, após ter sido eleita para o Congresso com número recorde de votos nas eleições para o Parlamento peruano.

“Sua trajetória política está, portanto, profundamente ligada à de seu pai. Ela passou duas décadas defendendo-a em vez de vivenciá-la, o que por si só já é uma espécie de qualificação em um país onde a memória econômica muitas vezes prevalece sobre a memória institucional”, escreveu Scott.

“O modelo que seu pai implementou — liberalização comercial, ortodoxia fiscal, portas abertas para o capital estrangeiro — sobreviveu a oito mudanças de presidente em dez anos. A alegação do fujimorismo — a doutrina econômica governamental que leva o nome de Fujimori e que domina [o Peru] desde a época dele — é que somente ela pode ser considerada confiável para manter esse modelo em vigor”, acrescentou o analista, citando que as principais promessas de Keiko Fujimori são “dois pilares do próprio fujimorismo”: linha dura contra o crime organizado e “defesa intransigente” da economia de mercado.

Em entrevista à Gazeta do Povo, João Alfredo Lopes Nyegray, professor dos cursos de Negócios Internacionais e Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), disse que o plano de governo de Keiko, evocando uma linha dura contra o crime e o legado de Alberto Fujimori, “pode ter apelo eleitoral em um país cansado da violência, mas também reabre feridas históricas ligadas a autoritarismo, abusos e concentração de poder”.

“A grande questão será se ela governará como liderança de ordem dentro das regras democráticas ou se recorrerá a atalhos institucionais em nome da estabilidade”, disse o analista.

Nyegray citou outras questões que desafiam a presidente eleita: a margem pequena da vitória da conservadora e o fato de que o voto dos peruanos no exterior foi decisivo na sua vitória, sinalizando “uma fratura entre o Peru interno, rural, andino e popular, e o Peru urbano, costeiro, expatriado e mais integrado aos circuitos globais de mercado”; e as acusações de fraude eleitoral feitas pelo derrotado Roberto Sánchez, que, ainda que não tenham corroboração de observadores internacionais, podem “aprofundar a polarização e dificultar a governabilidade antes mesmo da posse”.

O analista disse ainda que o governo Keiko Fujimori tende a sinalizar maior abertura ao investimento privado, mineração, infraestrutura e estabilidade macroeconômica, o que deve agradar mercados e parceiros asiáticos, europeus e americanos, “mas há um risco”.

“Sem recompor legitimidade social, projetos extrativos podem enfrentar resistência em regiões andinas, onde a esquerda costuma ter maior força. No Peru, conflito social e mineração caminham juntos há décadas”, afirmou Nyegray.

“O Peru entra, assim, em uma situação clássica de vitória eleitoral sem pacificação política. Fujimori pode vencer formalmente, mas não necessariamente governar com estabilidade. O país teve sucessivas quedas presidenciais, Congressos fragmentados, escândalos de corrupção e uma relação predatória entre Executivo e Legislativo. Fujimori herdará um país marcado por oito presidentes em poucos anos e por forte desigualdade territorial e social”, disse o analista.

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