A recente controvérsia envolvendo declarações do empresário Luciano Hang, que classificou as universidades federais como “guetos da esquerda” e entraves ao desenvolvimento, reacendeu um debate estrutural que o Brasil evita há décadas.
O dono das lojas Havan afirmou que Santa Catarina se beneficiou de ter apenas uma universidade federal, enquanto o Rio Grande do Sul tem seis. Na lógica dele, quanto mais universidades federais, pior.
Para além da retórica política, a análise do sistema federal exige confrontar dados sobre desempenho científico, formação de profissionais e inovação com críticas crescentes à qualidade do gasto público, à gestão das instituições e ao viés ideológico.
Políticos, reitores e entidades ligadas ao ensino superior reagiram às declarações de Hang, feitas durante a inauguração de uma megaloja da Havan em Taquara (RS), no fim de maio. Em resposta, representantes do setor destacaram a participação das universidades federais na formação de profissionais, na pesquisa científica e na produção acadêmica do país.
Para além da controvérsia, o episódio recolocou em discussão uma questão raramente explorada no debate público: como seria o ensino superior brasileiro sem as universidades federais?
Embora o modelo seja uma característica marcante do sistema educacional brasileiro, diversos países desenvolvidos estruturaram seus sistemas universitários de forma diferente, sem manter uma rede federal semelhante à existente no Brasil. O que aconteceria se o país seguisse um caminho parecido?
Um modelo incomum no cenário internacional
Os Estados Unidos, por exemplo, abrigam algumas das universidades mais prestigiadas do mundo, mas não mantêm uma rede federal de universidades comparável à brasileira.
As principais instituições americanas pertencem aos estados ou são privadas. Harvard University, Stanford University, Yale University e Massachusetts Institute of Technology (MIT) são privadas. Já universidades como Michigan, Texas, Califórnia e Wisconsin pertencem aos respectivos governos estaduais.
O governo federal financia pesquisas, bolsas e programas de crédito estudantil, mas não administra uma ampla rede nacional de universidades.
O Canadá segue lógica semelhante: o ensino superior é responsabilidade das províncias. No Reino Unido, as universidades são instituições autônomas financiadas por diferentes governos regionais. Na Austrália, embora o financiamento público seja expressivo, também não existe uma rede federal comparável à brasileira.
Em outras palavras, a presença de universidades públicas não é uma exclusividade do Brasil. O que diferencia o país é o protagonismo da União como mantenedora direta dessas instituições.
O tamanho da máquina federal
Hoje, o Brasil possui 69 universidades federais, responsáveis pela formação de mais de um milhão de estudantes. Os custos são expressivos: salários, aposentadorias, assistência estudantil, manutenção de campi, hospitais universitários e laboratórios consomem dezenas de bilhões de reais por ano.
Nos últimos quatro anos, o orçamento das universidades federais apresentou uma trajetória de recuperação gradual após o período de restrições fiscais imposto pelo teto de gastos e pelos efeitos da crise sanitária da covid-19.
Em 2021, o orçamento total executado foi de aproximadamente R$ 51,2 bilhões. Em 2022, o montante subiu para cerca de R$ 53,5 bilhões, alcançando R$ 55,7 bilhões no ano seguinte. Para 2024, o orçamento autorizado ultrapassou os R$ 59 bilhões.
Apesar da expansão nominal dos recursos, reitores e entidades representativas do setor sustentam que a recomposição não foi suficiente para atender às necessidades das instituições. A principal preocupação recai sobre as chamadas despesas discricionárias — recursos destinados ao funcionamento cotidiano das universidades, como contas de água e energia, contratos de limpeza e segurança, manutenção de laboratórios, assistência estudantil e bolsas acadêmicas.
Diferentemente dos gastos obrigatórios, como salários e aposentadorias, essas despesas podem ser contingenciadas pelo governo ao longo do exercício fiscal.
Embora o Brasil gaste no ensino superior público valores próximos aos observados em países da OCDE quando analisado o investimento por estudante, o custo individual continua elevado. Estimativas baseadas em dados do Tesouro Nacional indicam que um aluno de graduação em universidade federal custa ao contribuinte entre R$ 35 mil e R$ 50 mil por ano. Na pós-graduação, especialmente em áreas que exigem laboratórios e bolsas, o valor pode superar R$ 100 mil anuais.
Defensores das universidades federais argumentam que esses recursos financiam atividades essenciais de ensino, pesquisa e extensão. Críticos sustentam que parte desse montante poderia gerar maior retorno social se fosse direcionada à educação básica.
A discussão não é simples. Enquanto o país destina bilhões de reais ao ensino superior público, a educação básica continua registrando indicadores de aprendizagem que permanecem abaixo da média observada na maior parte do mundo desenvolvido.
Caso as universidades federais não existissem, parte desses recursos poderia ser direcionada a creches, alfabetização, ensino fundamental ou formação de professores. A economia, porém, não seria integral. Mais de um milhão de estudantes continuariam precisando de vagas no ensino superior.
Quem absorveria os estudantes?
A hipótese mais provável seria a expansão do setor privado. O próprio Censo da Educação Superior mostra que a ampla maioria das matrículas brasileiras já se encontra em instituições particulares.
Em 2024, o país ultrapassou a marca de 10 milhões de estudantes no ensino superior, e o crescimento recente ocorreu principalmente fora da rede pública. Sem as universidades federais, parte da demanda poderia migrar para instituições privadas, possivelmente com apoio de bolsas, vouchers ou programas de financiamento subsidiados pelo governo.
Outra possibilidade seria o fortalecimento das universidades estaduais, reproduzindo parcialmente o modelo norte-americano. Estados mais ricos poderiam ampliar sistemas já consolidados, como os de São Paulo, que incluem a Universidade de São Paulo, a Universidade Estadual de Campinas e a Universidade Estadual Paulista.
