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O presidente, o enforcamento e a regulação

A proposta de uma punição letal contra um opositor passou quase sem reação. Para o presidente, o custo foi baixo. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

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Lula disse que o senador Flávio Bolsonaro merece ser enforcado como traidor da pátria. Não foi uma gafe — como alegou o presidente quando disse que traficantes são vítimas dos usuários de drogas. Na ocasião, houve uma espécie de desmentido — ou seja, a versão oficial foi de que não era sua intenção dizer aquilo.

Muitos dizem que não faz diferença. Que se trata, no mínimo, de um ato falho — ou seja, alguém expressar sem querer aquilo que realmente acha. E a fala fica ali, registrada em vídeo e repetida inúmeras vezes em diversas mídias, “testemunhando” o que realmente foi dito. De qualquer forma, faz muita diferença quando há um desmentido ou uma alegação de mal-entendido.

Dessa vez, ao que se saiba, não houve nada disso. Nenhuma atenuante surgiu no radar; nem mesmo uma dessas “fontes próximas” procurou mitigar o ataque, alegando qualquer coisa, até mesmo um momento de destempero. Nada. Segundo Lula, Flávio Bolsonaro merece a forca. E ponto final.

Insultos e agressões fazem parte da política. Já se viu de tudo. A questão está em comparar a contundência do ato com a respectiva repercussão na sociedade — e que consequências esse ato teve

Nesse aspecto, as coisas estão estranhas, bem estranhas mesmo, em torno dessa fala do presidente da República sobre seu (até aqui) principal concorrente eleitoral.

Cada época tem o seu contexto — que determina a dimensão do ato agressivo. Quase três décadas atrás, por exemplo, o ex-governador Leonel Brizola declarou que o então presidente Fernando Henrique Cardoso deveria ser “metralhado”. O país tinha acabado de passar pela maxidesvalorização do real após a crise da Rússia, e o nascente segundo mandato de FHC no Planalto estava sob ataque de todos os lados.

Brizola era um retórico — um político habituado a usar linguagem figurativa, licenças poéticas e diversas expressões espirituosas que caíram na boca do povo. E, depois de fazer barba, cabelo e bigode na política com o Plano Real, adquirindo força inclusive suficiente para colocar a reeleição na Constituição — a tempo de se beneficiar da mudança —, FHC estava no alvo. Qualquer vereador, naquele momento, tinha o seu petardo na agulha contra o presidente.

Mesmo com a conjuntura acima descrita, que de certa forma atenuava (ou pelo menos contextualizava) o ataque de Brizola, a declaração leviana do ex-governador teve ampla repercussão — e recebeu ampla rejeição na sociedade. Fernando Henrique tinha por hábito não passar recibo, não reclamar do noticiário e não judicializar seus conflitos. Mas os tempos eram outros.

Hoje existe a hipersuscetibilidade geral. Existe a indústria dos ofendidos. E existe a alegação de combate ao “discurso de ódio” para cercear a crítica — mesmo aquela que não seja mero exercício do ato de odiar. Ou seja: hoje todos estão pisando em ovos para se expressar publicamente, para dirigir uma reação pertinente a alguma autoridade ou instituição, porque se normalizou a demonização da crítica. Frequentemente, no estranho padrão atual, criticar é afrontar a democracia…

E enforcar? O que seria?

Nada. Pelo menos a julgar pela suavidade com que a declaração de Lula foi assimilada pela sociedade. O presidente da República declarou, furiosamente, aos palavrões, quase aos berros, que seu principal concorrente eleitoral merece ser punido com a forca. Será que voltamos para 1999?

Mesmo em 1999, a tirada mórbida de Brizola pareceria um afago perto da declaração pensada e calculadamente proferida por Lula. O presidente chegou, inclusive, a conclamar os brasileiros a “meditarem” sobre o que ele estava dizendo.

A sociedade, o Estado e as forças de coerção, tão rigorosos com qualquer adjetivo mais azedo, deixaram passar essa. A proposição de um ato de violência contra um opositor, revestida pela ideia de punição com uma medida letal que não está na lei, saiu bem barata para o presidente. Pelo menos até aqui, pode-se dizer que a “regulação” das mentes tem suas exceções especialíssimas.

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