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Crianças ativistas e currículos ideológicos: o plano globalista da ONU para a educação

Até 2030, metade das escolas do mundo vai hastear uma bandeira verde. A imagem parece simbólica, mas descreve uma meta concreta da Unesco, monitorada em tempo real por um painel operado em Paris e já adotada por 112 mil escolas de 98 países.

O plano integra a Parceria para uma Educação Verde (Greening Education Partnership), uma iniciativa global da entidade que busca incorporar temas relacionados às mudanças climáticas e à sustentabilidade aos sistemas de ensino — ao longo de todas as etapas da educação básica.

No final de abril, a campanha ganhou uma cara brasileira. Durante a comemoração do Dia da Terra, a ONU destacou um colégio de Cotia, na Grande São Paulo, como modelo mundial da educação sustentável. A Escola Ágora, fundada em 1985, virou uma espécie de vitrine oficial do projeto.

A narrativa divulgada pela Unesco (o órgão da ONU voltado à educação, ciência e cultura) é conhecida: o planeta aquece, as crianças precisam aprender a salvá-lo e as escolas são o lugar certo para começar. Até aí, tudo bem, ninguém é contra as árvores

O problema aparece quando se lê o programa inteiro. Não os materiais para a imprensa, mas os documentos técnicos — que definem como uma criança de 5 anos tem de se sentir, o que um professor deve ensinar e quem vai monitorar se ambos estão cumprindo o combinado.

O que a Unesco chama de educação ambiental é, segundo seus próprios arquivos, uma verdadeira reforma curricular global. Com metas por faixa etária, auditoria e um sistema de certificação que decide quais escolas merecem o selo de qualidade.

A questão não é se as mudanças climáticas existem, e sim quem decide o que seu filho aprende por causa delas.

“Engajamento comunitário”

A Parceria para uma Educação Verde foi lançada pela Unesco em 2022. O programa tem quatro pilares: infraestrutura física, currículo, formação de professores e “engajamento comunitário” (o núcleo escolar como agente de transformação de seu entorno).

O termo técnico usado pelo órgão é whole institution approach (“abordagem de toda a instituição”). Em outras palavras, a escola deixa de ser um lugar onde se ensina e passa a ser um “laboratório de resiliência climática”.

O projeto é baseado no Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4.7 da ONU. E aqui vale ler o que essa diretriz determina, porque o texto oficial vai além do meio ambiente.

A meta é garantir que todos os estudantes adquiram conhecimentos para promover o desenvolvimento sustentável, incluindo “estilos de vida sustentáveis, direitos humanos, igualdade de gênero, cultura de paz, cidadania global e apreço pela diversidade cultural”. Não é uma interpretação, está tudo registrado e disponível nos canais da entidade.

Crianças pressionando prefeitos

O documento mais revelador é o Greening Curriculum Guidance, o guia curricular de “ecologização” publicado pela Unesco em 2024. É nele que a reforma deixa de ser abstrata e vira um conjunto de competências organizadas por faixa etária e aplicáveis desde a creche.

Para os alunos de 5 a 8 anos, o texto estabelece duas prioridades. “Nutrir o amor pela natureza e a conexão sensorial com o meio ambiente” e “Assumir responsabilidade individual e adotar hábitos cotidianos sustentáveis”. Não se trata só de ensinar o ciclo da água, mas de formar uma conduta.

Na faixa dos 9 aos 10 anos, o programa avança. Além de metas como horta escolar, compostagem e gestão de resíduos, os estudantes devem desenvolver “advocacia e liderança” para “influenciar políticas municipais”

O texto fala em “agência relacional” — a passagem da iniciativa individual para uma ação coletiva e política, capaz de influenciar sistemas e tomadores de decisão. Traduzindo: a Unesco quer que crianças pequenas pressionem prefeitos.

Monitoramento permanente

O guia também trata dos livros didáticos. De acordo com o plano de implantação, os governos devem “fornecer orientação substantiva sobre educação verde para redatores”.

Já o conteúdo precisa seguir o “balizamento científico” do IPCC, o painel climático da ONU. Isso significa que, antes de escrever, os autores devem seguir a orientação de um organismo internacional sobre o conteúdo permitido.

