Historicamente, uma “república das bananas” é um termo depreciativo para designar pequenas nações instáveis da América Latina dominadas por uma elite corrupta. Esses regimes se mantinham no poder por meio de eleições manipuladas, repressão da oposição, capitalismo de compadrio e o saque sistemático de recursos públicos, tudo isso enquanto projetavam uma tênue aparência de legitimidade democrática. A população sofria na pobreza, enquanto a elite vivia em luxo ostensivo.
Tragicamente, esse arquétipo já não pertence apenas a trópicos distantes. Agora ele descreve a Califórnia — a economia subnacional mais rica do planeta e o exemplo mais claro de decadência institucional nos Estados Unidos.
O produto interno bruto da Califórnia supera o de quase todos os países soberanos. O estado é berço de tecnologias transformadoras e a capital global do entretenimento. No entanto, por trás da superfície reluzente das avaliações do Vale do Silício e do glamour de Hollywood, existe uma ordem política que se tornou cada vez mais autoritária, opaca e voltada para seus próprios interesses.
O estado já não é governado por visões concorrentes do bem público. Ele é controlado por um único partido que capturou todas as alavancas do poder institucional.
Os democratas ocupam o governo estadual, todos os cargos constitucionais de âmbito estadual, supermaiorias com poder de veto nas duas casas do Legislativo e uma esmagadora maioria dos assentos da Califórnia no Congresso. Os republicanos foram relegados à irrelevância cerimonial por mais de 20 anos. Em qualquer república autêntica, uma oposição vigorosa funciona como um freio natural ao poder. Na Califórnia, esse freio foi sistematicamente desmontado.
Esse monopólio é sustentado e protegido por um dos sistemas eleitorais mais permissivos e menos responsáveis dos Estados Unidos. Todo eleitor registrado recebe automaticamente uma cédula pelo correio. Nenhuma solicitação ou justificativa é necessária. As cédulas podem chegar até sete dias após o dia da eleição, desde que tenham sido postadas dentro do prazo.
A coleta de cédulas por terceiros não é apenas legal, mas generalizada. Não há exigência de identificação do eleitor para cédulas enviadas pelo correio. Os mesários, em geral, são proibidos de solicitar identificação, exceto em circunstâncias muito restritas. A verificação de assinaturas costuma ser superficial e facilmente “corrigida” com pouca fiscalização.
Mais grave ainda, as cédulas são rotineiramente separadas de seus envelopes assinados antes da contagem, eliminando qualquer cadeia de custódia confiável.
Ainda mais preocupante, a lei da Califórnia permite explicitamente que os eleitores escrevam à mão a data em sua cédula ou no envelope de devolução. Cédulas que chegam atrasadas podem ser aceitas com base nessa data autodeclarada — mesmo que o carimbo postal esteja ausente, ilegível ou com data posterior ao dia da eleição. Críticos descrevem isso, com razão, como um mecanismo legalizado para retrodatagem de votos.
As consequências são previsíveis e recorrentes. Nas primárias para a prefeitura de Los Angeles em 2026, o republicano Spencer Pratt tinha uma vantagem expressiva de 8,1 pontos na noite da eleição. Até sua adversária progressista, Nithya Raman, parecia pronta para reconhecer a derrota. Então chegaram as cédulas tardias enviadas pelo correio, que favoreceram amplamente Raman, que acabou ultrapassando Pratt por cerca de 3.100 votos. Reviravoltas dramáticas de última hora como essa se tornaram uma característica previsível da política californiana, e não uma anomalia.
Quando cidadãos e observadores exigiram maior transparência, o governador Gavin Newsom respondeu com ainda mais restrições.
Dias antes das primárias, ele sancionou a Lei do Senado nº 73, que limita severamente o acesso a registros de eleitores, cédulas e tecnologias eleitorais, ao mesmo tempo em que impõe penalidades criminais — de até três anos de prisão — por “interferência” definida de forma vaga.
Horas depois, ele provocou publicamente os críticos com a mensagem grosseira “FAFO, Donald” – uma gíria agressiva do inglês que comunica algo como “fez besteira e vai se dar mal”, só que de forma xula -. Não se trata da retórica de confiança democrática, mas do desprezo de um governante entrincheirado que vê qualquer desafio à sua autoridade como ilegítimo — expresso com toda a sofisticação de um troll de rede social.
Para piorar, Newsom destinou milhões de dólares dos contribuintes — incluindo um contrato de cerca de US$ 19 milhões com a empresa Edelman, sediada em Nova York — para contratar consultores de relações públicas encarregados de melhorar a imagem desgastada da Califórnia e convencer o público de que tudo está bem.
O espetáculo de um estado em dificuldades usando recursos públicos para fazer propaganda de seu próprio sucesso captura perfeitamente o espírito de uma república das bananas.
Enquanto esse teatro político se desenrola, os fracassos concretos da Califórnia se multiplicam. O estado apresenta a maior taxa de pobreza ajustada ao custo de vida dos Estados Unidos, extensos acampamentos de moradores de rua que degradam suas outrora grandes cidades, furtos generalizados no varejo que levaram grandes redes a fechar lojas, escolas públicas em declínio e um êxodo crescente de empresas e famílias de classe média.
Um orçamento estadual de US$ 800 bilhões, ainda assim, não consegue resolver esses problemas básicos, mas financia de forma consistente as prioridades da coalizão governante e de seus financiadores.
A classe dominante, por sua vez, permanece protegida e confortável.
Bilionários da tecnologia, elites de Hollywood e poderosos interesses sindicais desfrutam de condomínios fechados, segurança privada e influência desproporcional em Sacramento, enquanto discursam sobre equidade para os mesmos cidadãos cujas vidas foram prejudicadas por suas políticas.
Newsom, um político multimilionário, encarna perfeitamente a hipocrisia do regime: prega virtude climática e justiça social enquanto preside o aumento dos custos de energia, o aprofundamento da pobreza e a deterioração institucional.
A Califórnia já foi um polo de ambição, inovação e reinvenção. Tornou-se, em vez disso, um experimento fracassado evidente de poder progressista sem controle.
Repúblicas verdadeiras não temem a transparência em suas eleições, não proíbem a exigência de identificação nas urnas nem permitem a retrodatação manual de votos. Repúblicas verdadeiras não criminalizam o ceticismo nem protegem a classe governante da responsabilização.
A Califórnia cruzou essa linha. A menos que seus cidadãos encontrem vontade para restaurar uma competição política genuína, o termo “república das bananas” deixará de ser um exagero retórico e se tornará a descrição mais precisa do maior e outrora mais grandioso estado dos Estados Unidos.
Drew Thomas Allen é colunista da Califórnia no Daily Signal, jornal conservador ligado à Heritage Foundation. Autor de livros conservadores como America’s Last Stand e For Christ and Country: The Martyrdom of Charlie Kirk, além de seu mais recente Clinton Hoax, Obama Coup: The Declassified Story of the Trump–Russia Delusion.
©2026 Daily Signal. Publicado com permissão. Original em inglês: California Is America’s Banana Republic


