O diretor-geral brasileiro da Itaipu Binacional, Enio Verri, defendeu os avanços nas negociações entre Brasil e Paraguai sobre a tarifa da energia produzida. Apesar disso, ele admitiu que nem sempre os interesses dos dois países convergem nas discussões sobre a renovação do Tratado de Itaipu, que se arrasta desde o primeiro ano do terceiro mandato do presidente Lula (PT).
“O Paraguai tem direito a 50% da energia. O Brasil usa toda a sua parte e compra o que o Paraguai não utiliza. Ele quer vender o mais caro possível e precisa desse recurso para financiar seu desenvolvimento. Para nós, por outro lado, energia barata é inclusão social e desenvolvimento”, disse o diretor-geral, ao defender a política de gastos socioambientais da atual gestão do lado brasileiro.
Verri, que é ex-deputado pelo PT e foi indicado ao cargo por Lula, afirmou que o diálogo com o governo do presidente paraguaio, Santiago Peña, tem avançado e garantiu que a tarifa da energia elétrica de Itaipu permanecerá congelada até 2026, com previsão de redução em 2027.
O dirigente também comentou a mudança na estratégia de investimentos socioambientais da Itaipu após a quitação da dívida histórica da usina. “No começo, pensamos o seguinte: vamos investir nas prefeituras, com as cooperativas de reciclagem, fazer todo um trabalho estrutural de cultura ambiental. No entanto, a gente notou que estava virando paternalista. Dentro desse cenário, a gente preferiu investir em entidades”, defendeu.
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Confira a entrevista na íntegra com o diretor-geral da Itaipu Binacional, Enio Verri
A capacidade física da usina Itaipu tem um teto. Qual é o papel real da usina no futuro da energia do Brasil? Ela ainda consegue crescer muito em tamanho?
É possível. É importante primeiro ressaltar sobre o papel da Itaipu, que foi alterado. A Itaipu chegou a representar 25% da produção de energia no Brasil. Com o crescimento da economia brasileira, com as chamadas energias intermitentes (energias cuja geração não é constante e não pode ser armazenada) como a fotovoltaica e a solar, hoje nós representamos em torno de 8% da energia consumida no país. Só que com a energia chamada intermitente, como o próprio nome diz, ela não é uma garantia firme, porque se não chover, se não tiver sol, vento, você não tem a energia. A Itaipu passou a ter um papel de bateria no Brasil. Hoje nós somos a garantia que você terá energia elétrica na sua casa. Por exemplo, a partir das 16 horas, onde o sol começa a se esconder-se, nós chegamos até a dobrar a nossa entrega de energia no país. Portanto, a hidrelétrica passou a ter um papel de segurança de toda a entrega de energia elétrica no nosso país.
Nós temos feito estudos junto ao Ministério de Minas e Energia para ampliar a nossa entrega de energia firme (energia contínua e confiável). Isso pode se dar de duas maneiras: a primeira é contratando uma consultoria internacional para verificar se a gente pode aumentar a produtividade da usina, que foi feita há 50 anos. O estudo da física naquele tempo era um, a física avançou muito nesses 50 anos. Com as mesmas unidades instaladas, a gente consegue produzir mais energia firme.
A segunda possibilidade é aumentar o número de unidades geradoras: a Itaipu tem 20 unidades, 18 sempre funcionando, e duas como segurança. Duas outras que a gente espera construir, também é um projeto que está sendo contratado agora para saber se é viável ou não. Precisamos do consentimento do Ministério de Energia, dos nossos sócios do Paraguai, que tem 50% da usina. Lógico que eles têm interesse também.
O Paraguai tem uma economia que está crescendo muito, e tem interesse em ter maior oferta de energia. Pode haver uma alteração no nível da água do rio que atinge a Argentina, e, portanto, passa primeiro por um acordo entre Brasil, Argentina e Paraguai. No que se refere à hidrelétrica, nós temos esses dois caminhos que estão no nosso cenário.
A Itaipu aposta em outras formas de energia?
A Itaipu pesquisa hidrogênio verde há mais de 20 anos, através do Itaipu Park Tech, o nosso centro de inovação. E tem ido muito bem, estamos em um estágio bastante avançado. É um produto que podemos oferecer em breve ao mercado.
O primeiro barco 100% movido a hidrogênio verde da América Latina foi feito pela Itaipu e foi utilizado na COP30 (Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025) em Belém do Pará. Temos uma usina dentro do reservatório de energia solar. Já está funcionando.
