Na Primeira Carta a Timóteo (1Tm 1,9-10), São Paulo nos informa: “a Lei não foi feita para o justo, mas para (…) os impudicos, os infames, os traficantes de homens, os mentirosos, os perjuros e tudo o que se opõe à sã doutrina”. Palavras duras, sem dúvida. Na Vulgata, o termo que a Bíblia Ave Maria traduz como “traficantes de homens” é plagis, compartilhando a mesma raiz de “plagiador”. No mundo clássico, plagiarius significava “sequestrador”, e o termo acabou evoluindo para a expressão comum que usamos hoje quando alguém sequestra as palavras de outra pessoa.
Neste momento, uma epidemia de plágio está varrendo o sistema universitário. Nada menos que o Harvard Crimson (o jornal oficial dos estudantes da Universidade Harvard) relata que 47% dos alunos de graduação daquela histórica universidade da Ivy League admitem ter cometido plágio. Quando estudantes reduzem, reutilizam ou reciclam as palavras de outras pessoas, é plágio; quando acadêmicos o fazem, é “emprestar livremente” ou “apoiar-se fortemente”. No fundo, no fundo, porém, trata-se de roubo. Roubo de propriedade intelectual, talvez, mas roubo ainda assim.
Disposta a não se deixar vencer por dois milênios de práticas duvidosas de citação, a inteligência artificial entra em cena. É uma tecnologia nova e brilhante, com enorme potencial, financiamento ainda maior… e uma capacidade incomparável de plagiar. Em meio ao alvoroço e às manchetes sobre a IA salvando vidas ou ameaçando empregos, é fácil ignorar os processos judiciais. O recente acordo da Anthropic sobre utilização de material protegido por direitos autorais de editoras americanas sem autorização alcançou a casa dos bilhões de dólares. Estou ansioso para receber meu cheque.
A inteligência artificial é uma tecnologia nova e brilhante, com enorme potencial, financiamento ainda maior… e uma capacidade incomparável de plagiar
Os problemas nunca estão em uma nova tecnologia; o que faz a diferença é a forma como os seres humanos a utilizam. São Thomas More aconselhou sabiamente, em O Homem que não vendeu a sua alma: “Eu deveria apenas dizer ao rei o que ele deve fazer, não o que ele pode fazer”. A inteligência artificial, como tudo o mais, está sujeita à ética, à moral, aos caprichos e às fantasias dos seres humanos envolvidos. Quem dirá às empresas de IA o que elas devem fazer? Ou, para usar um exemplo caro aos amantes dos faroestes: quem será o homem do chapéu branco?
A semana passada marcou a publicação da primeira encíclica do papa Leão XIV, Magnifica humanitas, na qual o pontífice discute a IA e a humanidade. Em seguida, houve uma cerimônia de lançamento, com vários cardeais comentando a obra. Curiosamente, um dos cofundadores da Anthropic estava presente, oferecendo suas observações. Admito sentir-me dividido. Nós publicamos o único livro escrito até agora pelo papa Leão XIV e estamos prestes a publicar uma edição da própria Magnifica humanitas; portanto, eu estava ansioso para ouvir o que nosso autor tinha a dizer sobre o tema. Mas me incomodou que os holofotes papais fossem compartilhados com aqueles que se apropriaram da propriedade intelectual de centenas de nossos autores menos conhecidos sem permissão e sem reconhecimento acadêmico. O trabalho de nossos autores – seu conhecimento e habilidade que levaram anos de treinamento para serem aperfeiçoados, o seu modo de escrever – acaba sendo coletado por um modelo de linguagem e servido em pesquisas on-line. Nossos autores permanecem anônimos.
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Há, porém, uma história encontrada apenas no Evangelho de Lucas. Jesus convida o cobrador de impostos Zaqueu a descer de uma árvore e os dois jantam juntos. Na época, pessoas como eu reclamavam do favoritismo demonstrado a um pecador. Mas, em resposta, Zaqueu prometeu dar metade de seus bens aos pobres e restituir, quatro vezes mais, qualquer pessoa que tivesse prejudicado.
Não espero um aumento quádruplo no acordo judicial. Mas talvez, apenas talvez, a IA esteja prestes a entrar em um futuro muito mais ético, guiada por aqueles que sabem o que devem fazer, e não apenas o que podem fazer.
Trevor Lipscombe é diretor da editora da Universidade Católica da América e doutor em Física pela Universidade de Oxford.
©2026 The Imaginative Conservative. Publicado com permissão. Original em inglês: AI and the Kidnapping of Truth


