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Após cortes na Usaid, direita acumula vitórias em eleições na América Latina

O colombiano Abelardo de la Espriella é o mais recente presidente de direita eleito após o fim do financiamento da Usaid, agência governamental dos Estados Unidos. (Foto: EFE / Mauricio Dueñas Castañeda)

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A sequência de vitórias da direita na América Latina pode não ser uma coincidência.

Em meados de 2025, um ex-funcionário do Departamento de Estado dos EUA participou de audiências no Congresso Nacional brasileiro sobre interferências externas nas eleições brasileiras de 2022. Seu nome é Mike Benz, e cerca de um ano depois suas falas sobre os reflexos de uma possível atuação do governo do democrata Joe Biden no Brasil se encaixam perfeitamente no atual cenário político da América do Sul.

Desacreditadas pela base do governo Lula, as alegações de Benz contra a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) ganharam eco na oposição, e hoje parecem fazer ainda mais sentido. Para Benz, “se a Usaid não existisse, Bolsonaro ainda seria o presidente do Brasil”.

Quando Lula tomou posse em 2023, eram oito os países da região liderados pela esquerda – Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Guiana, Suriname e Venezuela – e quatro os de direita – Equador, Paraguai, Peru e Uruguai.

Desde 2025, quando Trump ordenou o desfinanciamento da Usaid, Chile, Bolívia, Peru, Equador e Colômbia elegeram presidentes de direita. Somem-se nossos vizinhos de tríplice fronteira, Argentina e Paraguai, e a América do Sul verá a balança do jogo político pendendo para longe da esquerda. Causa ou concidência?

Para a economista e doutora em Ciência Política e Políticas Públicas Ludmila Culpi, faz sentido associar o ocaso da esquerda na região com o enfraquecimento da Usaid. À Gazeta do Povo, ela explicou que a situação pode ter ocorrido mais como um efeito colateral favorável à direita do que propriamente pela queda na atuação da agência junto à esquerda.

Usaid era agência política “travestida” de organização humanitária

Segundo a especialista, a agência era “travestida” de organização humanitária e apoio social, mas funcionava, na realidade, como um instrumento de soft power e ingerência dos Estados Unidos na América Latina. Se no início o objetivo era reduzir a influência soviética durante a Guerra Fria, com o tempo os governos democratas foram dando outra cara à agência.

Não raro, a Usaid era vista como algo prejudicial tanto pelos dois extremos do espectro político. Para a esquerda, a agência era tida como uma ferramenta do imperialismo norte-americano na região. Para a direita, o órgão estava aos poucos se desviando de sua missão original e beneficiando pautas progressistas.

“Quando os EUA decidem desmantelar a agência, criou-se um problema. A retirada dos recursos desmobilizou grupos de esquerda, como sindicatos e ONGs, e isso pode ter aberto espaço para o fortalecimento da presença do narcotráfico em alguns locais”, explicou Culpi.

O vácuo social e institucional provocado pelo enfraquecimento da Usaid, detalhou a especialista, possibilitou a ocupação de mais territórios por parte do crime organizado. Com a criminalidade em alta, ganha força o discurso político de “tolerância zero”, como o adotado por Abelardo De la Espriella, recém-eleito presidente da Colômbia.

“A sociedade está bem polarizada por lá, assim como aqui no Brasil. E esse cenário da segurança pública parece ter fortalecido o candidato da direita. Tem uma certa ironia aí, porque é uma agência que foi criada para minar a influência soviética, que depois passou a apoiar causas da esquerda e seu fim marca uma guinada à direita no continente”, completou a economista.

Usaid foi criada nos anos 1960 para minar influência soviética

Oficialmente, a Usaid era uma agência criada na década de 1960 onde foram unificados os programas de ajuda externa do governo dos Estados Unidos. Com a estratégia do soft power, o órgão tinha como meta pública promover o desenvolvimento econômico e social na África, Ásia e América Latina.

Com o tempo, porém, os objetivos foram se tornando outros, menos nobres. Nas audiências das quais participou remotamente em Brasília, Mark Benz expôs uma série de documentos, inclusive com valores pagos em dólares pela Usaid para uma rede que envolveu 11 agências governamentais.

Esta rede, reforçou o norte-americano, tinha como principais atores além da Usaid a Agência Central de Inteligência (CIA), o Pentágono, sede do Departamento de Defesa, e a Casa Branca.

Juntas, as forças despejaram mais de US$ 90 milhões nas operações da Usaid no Brasil durante o governo de Jair Bolsonaro (PL). Para quê? Segundo Benz, os recursos serviam, entre outras coisas, para instrumentalizar ONGs e agências de checagem no “controle da informação”.

Nas operações denunciadas por ele, entidades brasileiras teriam recebido treinamento sobre censura como pretexto de combate à desinformação. “O objetivo era fortalecer a oposição e censurar os conservadores, principalmente nas redes sociais”, reforçou Benz.

Ações financiadas pela Usaid tinham pouco de “ajuda humanitária”

Outras ações financiadas pela Usaid foram expostas pela Casa Branca quando Trump decidiu fechar as torneiras de verbas para a agência. Entre os gastos mais recentes foram descritos US$ 1,5 milhão para promover políticas DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão) nos locais de trabalho da Sérvia; US$ 70.000 para uma produção de um musical DEI na Irlanda; US$ 32.000 para uma “história em quadrinhos transgênero” no Peru; e US$ 47.000 para uma “ópera transgênero” na Colômbia.

Além do financiamento de iniciativas de caráter identitário, sob o guarda-chuva da Usaid ainda estavam o custeio de políticas de controle populacional e incentivo à promoção ou legalização do aborto em países pobres e repasses para entidades ligadas a grupos terroristas como o Hamas. Assim como os alegados convênios de fomento ao controle da liberdade de expressão, tais ações tinham pouco ou quase nada da “ajuda humanitária” prometida originalmente pela agência.

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