A ideia é ampliar a entrega dessa energia desde que avance a pesquisa de baterias, porque a energia intermitente, essa que é pela energia solar, o Brasil tem excesso de oferta.
Aliás, o Brasil tem mais energia do que precisa. O problema é que a energia que tem em grande quantidade não é firme, então é um risco ter muita energia. Muita energia intermitente jogada na rede causa queda de energia. Isso não pode acontecer. Queremos desenvolver baterias para armazenar a energia solar e, aí sim, poderemos ampliar a produção de energia solar.
E por fim, o petróleo sintético, que é energia para a aviação. Nós tínhamos uma equipe técnica pesquisando. Mantivemos a nossa linha de produção, mas nesses três anos em especial, ampliamos o cenário para oferecer mais energia firme e intermitente para o país e para o Paraguai.
A Itaipu também tem apostado em biogás?
O biogás é uma experiência mais antiga. A Lei de Geração Distribuída (que regulamenta a produção da própria energia elétrica pelos consumidores brasileiros) que existe no Brasil nasceu aqui na Itaipu. Ela fala da utilização de restaurantes, de dejetos para produzir a energia, da biomassa ou do biogás. É uma experiência de 20 anos que começamos na cidade de Toledo.
Inauguramos recentemente um centro de biogás, com parcerias com entidades e academias. Através da nossa pesquisa, tivemos um olhar muito especial para o biogás, com avanço muito grande na sua otimização. Os ônibus que circulam na usina são movidos a biogás. Toda a nossa experiência é muito bem sucedida.
Quando falamos em negociação da tarifa com o Paraguai é sempre muito dura. Como fechar essa conta para que seja justa para o consumidor brasileiro e boa também para os nossos vizinhos?
É um desafio. Para entender essa dificuldade, é importante pensar nas diferenças que nós temos entre os países. O Brasil tem mais de 200 milhões de habitantes. O Paraguai tem 6 milhões e 400 mil habitantes. A população do Paraguai é menor do que a população do Paraná. A situação econômica entre os dois países tem uma diferença muito grande. Nós estamos bastante avançados, basta ver os dados do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). O Paraguai não tem a mesma condição, tem muito mais dificuldades. E o Tratado de Itaipu diz o seguinte: a energia que uma parte não consome é obrigada a vender para outra parte. O Paraguai tem direito a 50% da energia. O Brasil, dentro do tratado, usa toda a sua parte e compra o que o Paraguai não utiliza. Ele quer vender o mais caro possível e precisa desse recurso para financiar seu desenvolvimento. Para nós, por outro lado, energia barata é inclusão social e desenvolvimento.
Nós temos conversado muito sobre isso. Eu diria que essa gestão do governo paraguaio, a gestão de Santiago Peña, tem sido muito sensível com isso. Estamos caminhando bem esse diálogo eu creio que nós vamos conseguir fazer uma entrega que vai ser muito boa para o país. Desde quando nós assumimos aqui em 2023, conseguimos um acordo muito bom. A tarifa do Brasil está congelada por quatro anos. Em 2026, a tarifa não subiu e, em 2027, ela vai cair. Isso eu posso garantir aos nossos consumidores. A nossa energia de 2027 será mais barata do que nos últimos quatro anos. Nós derrubamos a tarifa, mantivemos congelada e vamos agora baixar um pouco mais.
A dívida contraída para a construção da usina hidrelétrica de Itaipu foi integralmente quitada em fevereiro de 2023. Acabou sobrando um pouco de dinheiro em caixa. Qual é o critério para decidir onde que esse valor é investido?
O primeiro critério é a manutenção da usina e melhoria da qualidade dela, investimentos para aumento de produtividade. Nós estamos reformando um prédio completo da produção, cujo valor ficou em R$ 40 milhões. Estamos investindo forte na atualização tecnológica e na manutenção e prevenção da usina. A ideia é que ela tenha mais 200 anos de vida. Isso para o país é importante, pensar que são 200 anos sem precisar fazer investimentos grandiosos é muito bom.
A partir daí, o que é garantir a vida da usina? É cuidar dos seus equipamentos, do aumento da sua produção, da atualização tecnológica, que é o investimento de R$ 5 bilhões de atualização tecnológica, mas também da preservação da água, a matéria-prima da usina. Se nós não tivermos o reservatório, não tem a usina de Itaipu. Daí a necessidade extrema de investimentos socioambientais.
