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“Não foi incompetência, foi projeto”: cientista político diz que Estado sabotou a educação brasileira 

Quando um sistema falha repetidamente, a pergunta inevitável deixa de ser “o que deu errado” e passa a ser “se isso foi proposital”. É essa suspeita, fundamentada em fatos, episódios concretos e uma vasta tradição intelectual, que o cientista político Pablo Navarro transforma em argumento no seu novo livro, O Sistema Falhou. Com endosso do deputado Luiz Philippe de Orléans e Bragança, a obra investiga como estruturas de poder no Brasil foram capturadas por uma visão de mundo de esquerda, com consequências que se estendem da política educacional ao ativismo judicial, passando pelo aparelhamento cultural e pela construção de narrativas que moldam a opinião pública. Num momento em que o governo Lula aprofunda sua influência sobre o Ministério da Educação e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) segue impondo métodos de alfabetização contestados pela neurociência, o livro chega como um mapa para quem quer entender os padrões por trás de crises que insistem em parecer desconexas. Navarro conversou com a coluna Entrelinhas sobre os principais argumentos da obra.

Entrelinhas: No livro, você afirma que as instituições brasileiras foram capturadas por uma determinada visão de mundo. Quais são, na sua avaliação, os principais indícios desse processo?

Navarro: O principal indício é a inversão completa da relação entre o Estado e o cidadão. Teóricos marxistas e populistas, como Ernesto Laclau e Antonio Gramsci, entenderam que para controlar uma nação a classe política precisa primeiro remodelar a sociedade civil à sua imagem por meio da hegemonia cultural. Vemos isso claramente no ativismo judicial, no patrulhamento do “politicamente correto” e na unilateralidade ideológica das universidades e da grande mídia. O resultado prático é o que o deputado Luiz Philippe de Orleans e Bragança descreve com precisão: a redução da sociedade a uma entidade meramente pagadora de impostos, sem voz ativa. É o triunfo da visão hegeliana da “razão de Estado”, que para se impor destrói a ordem social e a família tradicional. Quando isso acontece, o bom senso é sacrificado no altar da ideologia. Um exemplo contundente disso na nossa história recente foi o desfecho do caso Henry Borel, onde narrativas ideológicas muitas vezes atropelaram o mais prosaico direito à justiça e à verdade factual.

Entrelinhas: Você argumenta que existe uma influência ideológica significativa no sistema educacional. Quais exemplos concretos mais evidenciam isso para você?

Navarro: Os indícios mais gritantes estão no colapso dos nossos resultados pedagógicos e na própria estrutura da Base Nacional Comum Curricular, a BNCC. O Brasil amarga desempenhos pífios em exames internacionais como o PISA porque nossa política educacional deliberadamente abandonou a ciência em nome da ideologia. A BNCC ainda insiste em diretrizes de alfabetização baseadas no chamado “método global”, de reconhecimento visual da palavra inteira. Como demonstra o neurocientista francês Stanislas Dehaene, essa abordagem ignora o funcionamento biológico do cérebro e compromete a potência leitora dos alunos pelo resto da vida — um método fracassado que nações desenvolvidas abandonaram há décadas. Essa degradação não é um acidente, mas um projeto de poder. Como Edmund Burke dizia, a educação é “a defesa mais barata das nações”. Sabendo disso, a elite política inverteu essa lógica: para reduzir a proatividade da população e torná-la refém de políticas assistencialistas, o Estado sabota a base intelectual do país.

Entrelinhas: Na sua visão, qual é a diferença entre ensinar política e história de forma crítica e promover doutrinação ideológica em sala de aula?

Navarro: A diferença fundamental está no horizonte de possibilidades oferecido ao estudante. Ensinar de forma genuinamente crítica significa apresentar um currículo amplo, expondo uma variedade de autores de todas as vertentes ideológicas, sem proselitismo, permitindo que o aluno desenvolva autonomia intelectual. A doutrinação faz o oposto: confisca o debate e oferece uma única lente ideológica, rotulando qualquer discordância como erro ou opressão. Esse processo opera em duas etapas integradas. Primeiro, sabota-se a capacidade cognitiva na alfabetização por meio do método global. Depois, preenche-se esse vazio intelectual com os chamados “temas geradores” de Paulo Freire — temas que não nascem do interesse espontâneo do aluno, mas são selecionados deliberadamente para fomentar o ressentimento, o ódio ao livre mercado e o ataque às bases da família tradicional. O pretenso “senso crítico” da pedagogia hegemônica brasileira nada mais é do que o adestramento para a militância.

