“Brasil lidera o envelhecimento na América Latina”. Essa é a manchete dos jornais ultimamente, informando que 15,8% da população brasileira tem mais de 60 anos, enquanto a média da região é de 13,4%, segundo estudo do IBGE. O tema vem sendo amplamente repercutido por diferentes veículos de comunicação, quase sempre acompanhado de um tom de alerta e preocupação.
Embora os dados sejam relevantes, a chamada da reportagem merece reflexão. O Brasil é o maior país da América Latina, concentrando cerca de 47% do território da América do Sul e uma população significativamente superior à de países como Argentina, México e Chile. Nesse contexto, não surpreende que o país apresente números absolutos e até percentuais elevados em indicadores demográficos. A questão central, portanto, talvez não seja liderar o envelhecimento, mas compreender como estamos envelhecendo e o que fazemos com essa realidade.
O Brasil está, sim, envelhecendo. A pergunta que permanece é: vamos tratar isso apenas como um problema ou teremos coragem de enxergar o envelhecimento como parte de uma sociedade mais diversa, longeva e, por que não, mais humana?
Segundo o IBGE, a população com 65 anos ou mais cresceu 57,4% em pouco mais de uma década, enquanto as faixas etárias mais jovens encolheram. Em 2022, o grupo mais numeroso da população brasileira já estava entre 35 e 39 anos, evidenciando a inversão da pirâmide etária. O país envelhece mais rápido do que se tornou rico, e essa é a raiz do problema.
É inegável que o aumento da população acima de 60 anos impõe desafios importantes ao poder público, sobretudo nas áreas de saúde, previdência e assistência social. Com famílias cada vez menores e uma pirâmide etária que se inverte rapidamente, parte do cuidado que antes era compartilhado no âmbito familiar passa a recair sobre o Estado. Além disso, a redução da taxa de natalidade e o envelhecimento acelerado indicam o fim do chamado bônus demográfico, fazendo com que uma base menor de jovens precise sustentar uma população mais longeva.
Daí emergem duas reflexões. A primeira diz respeito à responsabilidade das novas gerações, que arcarão com os custos econômicos e sociais do envelhecimento, seja por meio de impostos, seja pela necessidade de garantir o funcionamento de sistemas públicos pressionados por essa nova configuração demográfica. Ignorar esse cenário é comprometer o futuro.
A segunda reflexão é ainda mais profunda e, talvez, mais urgente: será que 60 anos ainda definem alguém como idoso? Ao estabelecer um marco etário rígido para a velhice, a sociedade corre o risco de reduzir o indivíduo a um rótulo que, muitas vezes, limita sua participação social, produtiva e simbólica. Em um contexto em que as pessoas vivem mais, com melhor saúde e maior acesso à tecnologia, esse enquadramento parece cada vez mais inadequado.
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Ainda nesse ponto, surge na sociedade o conceito de NOLT (New Older Living Trend), uma nova tendência de as pessoas viverem a maturidade, rejeitando os estereótipos tradicionais da velhice, mantendo um estilo de vida ativo, conectado, curioso e protagonista. São indivíduos que continuam aprendendo, trabalhando, empreendendo e fazendo planos, longe da ideia de improdutividade ou isolamento.
Diante dessa realidade, talvez o maior desafio não seja o envelhecimento em si, mas a forma como a sociedade escolhe lidar com ele. Cabe repensar políticas públicas, práticas organizacionais e, sobretudo, mentalidades. Envelhecer não pode ser sinônimo de exclusão. Pelo contrário: aproveitar o conhecimento, a experiência e os talentos de uma população mais madura pode ser uma das maiores oportunidades sociais e econômicas do nosso tempo.
O Brasil está, sim, envelhecendo. A pergunta que permanece é: vamos tratar isso apenas como um problema ou teremos coragem de enxergar o envelhecimento como parte de uma sociedade mais diversa, longeva e, por que não, mais humana?
Aline Mara Gumz Eberspacher é doutora em Sociologia pela Université Paul Valéry (Montpellier III – França) e coordenadora dos cursos de pós-graduação do Centro Universitário Internacional Uninter.