No começo, pensamos o seguinte: vamos investir nas prefeituras, com as cooperativas de reciclagem, fazer todo um trabalho estrutural de cultura ambiental. No entanto, a gente notou que estava virando paternalista. Dentro desse cenário, a gente preferiu investir em entidades. Agricultura familiar, assentamentos, associação de pequenos produtores. Temos vínculos e projetos com prefeituras e com entidades da sociedade civil.
Os 399 municípios do Paraná e 35 municípios do Mato Grosso do Sul, somando 434 municípios, contribuem para a emissão de resíduos que chegam aqui no reservatório. Por isso, criamos o Itaipu Mais Que Energia. É uma grande política de construção de consciência ambiental para que a usina fique viva. Investimos na preservação, na organização de cooperativas de reciclagem, que são 260 no Paraná, com apoio das prefeituras. Investimentos em estrada rural, energia solar, para com isso diminuir a necessidade de energia hidroelétrica, que é energia firme. Isso fez com que a gente desenvolvesse políticas públicas muito fortes na região. Destaco duas que eu considero relevantes: energia solar nas universidades públicas e nas Santas Casas do Paraná.
Ênio, você comentou sobre essa questão da preservação das águas. Sobre as mudanças climáticas: as secas prolongadas do rio Paraná têm assustado. A Itaipu corre o risco de gerar menos energia nos próximos anos por conta do clima?
Se ocorrer uma seca como foi em 2021, ou de 1991. Nós tivemos problemas. Hoje, temos uma equipe da hidrologia muito forte, que acompanha com detalhes. Mesmo com a seca que estávamos há alguns dias atrás, estamos no nosso limite. A vantagem é o reservatório. Conseguimos mantê-lo vivo, bem cuidado.
É importante ressaltar que muitas fotos que vocês publicam da Itaipu é naquele momento de exceção, quando está vertendo água dos canais. Essa situação não é boa, porque aquela água que transbordou não produziu energia. É dólar que não entra para a economia do país. Não temos excesso de água, mas nós não estamos com falta d’água para produzir energia. Pelo menos nos próximos três anos, a produção hidroelétrica de Itaipu é constante e pode dar garantia à população brasileira.
Sobre a situação do Avá-Guarani, a reparação histórica aconteceu no ano passado. Por que o Estado e a Itaipu demoraram 50 anos para fechar esse acordo?
Primeiro, a burocracia. Era uma ação que estava no Supremo Tribunal Federal (STF), mas que tem algo a ver com a iniciativa e com o modelo de gestão. Na gestão do presidente Lula, embora tenha ficado oito anos, o assunto ficou preso no Supremo. O processo andou mais rápido depois do governo da Dilma. Quando nós chegamos, detectamos que isso era uma questão humanitária. Quando chegamos em março de 2023, tivemos que comprar comida, peixe (para a população indígena). Foi um trabalho integrado com os pescadores.
Nós desenvolvemos o primeiro projeto chamado Opaná, que começou a atender as comunidades guaranis aqui na região. Nós temos um trabalho para dar condições de vida para esse pessoal. Estamos falando de água, de construção de residências mínimas, equipamentos, assessoria técnica. E concomitante a isso, começamos a construir junto ao Supremo Tribunal Federal esse acordo histórico. Eu confesso que eu fiquei muito orgulhoso de estar na gestão de Itaipu em um momento como esse. Nós soltamos uma nota na principal página de todos os jornais do país reconhecendo a dívida histórica com a comunidade indígena.
O investimento foi a compra dos 3 mil hectares. Mas não basta comprar a terra e colocar os indígenas lá, estamos dando condições de produção na terra. Temos uma equipe que vai trabalhar com eles, na construção de moradias, produção de água, assessoria para a produção cultural, de artefatos, manufatura para venda, produção agrícola – toda uma assessoria também para que essas pessoas tenham direito à dignidade na sua terra. É uma dívida social enorme, reconhecemos que ela não está sendo integralmente paga. Eu não posso esquecer que a dívida com a comunidade indígena do Brasil começa em 1500. O que estamos fazendo aqui é algo que julgo muito bom e espero, no futuro, que a Itaipu continue dando assessoria e, se possível, compre mais terras para essas comunidades.
A Itaipu investe agora em quase todos os municípios do Estado. Essa expansão não acaba pulverizando o dinheiro e tirando o foco de quem sofreu o impacto direto da usina?
