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Por que a criminalidade brasileira não vira tema da ficção brasileira?

A “cultura” brasileira está preocupada com regime militar e cristãos, mas nem um pouco com assaltos e homicídios por um celular. (Foto: Maxim Hopman/Unsplash)

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No segundo dia de junho, viralizou uma cena de assalto no Real Parque, em São Paulo, contra um homem e uma mulher. Dois assaltantes descem de uma moto. Um deles, arma em punho (para que serviu a campanha do desarmamento?), pega celulares. Vai abrindo aplicativos e enfiando o celular no rosto do homem para liberar acesso. O outro, que não desce da moto, exige a bolsa da mulher. A aliança do homem também é exigida. O homem tem dificuldade em retirar a joia, o que lhe garante algumas coronhadas e chutes. A mulher também é obrigada a entregar a bolsa para o assaltante que ficou na moto. As duas vítimas da sociedade – os assaltantes, claro – saem para “tomar uma cervejinha”, segundo o filósofo social Luiz Inácio Lula da Silva. Depois de testemunhas se aproximarem para tentar acalmar os assaltados, a mulher desmaia com o choque.

A cena descrita revela algo incomum na sociedade brasileira? Algo raro, estranho, um crime a ser lembrado por décadas vindouras? Não. Bem pelo contrário: é algo comum, frívolo, banal. É apenas estatística. Delegacias de polícia registram o boletim de ocorrência quase para questões sociológicas futuras. É apenas o comum do Brasil: não fique conversando na rua. Não deixe a janela do carro aberta. Esconda a aliança. Não utilize o celular se não tiver um muro de concreto ao redor de você, e se puder confiar em todos muro adentro. Aqui, sua vida pode ser trocada por uma senha e um Face ID.

Cenas de horror e flerte com a morte como esta foram tão banalizadas no Brasil que são apenas mais uma notinha de jornal, entre tantas outras notícias alarmantes sobre como nossa vida está sempre por um triz em nosso país

Na Pedra de Guaratiba, na zona oeste do Rio, em fevereiro de 2024, uma mulher desmaiou durante um assalto, deixando suas duas filhas pequenas desesperadas dentro do carro. Em dezembro de 2025, uma jovem levou um soco no rosto durante um assalto e também caiu desmaiada. Já durante um assalto a uma loja de roupas no Guarujá, em dezembro de 2024, após uma das assaltadas desmaiar, o próprio ladrão, muito generosamente, a acalmou: “Respira!”.

Isto apenas para comentar sobre mulheres que desmaiaram durante assaltos.

Pensar no que as vítimas perdem em um assalto com ameaça de morte em troca de um telefone é assustador. Temos tudo no celular hoje em dia. Mesmo um celular de ponta, caríssimo graças aos impostos petistas, é o menor dos problemas quando se é assaltado. Tudo o que podemos movimentar no banco (e não adianta pedir para rastrear o PIX depois), fotos privadas, conversas, contas importantes, histórico de vida, contatos, até mesmo a segurança para acessar serviços – tudo hoje está no celular. Nem sempre se tem a tecnologia e a capacidade de apagar remotamente tudo o que seja importante.

Pensar no que alguém perde ao ser assaltado e ter seu rosto escaneado por bandidos, digo, vítimas da sociedade indo tomar uma cervejinha, é o lado mais assustador de se viver no Brasil. Simplesmente se perde boa parte da vida – e é preferível perder tudo isso, porque a vida original não tem backup na nuvem. Alguém pode perder joias, um aparelho caro, mas também o dinheiro economizado por uma vida, a privacidade, a dignidade, uma cópia de tudo o que temos de importante.

Se a questão vira mero clichê no reino jornalístico, ela deveria ser entupida de significado onde as grandes questões ganham maturidade: na ficção. Seja a literatura, o cinema ou mesmo uma letra de música – são essas coisas que formam o imaginário da população, e não o noticiário.

