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Por que a Copa está fazendo os europeus mudarem de ideia sobre os EUA

Em 2018, quando a FIFA anunciou Estados Unidos, Canadá e México como sedes da Copa do Mundo de 2026, boa parte das discussões girou em torno de dois temas: o suposto desinteresse dos americanos pelo futebol e o impacto das políticas migratórias sobre a chegada de turistas estrangeiros.

Até poucos meses antes do torneio, jornais europeus e americanos publicavam reportagens sobre visitantes receosos de viajar ao país diante do endurecimento das regras de imigração. Ao mesmo tempo, persistia a percepção de que os EUA seriam um anfitrião improvável para o principal evento do esporte mais popular do planeta.

Mas um fenômeno inesperado começou a ganhar força nas redes sociais: turistas estrangeiros, especialmente europeus, registrando surpresa — e até encantamento — com aspectos da vida americana que raramente aparecem no noticiário internacional.

Um alemão conquista os americanos

O caso mais emblemático é o do alemão Freddy, conhecido nas redes como @FreddyLA7. Ele viajou aos EUA para acompanhar a seleção alemã e passou a documentar sua jornada pelo país. Em poucos dias, transformou-se em uma espécie de símbolo informal da Copa.

O alcance de suas publicações chamou atenção até do Departamento de Estado americano, que compartilhou uma de suas postagens no X.

Uma de suas primeiras publicações mostrava a paisagem de Atlanta. “Atlanta é tão verde que parece uma floresta”, escreveu. O post acumulou quase 6 milhões de visualizações. Em outra postagem, após visitar uma unidade do Taco Bell, classificou a rede como “a terra sagrada”.

O conteúdo também alcançou milhões de visualizações. Mais tarde, sua primeira experiência em uma unidade do Waffle House durante a madrugada ultrapassou 7 milhões de visualizações e gerou milhares de curtidas e compartilhamentos.

Embora os posts sejam simples, eles despertaram enorme interesse entre os americanos. Parte do sucesso decorre justamente do contraste entre a imagem que muitos estrangeiros possuem dos EUA e a experiência retratada pelo turista alemão.

Não é um caso isolado

Freddy não está sozinho. Outros visitantes estrangeiros também passaram a relatar suas descobertas sobre os EUA durante a Copa. Um deles é o alemão Finn Agostinelli, conhecido nas redes como Fiago.

Assim como Freddy, ele transformou sua viagem em uma sequência de vídeos sobre o cotidiano americano. Em Chicago, chamou atenção ao elogiar a organização da cidade, a cordialidade dos moradores e o forte sentimento patriótico dos americanos. Em uma das publicações mais compartilhadas, aparece diante de uma enorme bandeira dos EUA e comenta que admira a forma como os americanos demonstram orgulho do próprio país.

Entre os ingleses, o criador de conteúdo Paul Gregory também passou a documentar sua experiência no país. Seus vídeos mostram visitas a atrações turísticas fora do circuito do futebol, como o Centro Espacial Kennedy, na Flórida, além de registros de viagens por rodovias americanas, restaurantes e centros comerciais.

Outro caso que viralizou envolve um torcedor inglês identificado apenas como John. Em um vídeo amplamente compartilhado, ele reage com espanto ao tamanho de um Big Gulp, o tradicional copo gigante vendido pela rede de conveniência 7-Eleven. A publicação gerou milhares de comentários de americanos divertidos com a surpresa do visitante diante de algo considerado absolutamente comum no país.

Turistas suecos também entraram na onda. Alguns deles acumularam centenas de milhares de visualizações ao experimentar pela primeira vez produtos considerados comuns pelos americanos, como o molho ranch. Outros registraram visitas às gigantescas lojas Buc-ee’s – rede de postos de gasolina e conveniência que se tornou uma atração turística em vários estados do Sul.

Embora cada perfil tenha um estilo diferente, todos compartilham uma característica comum: o interesse por aspectos do cotidiano americano. Em vez de focar nos debates políticos que costumam dominar a cobertura internacional dos Estados Unidos, esses criadores de conteúdo registram restaurantes de estrada, supermercados, paisagens urbanas, parques, estádios, lojas de conveniência e encontros casuais com moradores locais.

À primeira vista, o fenômeno parece apenas uma curiosidade da internet. Mas a repercussão sugere algo mais profundo: o choque entre a imagem que muitos europeus construíram dos EUA e a experiência concreta de quem visita o país.

A imagem americana na Europa

Durante décadas, a relação da Europa Ocidental com os Estados Unidos foi marcada por uma combinação de admiração e desconfiança. Os EUA continuam sendo uma potência cultural, tecnológica e econômica, mas também são frequentemente associados, no imaginário europeu, ao consumismo excessivo, à polarização política, à violência urbana, à desigualdade social e ao conservadorismo religioso.

Pesquisas recentes indicam que essa visão crítica permanece forte. Um levantamento divulgado pelo Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR) mostrou que apenas 11% dos entrevistados em 15 países europeus classificam os EUA como um aliado. O índice caiu em relação aos 22% registrados no fim de 2024 e reflete uma deterioração da confiança europeia na parceria estratégica com Washington.

Outros estudos apontam em direção semelhante. Pesquisadores do Pew Research Center observam há anos a existência de diferenças importantes entre americanos e europeus em temas como religião, papel do Estado, individualismo e política externa.

Um levantamento divulgado pelo instituto neste ano mostrou que países como Alemanha, França, Espanha, Holanda e Suécia registram níveis elevados de avaliação negativa dos EUA. Na Suécia, por exemplo, 79% dos entrevistados declararam ter uma visão desfavorável do país. Em todos esses casos, as avaliações negativas superam as positivas.

Os mesmos estudos revelam, porém, uma distinção importante. A avaliação negativa costuma estar mais relacionada ao governo americano, à política externa ou ao ambiente político do país do que aos próprios americanos. Em diversas pesquisas realizadas pelo Pew ao longo dos últimos anos, os entrevistados demonstraram opiniões mais favoráveis sobre o povo americano do que sobre Washington.

O precedente brasileiro

Há um precedente interessante para esse processo. Antes da Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil, grande parte da cobertura internacional enfatizava problemas como violência urbana, atrasos em obras, gargalos de infraestrutura e os protestos que tomaram as ruas do país nos meses anteriores ao torneio.

Após a competição, porém, pesquisas do Ministério do Turismo apontaram que 95% dos visitantes estrangeiros pretendiam voltar ao Brasil. A ampla maioria também afirmou que a experiência no país atendeu ou superou suas expectativas.

Guardadas as diferenças entre os dois países, a Copa de 2026 parece reproduzir um mecanismo semelhante. Visitantes chegam carregando impressões formadas por anos de cobertura política e acabam encontrando um país mais complexo — e, em muitos casos, mais acolhedor — do que imaginavam.

Especialistas em relações internacionais costumam definir esse tipo de fenômeno como uma manifestação de soft power — a capacidade de um país influenciar percepções e conquistar simpatia não por meio da força, mas através da cultura, do contato humano e da experiência direta.

O futebol talvez nunca ocupe nos EUA o mesmo espaço que ocupa na Alemanha, no Brasil ou na Argentina. Tampouco a Copa resolverá as divisões políticas que marcam a sociedade americana. Ainda assim, o torneio já parece produzir um resultado inesperado: permitir que milhares de visitantes conheçam um país diferente daquele que costumam encontrar nas manchetes.

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