Não. Nós temos uma relação de prioridades, lógico. Os municípios lindeiros (que fazem limite direto com o Lago de Itaipu) são aqueles que sofreram os impactos imediatos, porque na verdade a água ocupou parte da terra deles. O valor de produção dessas terras é altíssimo, são altamente produtivas. Elas têm um olhar próprio, uma associação própria e nós fazemos investimentos específicos para os lindeiros. Eles recebem os royalties pela ocupação da água nas suas terras, valores substanciais, diga-se de passagem. Além disso, temos políticas públicas dentro da Itaipu e em nossa gestão nós ampliamos isso para atender esses municípios. Investimentos em educação, cultura, saúde, acesso a estradas rurais, investimentos nas cidades. Eu posso garantir que os municípios lindeiros, na nossa gestão, recebem muito mais recursos do que no passado. Por óbvio, tenho que ser honesto, porque também não existem mais as dívidas que existiam no passado. Agora temos mais recursos e, portanto, podemos atender da melhor forma esses municípios.
Sobre lixo e sustentabilidade: a Itaipu é reconhecida por apoiar projetos de reciclagem. A Itaipu tem levado esse exemplo para os municípios?
É um trabalho de 20 anos. Em Belém, a gente tem duas grandes cooperativas de reciclagem. Nós implantamos toda a nossa metodologia lá. Aqui no Paraná, dos 399 municípios, 260 cooperativas foram ou estão sendo implantadas. Essa nossa cooperativa tem todo um histórico, vamos chamar aqui de experiência acumulada. A gente entra com a esteira, elevador, prensa, trator, caminhão, para que os cooperados possam passar na cidade recolhendo. Eles recebem assessoria financeira por dois anos e assessoria social para que possam aprender a trabalhar em comunidade.
Quem trabalha em reciclagem normalmente são pessoas que moram embaixo de marquises, trabalham sozinhas. Não lhes foi dada a oportunidade de trabalhar de forma organizada, coletiva. São pessoas que dependem delas mesmas. Construir uma cultura como cooperativa depende também de muita coisa, é por isso que algumas associações não progridem.
A renda média de quem entra nas nossas associações ou cooperativas para trabalhar passa de R$ 4 mil por mês. As pessoas ganhavam R$ 1 mil, R$ 1,2 mil. O prefeito de uma cidade pequena estava com um problema na entrega do projeto, que chama Coleta Mais. Ele falou que o pessoal que cuida da reciclagem ganha mais que os secretários municipais, e agora os secretários municipais querem aumento. E eu disse a ele, ‘prefeito, peçam a eles para sair na rua recolhendo reciclagem’. A justiça é isso, não é porque o pessoal recolhe lixo que tem que ganhar menos.
A experiência do Coleta Mais está nacionalizada. Em Curitiba, a gente deve ter umas oito cooperativas bem solidificadas. Nós temos EPI, os barracões são lugares limpos, tem lugar para comer e tomar banho. Não é preciso andar de carrinho, é feudal. Tem caminhão que sai recolhendo. Com isso, a produtividade deles é muito maior e a renda mensal é muito maior. Todo mundo ganha com essa política, a gente faz uma política pública que nos orgulha.
Jorge Sameki geriu a usina por 14 anos. O que você acabou aproveitando do modelo do Sameki e o que alterou da gestão dele?
Aproveitei muito do Sameki. No período que ele ficou aqui, ele deixou a estrutura da gestão muito bem organizada, formalizada. Ele chegou no período que não tinha concurso público. Isso, para nós gestores, é muito bom. Eu não tenho ninguém me pressionando para dar cargo para uma pessoa ou outra. A transparência, é claro que do tempo do Sameki para hoje, evoluiu-se muito em termos de inovação tecnológica, de metodologia e nós aprofundamos muito. O Samek deixou a base muito construída para a gente consolidar no que se refere ao modelo de gestão mais participativo, ouvindo os funcionários, fazendo as políticas de gênero, de equidade que a gente faz agora.
Hoje é absolutamente transparente a gestão. Se estive em Brasília semana passada, no dia seguinte já tem na página da Itaipu onde eu fiquei hospedado, quanto gastei. O trabalho que nós temos aqui de auditoria interna é muito rígido. Nós não temos lucro, somos uma empresa pública, mas temos que ter produtividade cada vez maior, porque o excedente que eu consigo é aquilo que eu posso investir em responsabilidade ambiental, social e gerar mais emprego e renda para o nosso território.