O problema é que essa capacidade de absorção seria desigual. Enquanto estados mais desenvolvidos poderiam expandir rapidamente a oferta, regiões mais pobres dependeriam de subsídios públicos adicionais ou de uma forte expansão do ensino a distância.
As universidades federais entregam resultados proporcionais ao investimento?
Essa é uma das perguntas mais sensíveis do debate. Em rankings internacionais, as universidades públicas brasileiras costumam liderar o cenário nacional. USP, Unicamp, UFRJ, UFMG e outras instituições aparecem regularmente entre as melhores da América Latina.
Ao mesmo tempo, nenhuma universidade brasileira figura de forma consistente no grupo mais seleto ocupado por instituições como MIT, Stanford, Oxford ou Cambridge. Nos últimos anos, diversas universidades brasileiras perderam posições relativas diante de concorrentes internacionais.
Críticos argumentam que o elevado volume de recursos públicos não se traduz em desempenho proporcional quando comparado aos centros acadêmicos mais competitivos do planeta.
Defensores respondem que a comparação ignora diferenças econômicas profundas. Universidades como Harvard possuem patrimônios bilionários superiores ao PIB de muitos países, enquanto as instituições brasileiras dependem quase exclusivamente de recursos públicos.
Entre excelência científica e controvérsias acadêmicas
A discussão sobre o retorno do investimento público costuma evidenciar duas narrativas distintas. De um lado, as universidades federais concentram boa parte da produção científica brasileira e desempenham papel estratégico em setores-chave da economia. De outro, são alvo recorrente de críticas relacionadas à gestão, à orientação ideológica de parte do corpo acadêmico e ao financiamento de pesquisas consideradas de interesse restrito.
A relevância das universidades federais se manifesta especialmente na pesquisa. Elas concentram grande parte da produção científica nacional e da pós-graduação brasileira.
Ao longo das últimas décadas, a cooperação entre universidades, centros de pesquisa e a Embrapa contribuiu para avanços que ajudaram a transformar o Brasil em uma potência agrícola global, com ganhos expressivos de produtividade em culturas como soja, milho e algodão.
No campo da inovação, instituições como Unicamp, USP e UFMG figuram regularmente entre as universidades brasileiras com maior número de depósitos de patentes e acordos de transferência tecnológica. Embora a maior parte das patentes pertença ao setor privado, as universidades desempenham papel relevante na formação de pesquisadores e no desenvolvimento de tecnologias de longo prazo.
Ao mesmo tempo, determinadas pesquisas e manifestações artísticas desenvolvidas em ambiente universitário ganharam repercussão nacional por abordarem temas ligados à sexualidade, identidade de gênero ou crítica cultural.
Casos envolvendo estudos sobre práticas sexuais em espaços públicos, performances artísticas provocativas ou pesquisas sobre corporalidade tornaram-se exemplos frequentemente citados por críticos das universidades públicas para questionar a aplicação de recursos públicos.
Defensores dessas iniciativas argumentam que a liberdade acadêmica pressupõe autonomia para investigar fenômenos sociais, culturais e comportamentais, mesmo quando os temas despertam controvérsia ou rejeição em parte da sociedade.
Ideologia e ambiente universitário
Poucos temas despertam tanta discussão quanto a predominância de visões progressistas no ambiente universitário.
Pesquisas realizadas ao longo das últimas décadas, tanto no Brasil quanto em outros países ocidentais, apontam uma presença proporcionalmente maior de professores identificados com posições de esquerda ou centro-esquerda do que de direita. Episódios de militância política, ocupações estudantis, protestos e manifestações ideológicas alimentam críticas de setores conservadores.
Mas o fenômeno está longe de ser exclusivo das universidades federais brasileiras. Instituições privadas e estaduais nos Estados Unidos, Reino Unido e Canadá enfrentam debates semelhantes.
Isso sugere que uma eventual extinção das universidades federais não eliminaria necessariamente essas disputas. Em muitos casos, os mesmos pesquisadores e docentes continuariam atuando em instituições estaduais ou privadas.
Greves e disputas sobre financiamento
Outro foco recorrente de debate envolve as paralisações promovidas por docentes e servidores técnico-administrativos.
A greve nacional de 2024, uma das maiores da última década, afetou o calendário acadêmico de diversas instituições e recolocou em pauta discussões sobre remuneração, financiamento e condições de trabalho.
Críticos afirmam que a frequência dessas mobilizações evidencia problemas de gestão e excessiva dependência de negociações sindicais. Já representantes dos trabalhadores sustentam que as paralisações refletem anos de perdas salariais, restrições orçamentárias e deterioração da infraestrutura universitária.
O que o Brasil perderia sem as federais?
A principal consequência de uma eventual extinção das universidades federais não estaria apenas na oferta de vagas para estudantes, mas na capacidade nacional de produzir ciência.
Laboratórios, hospitais universitários, programas de pós-graduação e centros de pesquisa dependem de estruturas construídas ao longo de décadas com recursos públicos. Áreas como vacinas, agricultura tropical, saúde pública, engenharia, energia e tecnologia exigem investimentos contínuos, cujos resultados frequentemente levam anos para aparecer.
Nos Estados Unidos, parte dessa função é desempenhada por universidades privadas bilionárias sustentadas por fundos patrimoniais, doações e investimentos privados. O Brasil não possui tradição semelhante de financiamento filantrópico em larga escala.
Por isso, mesmo entre críticos do atual modelo, existe relativo consenso de que qualquer substituição das universidades federais exigiria a criação de mecanismos alternativos robustos para financiar pesquisa científica, inovação tecnológica e formação avançada de recursos humanos.


