Elon Musk se tornou o primeiro trilionário da história com lançamento de ações da SpaceX. (Foto: Gian Ehrenzeller/EFE/EPA)
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Quando li que um homem sozinho havia passado a valer um trilhão de dólares, esperei sentir o que parecia obrigatório sentir: a náusea moral, a indignação seletiva que dispensa apresentações. Fiquei diante do número à espera do soluço. Não veio. Veio uma vontade menos nobre e mais teimosa: a de conferir a conta.
Não escrevo para defender Elon Musk. Não tenho ação da Tesla, não dirijo o carro, não embarco no foguete, e ele não precisa de mim. A raiva tem motivo de sobra. O que me incomoda é a aula de economia que vem amarrada nela, e que reconheço de longe, como quem já corrigiu o mesmo erro em prova demais de Sociologia. Duas crenças voltam toda vez. Convém pegá-las separadas.
A primeira diz que há fome no mundo porque ele é rico – que a riqueza de um é a pobreza redistribuída de muitos. Tem a elegância de uma equação. Para ser verdadeira, precisaria que o dinheiro dele tivesse saído do bolso de alguém: tantos dólares a menos no Sudão para tantos a mais na conta de Musk. Mas o trilhão não foi tirado de canto nenhum. Surgiu onde antes não havia carro elétrico em escala, nem foguete reaproveitado, nem a própria ação que hoje se cota. Riqueza, na maior parte das vezes, nasce, é produzida; não muda de mão. Quem faz a riqueza mudar de mão é o Estado, que não produz nada. Imaginar o mundo como um bolo de tamanho fixo, em que a fatia maior de um saiu do prato do vizinho, é cômodo e é errado – pra não dizer outra coisa.
O trilhão de Elon Musk não foi tirado de canto nenhum. Surgiu onde antes não havia carro elétrico em escala, nem foguete reaproveitado, nem a própria ação que hoje se cota
E há um detalhe que desmonta essa aritmética infantil antes mesmo de ela começar. O trilhão é um número de tela: o preço das ações multiplicado pela parte que ele detém, vivo enquanto ninguém o toca. Não é dinheiro empilhado em parte alguma. Dinheiro no banco. No instante em que tentasse virar aquilo em comida, isto é, vender, o preço começaria a cair antes da terceira parcela: vender em massa derruba a cotação que sustentava a conta. O patrimônio capaz de acabar com a fome do mundo evapora no gesto de sacá-lo. Prometer o jantar com ele é apontar para a foto no cardápio e mandar comer. Curiosamente, só o Estado brasileiro arrecada mais e resolve menos.
Resta a fome, que comparece sempre como a fatura que o rico se recusa a pagar. Aqui o erro muda de natureza. Amartya Sen mostrou há 40 anos – e cito de segunda mão, sem ter lido as mil páginas – que as grandes fomes modernas vieram do colapso do acesso à comida, não da sua escassez: guerra, moeda destruída, governo que confisca, estrada que não existe, milícia que para o caminhão antes da aldeia. Despejaram-se centenas de bilhões em ajuda humanitária em meio século, e a fome continua, porque o gargalo nunca foi a ausência de um doador rico o bastante. Fome em massa quase não acontece em democracia com imprensa livre. Tratá-la como conta a quitar à vista é confessar que nunca se olhou de perto para fome nenhuma.
A segunda frase é mais idiota: não deveria existir bilionário, ponto. A acumulação seria imoral em si, não importa como se deu. É a velha vontade de nivelar. E vou dizer o que pega mal dizer de um certo lado: nem Marx engolia isso. Nos Manuscritos de 1844 ele já tratava com desprezo o que chamou de comunismo grosseiro, a inveja universal fantasiada de justiça, o sujeito que olha a fortuna do outro e só pensa em dividi-la e ir dormir. Marx gastou depois três volumes para mostrar que capital é uma relação social, e não um cofre cheio que o vilão se recusa a abrir. Atacar a mera existência do rico, e só isso, é argumentar à esquerda de Marx pela ignorância, não pela radicalidade.
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Concedo agora o que há para conceder, e há bastante. A fortuna do homem não é o conto de fadas do empreendedor que venceu sozinho no quintal. Boa parte dela foi adubada com dinheiro público: subsídio a carro elétrico, contrato bilionário com agência espacial, encomenda de governo. Isso poderia ser analisado na perspectiva, por exemplo, do capitalismo de compadrio, e investigá-lo devia ser tarefa de quem diz prezar o mercado e as virtudes republicanas, antes de ser bandeira da esquerda.
Só que repararam na coisa certa pelo motivo errado. Penduraram uma crítica que se sustenta sozinha – a do poder concentrado, a do dinheiro público servindo a interesses específicos – no argumento que não para em pé de jeito nenhum, o da aritmética moral do trilhão. O estrago é esse: quem ataca o homem pela conta do patrimônio erra na primeira linha e perde, junto, o crédito da acusação que era boa. O adversário não precisa nem defender o indefensável. Basta corrigir a planilha e sair por cima, com a vantagem imerecida de parecer o único adulto numa sala de gente gritando.
Eu queria a indignação e me sobrou a calculadora. É a parte menos nobre de mim, e a única que não mente sobre o tamanho da conta. Continuo sem ação da Tesla e sem náusea – só com a teimosia de quem não consegue aplaudir uma conta errada, nem quando ela vem do lado que, sendo bem generoso, poderia até ter alguma razão.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos
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