O senhor foi deputado, foi secretário de Planejamento e Coordenação Geral do Paraná no governo do Roberto Requião, presidente do PT e está na cadeira de diretor da Itaipu. Você acredita que realiza mais coisas como diretor ou no parlamento?
É incomparável. O parlamento é o espaço do debate, das ideias, das contradições. Uma lei, até ela ser aprovada e chegar na vida das pessoas, pode nunca acontecer ou pode levar 10 anos. No executivo é diferente, você muda a vida das pessoas. Já tive a experiência de ter sido Secretário da Fazenda de Maringá, secretário de Estado do Planejamento do Paraná, fui chefe de gabinete do Ministério de Planejamento e cheguei aqui. Passei pela iniciativa privada também. Claro que nesse período fiquei um bom tempo como parlamentar. Eu não tenho dúvidas, a experiência que eu tenho com a iniciativa privada, com a gestão pública e com o parlamento, de forma específica, no meu caso, eu gosto muito mais do executivo.
Com o orçamento que a Itaipu tem hoje, ela funciona quase como um segundo governo dentro do Paraná. A usina é hoje o maior peso na balança política do interior. Como o senhor vê isso?
Eu prefiro entender que é um complemento. Embora nós estejamos na esfera ideológica, em áreas bem distintas, não temos concorrência. Na verdade, o governo do estado tem se pautado muito na entrega de pontes, estradas. A nossa marca tem sido inclusão social, geração de renda, melhorias de emprego, investimento na universidade pública, na saúde pública. Eu diria que, até por formação distinta, nós reproduzimos mais aqui no Paraná as políticas do governo federal. Nós somos o governo federal dentro do estado do Paraná. Isso não tem gerado conflitos, pelo contrário, eu diria que tem dado muita sinergia e quem ganha com isso é o Estado do Paraná.
O seu diálogo com prefeitos de todos os partidos ajuda a melhorar essa imagem do partido dentro do Paraná?
Quando nós chegamos aqui, o primeiro projeto nosso, do Itaipu Mais Que Energia, abrimos um edital e atendemos os 399 municípios do Paraná. Todos foram atendidos com investimento. Não deu tempo para perguntar qual era o partido de cada prefeito. Se eu atender só os prefeitos do PT, ia sobrar muito dinheiro, pois só tem três. Não há muito o que se preocupar com isso.
Nós estamos atendendo todos de forma muito transparente e isso resultou numa proximidade com os prefeitos. Nós temos um relacionamento muito bom com os prefeitos, isso diminui muito o preconceito. A pessoa antecipa aquela visão que o PT é crime, construído até pela mídia nos velhos tempos. Não precisa fazer politicagem, é preciso uma gestão profissional e técnica, para dar resultados de melhoria de vida das pessoas. É absolutamente natural a diferença, aliás, é muito maduro, porque isso é democracia. A polarização empobrece a política, a gestão e, por tabela, o país.
Olhando a Assembleia hoje, o senhor acha que o debate político melhorou ou piorou desde a época de deputado estadual?
Eu creio que diminuiu muito a qualidade do debate político. Não se trata de personalizar. A polarização abre espaço para besteiras. Em vez de se discutir desenvolvimento, aumento de renda, política ambiental, ou seja, aquilo que pode melhorar a vida das pessoas, infraestrutura, ponte, estrada, fica-se discutindo besteiras que não modificam a realidade de ninguém. Então, eu estou convencido que há um empobrecimento muito grande no parlamento brasileiro.
O agronegócio da região Oeste é historicamente uma oposição do governo federal. Como é sentar na mesa com eles? Existe algum pragmatismo econômico que acabou vencendo a ideologia?
Em Cascavel tem o maior show do agronegócio, um dos maiores do Brasil. Dentro do evento tem um espaço de pesquisa e inovação tecnológica do agro, e Itaipu participa através do Itaipu Park Tech. Nós temos várias empresas que fazem pesquisas em parceria com as cooperativas para o agronegócio. Nós não temos nenhum tipo de dificuldade no relacionamento com o agro. Temos vários projetos de parceria com eles, não só no show rural, como no dia a dia aqui de convênios que nós fazemos, com parcerias em algumas áreas. Eu diria que quando você tem a pauta econômica que interessa a todos, o debate ideológico fica para segundo plano.