Entrelinhas: O problema educacional brasileiro é mais uma questão de ideologia ou de baixa qualidade de ensino? Como esses fatores se relacionam?

Navarro: Ambos os fatores se relacionam de maneira direta e simbiótica: a ideologia hegemônica é, por definição, a causa direta da baixa qualidade do ensino. A noção pós-moderna de que não existe conhecimento objetivo, aliada à deturpação das teorias construtivistas de Piaget e Vygotsky, uniu-se à tese de Paulo Freire de que professores e alunos estão na mesma posição hierárquica. O resultado prático é uma educação distópica. Ao nivelar por baixo e destituir o professor de sua autoridade legítima, destruiu-se a disciplina e o foco no mérito. Os docentes foram transformados em meros “facilitadores”, forçados a seguir a cartilha progressista de órgãos centralizadores como o MEC e a BNCC, sem reconhecimento ou remuneração meritocrática. Platão já alertava em A República que a desordem social ocorre quando os despreparados galgam postos de autoridade e invertem as hierarquias naturais. Os planejadores da educação pública brasileira são o exemplo acabado dessa profecia.

Entrelinhas: Você aborda temas como ativismo judicial e aparelhamento cultural. Em que momento esses fenômenos passam a representar um risco real para a democracia?

Navarro: Esse fenômeno deixa de ser um debate intelectual e passa a ser um risco terminal para a democracia no exato momento em que o Estado confisca a verdade e impõe uma visão de mundo radical como critério de cidadania. O exemplo mais escandaloso recente foi a abordagem do agronegócio no ENEM de 2023. O que vemos ali é a destruição da meritocracia técnica em favor de um pedágio ideológico: o estudante é obrigado a reproduzir os preconceitos do examinador para ter acesso ao ensino superior. Esse mecanismo guarda um paralelo assustador com a chamada “psiquiatria punitiva” da União Soviética: no regime soviético, quem discordava da cartilha oficial era rotulado como insano. No Brasil de hoje, guardadas as devidas proporções, o método de cancelamento institucional é análogo. Quando o direito de discordar é punido com a exclusão social ou a reprovação em exames de Estado, a democracia se transforma em fachada para uma ditadura de pensamento único.

Entrelinhas: Muitos professores rejeitam a acusação de doutrinação e afirmam apenas promover pensamento crítico. Como você responde a esse argumento?

Navarro: Eu respondo que esse pretenso “pensamento crítico” é uma fraude semântica. O que ocorre hoje nas salas de aula não é sequer a doutrinação clássica, mas um processo anterior de estupidificação completa. Aldous Huxley percebeu com precisão cirúrgica que a propaganda ideológica irracional só funciona quando se destrói a capacidade do indivíduo de compreender a relação real entre as palavras e os fatos. É exatamente isso que a elite pedagógica faz: sabota a cognição para depois moldar a conduta. O crítico de educação John Taylor Gatto denunciou como o modelo escolar compulsório foi desenhado para formar engrenagens obedientes, e não indivíduos pensantes. Esse “pensamento crítico” alegado pelos professores não busca a evolução intelectual do aluno, mas sim a sua mobilização como massa de manobra coletivista. Como bem sintetizou Thomas Sowell: no ecossistema estatal, um bom professor não é aquele cujos alunos aprendem mais, mas aquele que exemplifica os dogmas predominantes do establishment educacional.

Entrelinhas: Se você pudesse propor três mudanças imediatas para melhorar a educação brasileira e reduzir a polarização ideológica nas escolas, quais seriam?

Navarro: Minhas propostas se baseiam na reforma educacional promovida sob Ronald Reagan nos Estados Unidos, por meio do célebre relatório A Nation at Risk — um programa tão eficiente que suas premissas foram mantidas décadas depois até mesmo por governos progressistas, como o de Barack Obama. Proponho sua aplicação adaptada ao Brasil em três eixos. Primeiro, a elevação drástica dos padrões acadêmicos: substituir o atual modelo de aprovação automática pelo estabelecimento de metas rigorosas de proficiência em matemática, ciências e língua portuguesa. Segundo, meritocracia real para o corpo docente: implementar bonificação e pagamento atrelados a resultados educacionais verificáveis, eliminando o corporativismo ideológico dos sindicatos. Terceiro, pluralidade de escolha e resgate de valores: garantir o direito dos pais na escolha do modelo de ensino dos filhos — blindando o homeschooling e as escolas comunitárias — associado ao resgate de valores morais e virtudes clássicas na formação do indivíduo. Desideologizar o ensino significa, antes de tudo, focar de maneira intransigente na busca pela alta performance.

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