“Despertada a ânsia por novidades que já há algum tempo agita os povos, era de se esperar que o afã de mudar tudo chegasse um dia a ultrapassar o campo da política e passasse ao terreno, com ela contíguo, da economia” (Leão XIII, Rerum Novarum). Com essas palavras começa o diagnóstico de Leão XIII diante de uma sociedade em mudança cada vez mais acelerada — uma sociedade mutável como a nossa, que talvez tenha aumentado a velocidade, mas mantendo a mesma aceleração — na era da Revolução Industrial. Trata-se de uma encíclica que veio propor algo novo, capaz de servir de alternativa, no mundo católico, às ideologias modernas movidas pela “ânsia de novidades” (particularmente o socialismo, mas também o liberalismo).
Hoje, 135 anos depois, com um Papa que adotou o nome de Leão XIV, o eco dessa encíclica ainda ressoa pelo mundo. A voz da Igreja permanece viva pela atualidade da relação que deve existir, para uma economia saudável, entre capital e trabalho — atualidade que se torna ainda mais necessária diante de um mercado de empresas Big Tech cujas avaliações cresceram a níveis inéditos por causa das expectativas de rentabilidade com a inteligência artificial, da chamada “uberização” dos serviços cada vez mais intensa, ou de um desenvolvimento tecnológico que, em muitos aspectos, aponta para substituir até mesmo diversos profissionais. Mas, para além dessa compreensão das estruturas econômicas, a encíclica — como depois ocorreria com Quadragesimo Anno e com várias outras cartas que deram continuidade ao pensamento de Leão XIII — propôs um impulso renovador corajoso, particularmente importante e necessário para os tempos atuais.
A Rerum Novarum teve impacto especial no Chile entre certos jovens do Partido Conservador que queriam renovar tudo, não a partir da insurreição e da violência, mas da caridade. Ali estão as leis sociais — incluindo nada menos que o primeiro código do trabalho, a lei do descanso dominical e muitas outras —, os refeitórios, patronatos e moradias sociais, e também obras monumentais como o Hogar de Cristo, além de discursos marcantes como o das “Bases espirituais para uma nova ordem”. Toda uma geração de figuras notáveis que vieram a mudar o curso da história do Chile, inspiradas pelo impulso renovador da encíclica.
É que a proposta da Doutrina Social da Igreja não se limita à primazia do trabalho sobre o capital, ao salário familiar ou à defesa da propriedade limitada pelo destino universal dos bens. Certamente inclui tudo isso, mas, por trás dessas medidas, há um espírito particular, um “sabor” que parece ser próprio do cristianismo na vida social — uma boa nova chamada a ser acolhida por todos os homens de boa vontade.
— “Sim, muito bonito, mas por que você diz que deveria haver algo diferente com a fé? Os problemas políticos e econômicos são os mesmos para todos — crentes e não crentes — e as soluções técnicas funcionam independentemente de quem as aplique; um sistema de pensões não é bom por ser ‘católico’, mas porque funciona, e o mesmo vale para uma empresa, um modelo econômico ou um bom governo…”
— É verdade que há algo comum a crentes e não crentes, o plano natural, e a graça não anula a natureza, como reconhecia São Tomás de Aquino. Pode haver um bom político que não seja cristão. Mas qual é, então, a marca característica que o cristianismo pode imprimir à política? Há algo próprio que ele possa oferecer? Qual é a novidade que a fé traz à vida pública?
“Nada há de mais simples e, no fundo, mais banalmente cristão do que a renovação interior”, escreveu Jacques Maritain. E aqui há, de fato, algo essencial. Pode parecer banal, mas é um traço distintivo: o novo. Não por acaso, os relatos da vinda do Logos encarnado ao mundo são chamados de euangelion, boa nova, Evangelho. Há algo novo que o cristão recebe ao acolher Cristo, algo que o une à sua vitória: “Ao vencedor darei uma pedrinha branca e, nela, escrito um nome novo” (Ap 2,17). Uma nova existência que não anula o que já existia, mas lhe confere um frescor particular, algo que antes não havia e que transforma tudo em sua raiz. Por Cristo, podemos deixar para trás o homem velho e renovar nosso espírito, revestindo-nos do homem novo (cf. Ef 4,22-24). Esse é o sentido da ressurreição no oitavo dia, da nova criação, da novidade do amanhecer, do Oriente que é Cristo, nossa esperança. O que o cristianismo traz de próprio consiste em intensificar a realidade de cada coisa, renovando-a precisamente ao fazê-la ser mais plenamente aquilo que é.
— “Certo… mas o que isso tem a ver com economia e política?”
— Tudo. Porque essa novidade não faria sentido se se limitasse ao plano individual: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5). Não apenas os recantos ocultos da consciência pessoal, mas todas as coisas: a empresa, a associação de bairro, o sindicato, os contratos de trabalho, os salários acordados, o planejamento urbano, as urnas. O cristianismo imprime sua marca sem alterar a natureza da política, renovando-a por dentro. E qual é o sentido da política senão o bem comum que une os homens? E não é desejável que eles não apenas coexistam pacificamente, mas vivam como irmãos, unidos pelo vínculo da paz e do amor? Não é essa comunhão algo que somente Cristo pode trazer, sendo o único capaz de curar a natureza humana?
Por mais piedoso que seja um governante em sua vida interior, se acreditar que basta uma planilha para administrar bem um país — como se o bem comum fosse apenas uma questão de eficiência técnica —, parece que esse impulso renovador de Cristo ainda não o transformou plenamente. O cristianismo é o único capaz de transformar todas as realidades desde dentro, tornando-as novas sem que percam sua própria natureza. A renovação trazida por Cristo abrange necessariamente tudo, pois uma novidade puramente individual não seria verdadeiramente nova. O novo é também a lei do amor, que supera toda individualidade e toda solidão.
Tudo deve ser renovado: a economia, a sociedade, o Estado — “recapitular todas as coisas em Cristo” (Ef 1,10). Ele deve reinar, e só assim haverá paz, porque somente com a caridade de Cristo há verdadeira justiça. Esse é o coração do social-cristianismo.
Vicente Argous é advogado pela Pontificia Universidad Católica do Chile e mestre em Estudos Políticos pela Universidad de los Andes (Chile). É professor de Direito Constitucional na Universidad Finis Terrae (Chile).
©2026 Revista Suroeste. Publicado com permissão. Original em espanhol: Renovación interior y socialcristianismo: a 135 años de Rerum Novarum