A gestão da Itaipu tem um peso enorme na carreira. O senhor acredita que a Itaipu é a sua última parada pública ou o senhor planeja voltar às urnas?
Eu não planejo voltar às urnas. Vou ser muito honesto. Eu poderia responder daquele jeito tradicional: ‘eu sou um soldado do partido’, mas não vou dizer isso. Eu tenho 65 anos, eu me aposentei. Sou professor do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Eu creio que até havia a expectativa de que eu fosse candidato ao Senado, como foi acenado pelo presidente da República ano passado, mas depois ele me convidou para ficar aqui – até por conta do modelo de gestão que estamos desenvolvendo. Eu pretendo ficar na área de gestão, não tenho intenção de voltar a disputar nenhuma eleição.
O senhor tem essa bagagem de economista, de professor. No que o senhor acredita como modelo de desenvolvimento para o Paraná que a política do dia a dia ainda não realiza?
Falta muita inovação. Nós temos 13 campus da Universidade Tecnológica Federal do Paraná. É só aqui no Paraná que tem, o Brasil não tem Universidade Tecnológica, mais os institutos federais. Todo esse pessoal com formação em tecnologia, engenharia, física, química e nós não agregamos isso para as políticas de desenvolvimento. Há muita coisa para se fazer para desenvolver o estado do Paraná. Nós temos um acúmulo de capital intelectual. Falta mais diálogo, conversar mais com a academia, com a universidade, com as cooperativas. Temos empresas de ponta e nós poderíamos dar um salto de qualidade no desenvolvimento.
Temos que pensar políticas estruturantes. Em como fazer uma política pública que melhore a capacidade daquela propriedade, para produzir mais produtos que possam obter um valor cada vez maior, pagar mais impostos. Com isso o Estado ganha, o trabalhador passa a ter um salário mais justo. É um modelo antigo, mas parece-me que o Paraná atrasa um pouco quando se refere a isso.
A Itaipu financiou grandes obras no estado, pontes e estradas. Até onde o senhor acha que vai obrigação da usina e onde começa a falta de investimento do estado?
O Paraná tem gestores atuais com problemas de memória, porque normalmente eles falam que a Ponte da Integração é uma obra do governo do estado. Tem o acesso ao aeroporto, a Perimetral. É um leve esquecimento que quem pagou tudo isso foi a Itaipu. Eu acho que é uma concepção de modelo de estado, também não vou personalizar a crítica.
O estado teria que estar mais presente. Se nós pegarmos os investimentos estruturantes do estado do Paraná, ou é privado via pedágio ou é via Itaipu. Onde é que o estado esteve presente de fato nisso? Aumentou o número de universidades do Estado do Paraná, são federais. As principais políticas estruturantes que garante o desenvolvimento a longo prazo do estado do Paraná, não foram efetivamente realizadas pelo governo estadual.
A Itaipu é gerida por dois países com leis completamente diferentes. Que lição de soberania a usina dá para o mundo hoje que é tão cheio de conflitos?
Primeiro, a integração é possível. Indiferente do tamanho, é possível dois países viverem bem e respeitarem um ao outro. Nós temos um exemplo aqui que é fantástico. O perfil político do governo Lula e perfil político do governo Santiago são totalmente diferentes. Eu posso dizer que é o oposto, ideologicamente falando. E é possível conviver, trocar ideias, sugestões de forma muito tranquila, visando o bem dos dois países.
A Itaipu é um modelo para o mundo porque a água é motivo de guerra no mundo todo. Aqui foi motivo de paz. Nós tivemos um problema do rio, tivemos um problema de divisa, construíram a usina e a usina nos une. Portanto, é muito comum técnicos da Itaipu serem convidados para dar palestras em outras partes do mundo, exatamente por mostrar o que seria um paradoxo. Enquanto os países se matam pela água, aqui nós nos desenvolvemos cada vez mais e temos mais recursos para investir em nossos países graças à existência da água. A Itaipu tem muito a ensinar ao mundo sobre soberania, respeito entre os países e integração.
Diretor, qual é a marca principal que o senhor quer deixar na história da Itaipu quando a sua gestão terminar?
Eu creio que é a marca da eficiência na gestão somada à política pública. É provar que é possível fazer uma gestão séria, transparente, técnica e, mesmo assim, ter resultados suficientes para aplicar no desenvolvimento do seu território. A soma desses dois é perfeitamente possível. E é uma missão de qualquer empresa pública.
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