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Um século de Alan Greenspan, defensor do liberalismo econômico

Greenspan foi um defensor do liberalismo econômico, tão em falta no continente. Que essas ideias possam finalmente se espalhar pela região. (Foto: EFE/Alex Cruz)

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Faleceu hoje, por complicações da doença de Parkinson, o ex-chairman do Federal Reserve Alan Greespan, com cem anos. Greenspan presidiu o Fed num momento delicado, recebeu críticas dos libertários e elogios de muitos economistas clássicos. Vou resgatar parte da visão política de Greenspan em sua homenagem, principalmente com base em sua autobiografia A era da turbulência.

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No livro, o economista faz uma análise bem acurada sobre o populismo que assola a América Latina, que continua bastante atual. “O capitalismo na América Latina ainda é, na melhor das hipóteses, uma luta”, diz Alan Greespan. Diante da pergunta sobre a causa das crises econômicas frequentes nas décadas de 1970, 1980 e 1990, Greenspan resume numa resposta simples, afirmando que, “com muito poucas exceções, a América Latina não conseguiu desarmar-se do populismo econômico que, em sentido figurado, desarmou todo um continente em sua competição com o resto do mundo”. Em outras palavras, o capitalismo de livre mercado jamais nos deu o ar de sua graça, obstruído pelo eterno populismo.

O século XX não foi bom para a região. Greenspan lembra, com base nas análises do historiador econômico Angus Maddison, que a Argentina começou o século com um PIB per capita real maior que o da Alemanha e equivalente a quase três quartos do americano. No fim do século, o PIB per capita argentino tinha declinado para metade ou menos do da Alemanha e dos Estados Unidos. Como conclui Alan Greespan, “apenas a África e a Europa Oriental apresentaram desempenho pior”. A América Latina parece estar competindo para ver qual continente fica mais miserável.

É uma pena que Alan Greespan, de longe, tenha feito um diagnóstico tão acertado dos problemas da América Latina, enquanto tantos economistas próximos insistem nas ‘soluções milagrosas’ do populismo

Greenspan explica o que entende por populismo: “Sob o populismo econômico, o governo cede às demandas do povo, sem levar muito em conta os direitos individuais ou as realidades econômicas sobre como aumentar ou mesmo apenas sustentar as riquezas do país”. Em outras palavras, “ignoram-se as consequências econômicas adversas das políticas públicas, por deliberação ou sem intenção”.

Diante de uma série ininterrupta de fracassos, a busca por bodes expiatórios é constante. Os Estados Unidos são o alvo preferido. “Erroneamente”, lamenta Greenspan, “ainda hoje os Estados Unidos são vistos como a principal causa da miséria econômica ao sul de suas fronteiras”. Os povos latinos agem como devedores irresponsáveis, que vivem gastando mais do que ganham, e depois ficam culpando os bancos por sua situação calamitosa. O sucesso dos mais responsáveis e trabalhadores incomoda, e passa a ser acusado pela própria miséria, com a ajuda de uma visão marxista de que o ganho de um deve ser exploração do outro.

Esse populismo é “atitude muito pouco racional”. Para Alan Greespan, é “mais um grito de dor”. Ele explica: “Os líderes populistas fazem promessas irresistíveis para eliminar ou atenuar situações percebidas como injustas. As panaceias mais comuns são a redistribuição de terras e o indiciamento de uma elite corrupta que, alegadamente, rouba dos pobres; os líderes prometem terra, habitação e comida para todos”.

O termo ‘justiça’ é usado de forma abusiva, geralmente na acepção redistributiva, ao lado do termo ‘social’, na maioria das vezes indo contra o conceito objetivo de justiça. Esse populismo é o oposto de liberalismo: “Em todas as suas formas, evidentemente, o populismo econômico se opõe ao capitalismo de livre mercado”. O duro é aturar a esquerda populista insistir que a culpa dos nossos males está justamente no “neoliberalismo”, inexistente na região.

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Reverter o quadro não é uma tarefa trivial. O populismo resiste mesmo diante dos mais contundentes fracassos. Greenspan diz: “A melhor evidência de que o populismo é basicamente uma reação emocional, em vez de algo baseado em ideias, é o próprio fato de não recuar, mesmo em face de reiterados fracassos”.

O povo latino-americano costuma colocar mesmo as emoções à frente da razão. O populismo é o resultado disso. Alan Greespan elabora sobre os motivos desse apelo emocional: “O populismo econômico imagina um mundo mais simples e direto, no qual as estruturas teóricas não passam de dispersões em relação às necessidades evidentes e prementes. Seus princípios são simples. Se há desemprego, o governo deve contratar os desempregados. Se o dinheiro está escasso e as taxas de juros, em consequência, estão altas, o governo deve impor limites artificiais ou, então, imprimir mais dinheiro. Se as importações estão ameaçando empregos, proíba as importações”.

Os populistas ignoram as calculadoras: “A visão populista equivale à contabilidade por partidas simples. Registra apenas os créditos, como os benefícios imediatos da redução dos preços da gasolina. Acredito que os economistas devem praticar a contabilidade por partidas dobradas”. O que Greenspan quer dizer é que os populistas desconhecem conceitos como “custo de oportunidade”, e nunca levam em conta “aquilo que não se vê”, como alertava Bastiat. A visão é totalmente míope, e vale apenas o que os olhos enxergam no curtíssimo prazo, sem nenhuma capacidade de compreensão dos nexos causais ao longo do tempo.

É uma pena que Alan Greespan, de longe, tenha feito um diagnóstico tão acertado dos problemas da América Latina, enquanto tantos economistas próximos insistem nas “soluções milagrosas” do populismo. Greenspan foi um defensor do liberalismo econômico, tão em falta no continente. Que essas ideias possam finalmente se espalhar pela região.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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