Há ainda uma sala de monitoramento permanente, para garantir que as metas avancem na mesma direção. É o Global Dashboard, um sistema desenvolvido pela Unesco em parceria com a Icesco (a Organização do Mundo Islâmico para a Educação, as Ciências e a Cultura).

O painel coleta dados em tempo real sobre escolas, currículos e a “capacidade dos professores” de implementar as diretrizes. Surge então uma pergunta legítima: como fica o defendido padrão “global” se o instrumento de acompanhamento tem um recorte cultural e religioso tão específico?

Alinhamento e padronização

Para evitar controvérsias, o Greening Curriculum Guidance afirma que “reconhece a diversidade de diferentes contextos nacionais e locais nos quais a aprendizagem ocorre, e a autoridade dos governos para determinar o conteúdo dos currículos educacionais em seus países”.

Mas o documento em si já é controverso. Porque a Unesco estabelece resultados de aprendizagem por faixa etária para todos os países, orienta redatores de livros didáticos, define qual ciência é válida e monitora, em tempo real, se cada nação está cumprindo o combinado.

A soberania aparece, de leve, no guia. O direito de dizer “não”, nem tanto.

Não há previsão para o professor que discorda da abordagem. Ou para a família que não quer ver seu filho 8 anos sendo treinado para “adotar hábitos cotidianos sustentáveis” definidos por um organismo em Paris.

A linguagem é de “harmonização” e “ação coordenada” — termos que, no vocabulário das organizações internacionais, costuma significar alinhamento e padronização.

Tudo pelas metas

A Unesco discorda da leitura de que esteja promovendo uma uniformização global da educação. Em entrevista à Gazeta do Povo, a coordenadora do Setor de Educação do órgão no Brasil, Rebeca Otero, disse que a entidade atua apenas como fornecedora de “referências técnicas, evidências e orientações globais” para apoiar governos.

Ao mesmo tempo, Rebeca descreve a Parceria para uma Educação Verde como uma “transformação sistêmica” que envolve currículo, gestão escolar, formação docente e engajamento comunitário. E defende conceitos centrais do programa, como “cidadania global” e “agência” — este último, segundo ela, é a capacidade de “mobilizar conhecimento e valores para transformar práticas locais e contribuir para metas globais”.

Sobre o monitoramento internacional, a coordenadora afirma que os mecanismos acompanham a expansão das escolas verdes, a inclusão da mudança climática nos currículos, a formação de professores e a capacidade dos sistemas educacionais. O objetivo não poderia ser outro: garantir que os países atinjam as metas estabelecidas até 2030 (a obsessão explícita que norteia todo o programa).

Acesso ao selo global

Essa agenda não chegou ao Brasil pelo MEC. Tampouco passou pela aprovação do Congresso. Sua porta de entrada foi uma OSCIP — Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, uma entidade privada sem fins lucrativos que pode firmar parcerias com governos e organismos internacionais.

Sediado em Florianópolis, o Instituto Ambientes em Rede (IAR) representa a Foundation for Environmental Education (FEE), organização criada na Dinamarca e presente em mais de cem países. A FEE, por sua vez, coordena o Eco-Escolas, um programa internacional voltado à certificação de instituições de ensino alinhadas a critérios de sustentabilidade.

Nos últimos anos, o Eco-Escolas foi incorporado ao projeto da Parceria para uma Educação Verde da Unesco. E é justamente por meio dessa rede que o modelo global se multiplica no Brasil (já são 30 escolas reconhecidas pelo IAR).

Em entrevista à Gazeta do Povo, Aline Tiagor, coordenadora nacional do programa, confirmou que o instituto é “a única instituição, junto com o próprio Programa de Educação Ambiental da Unesco, responsável pelo credenciamento de Escolas Verdes pelo Greening Education Partnership” no país.

O IAR ainda afirma que o financiamento das atividades do Eco-Escolas no Brasil vem de taxas de anuidade pagas pelas instituições participantes, parcerias institucionais, patrocínios, projetos apoiados por editais públicos ou privados e “eventualmente, cooperação internacional”.

Recapitulando a cadeia: a Unesco e a FEE definem os padrões. O IAR os implementa a partir de Florianópolis. E as escolas o executam em todo o país. O acesso ao selo global de “escola verde” depende de uma única entidade no Brasil, sem vínculo com o poder público e que alimenta um sistema internacional de monitoramento com dados de escolas brasileiras.

“Não existe mais Brasil e Estados Unidos”

Mas por que a Ágora acabou nas páginas oficiais da ONU?

O colégio não passou pelo Instituto Ambientes em Rede nem foi credenciado pelo programa Eco-Escolas. A própria fundadora, a educadora Terezinha Fogaça, disse não conhecer o IAR ao ser procurada pela reportagem da Gazeta do Povo.

Segundo Terezinha, a indicação partiu do Instituto Alana, uma ONG paulistana ligada à agenda de educação e sustentabilidade, que já mantinha uma longa relação com a Ágora. Foi o Alana que levou educadores estrangeiros para conhecer o trabalho da escola e, posteriormente, sugeriu sua indicação para a Unesco.

O motivo da escolha fica claro quando se observa a visão educacional defendida pela fundadora. “O aluno não está na escola para aprender apenas conteúdos tradicionais”, resume Terezinha Fogaça.

A Ágora tem área verde, composteira, teto solar, horta. Mas o que a tornou atraente para a Unesco vai além da infraestrutura. A instituição defende uma pedagogia de imersão na natureza em que, segundo a educadora, “o aprendizado que passa pelo corpo é muito mais significativo do que o que vai direto pro cérebro”.

Os alunos constroem cabanas, cultivam plantas e passam um tempo significativo ao ar livre. Além disso, a escola usa materiais da Unesco e da ONU para trabalhar temas como imigração.

Essa visão de mundo que orienta o projeto conversa diretamente com a agenda global. “Não existe mais Brasil e Estados Unidos. Nós estamos todos no mesmo barco que se chama planeta Terra”, diz a fundadora.

A Ágora é particular, fica num terreno arborizado em Cotia e atende famílias que escolheram aquele modelo. Quando questionada sobre como replicar a experiência em escolas públicas da periferia (onde faltam áreas verdes, professores treinados e uma infraestrutura básica), Terezinha sugere começar “pelo pequeno”.

“Por que não plantar um boldo, para quem está passando mal do fígado tomar um chazinho? Ou fazer uma horta para temperar a merenda escolar que o governo manda?”, ela propõe.

É uma resposta bem-intencionada. Mas que revela, sem querer, a distância entre o mundo imaginado pelos educadores verdes e a realidade das 180 mil escolas públicas brasileiras.

O problema começa antes

Para a educadora Anamaria Camargo, presidente do Instituto Livre pra Escolher e autora do livro Escola Woke: Como o Método Paulo Freire Foi Retrofitado para os Dias de Hoje, o problema começa antes mesmo da agenda climática.

“Apenas 3,2% dos alunos da terceira série do ensino médio têm aprendizagem adequada em língua portuguesa e matemática”, diz a pesquisadora, citando o Anuário da Educação Básica de 2024. É nesse contexto que a Unesco propõe integrar sustentabilidade, valores e “agência transformadora” em todas as disciplinas.

Na visão de Anamaria, a questão não está nas árvores nem na reciclagem. A pergunta é outra: quem tem legitimidade para definir os objetivos da educação?

Ela cita o pesquisador britânico Ben Williamson, que usa o termo “psicocracia” para descrever sistemas que tentam orientar comportamentos larga escala. Afinal, definir quais valores devem ser ensinados também significa influenciar a maneira como as pessoas interpretam a realidade.

“O que fica claro é que há, por parte da ONU, a certeza de que seus especialistas têm mais capacidade de definir as pautas do currículo das crianças brasileiras do que os pais e mães”, afirma Anamaria.

A pesquisadora destaca que, em 2024, o governo Lula sancionou alterações na Política Nacional de Educação Ambiental alinhadas a compromissos internacionais assumidos pelo país. Para ela, a discussão vai além do clima. É sobre entender como metas definidas por organismos internacionais se transformam em políticas públicas, currículos e práticas pedagógicas dentro das escolas brasileiras.

Quando os pais descobrem a mudança, o rumo já foi definido.

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