A ficção, Aristóteles já o sabia, é bem superior à não ficção: a literatura revela aquilo que pode ocorrer, enquanto a história fala “apenas” daquilo que ocorreu. O ocorrido nos informa. O que pode ocorrer nos forma. Nosso imaginário valorativo (ou, em termos filosóficos pedantes, nosso eixo axiológico) depende muito mais do tipo de música que ouvíamos na adolescência e de algum professor do ensino médio do que de avaliações sistemáticas sobre o crime, com revisão por pares e padrão-ouro no uso estatístico de dados.

Nossa mentalidade coletiva foi formada por músicas de rap e funk que enaltecem bandidos e tratam a criminalidade quase como único caminho de vida. Mesmo uma música mais “inocente”, como Faroeste Caboclo, parte do princípio de que todo bandido fica louvável se cantado em forma de jornada do herói (faltou mais o quê para João de Santo Cristo virar santo de vez? Espancar Maria Lúcia?).

A literatura brasileira, além do coitadismo penal desde antes de Capitães da Areia, de Jorge Amado (oh, que heroicas aquelas “crianças ladronas” roubando inocentes!), foi uma das mais pródigas no naturalismo, corrente ideológica que nega escolhas individuais e trata o destino mais imoral como mera fatalidade, por não termos livre-arbítrio.

Os filmes, então, são uma ode à vagabundagem, em qualquer sentido em que você consiga empregar o termo. A única exceção acidental foi Tropa de Elite (o primeiro), que queria criticar a brutalidade policial, mas fez com que o público adorasse o Capitão Nascimento, que faz justiça quando a Justiça oficial (o único termo que perde valor quando utilizado com letra maiúscula) favorece traficantes armados até a alma. Não à toa, tiveram de fazer um Tropa de Elite 2 meio às pressas para colocar o Capitão Nascimento como alguém trocado pela esposa por uma versão do Marcelo Freixo.

Isso falando de filmes da exceção da exceção, porque os filmes brasileiros “normais” falam todos sobre o regime militar. Até se for sobre chifre ou alienígena, o único assunto relevante dos roteiristas, que formam o imaginário coletivo, é o regime militar. Ainda mais quando são filmes sobre o regime militar que não têm nada a falar sobre o regime militar, como O Agente Secreto, que parece mais um filme sobre a dificuldade do existencialismo com as planilhas de uma termoelétrica, ou sobre a fauna marinha do Recife, ou sobre o ócio do funcionalismo público. Ou sabe lá Deus o quê, mas parece que a ideia é ser sobre o regime militar.

Faltam filmes que mostrem de fato o que atormenta os brasileiros, que não é nem o regime militar, nem o Capitão Nascimento, nem algo como a tristeza de homens biológicos impedidos de frequentar banheiros femininos: são os assaltos. É a violência urbana. São os sequestros-relâmpago que destroem décadas do que uma família construiu com muito esmero e cuidado para ser transferido para algum meliante armado (para que serviu mesmo o tal desarmamento?) que, além de deixar um trauma psicológico eterno, ainda será tratado como “a verdadeira vítima” por algum sociólogo indo para a faculdade num SUV dado pelo papai.

Bem ao contrário do que a direita infelizmente fez com a palavra “narrativa”, é dentro de uma narrativa – uma história contada com técnica, com começo, meio e fim – que as verdadeiras questões da vida ganham sentido pleno. Uma história de assalto, dentro do noticiário, é um número – talvez um vídeo. Uma história de uma vida de economias, cuidado e criação de laços – tudo destruído por um meliante roubando um celular e ainda sendo tratado como engraçadinho pelo presidente da República – isso sim é o que mudaria o nosso imaginário.

Faltam filmes sobre famílias que enterram o pai porque ele demorou para passar a senha do banco. Faltam romances mostrando como uma mulher teve seus sonhos destruídos por um ladrão que resolveu agredi-la durante um assalto e ainda destruiu sua vida com o que conseguiu do seu celular (enquanto isso, prateleiras apenas falam de “feminismo”, que nunca se preocupa com as mulheres que são mesmo vítimas). Faltam músicas dizendo o que deve ser dito para bandidos se aproveitando de semáforos vermelhos.

Nossa vida no Brasil precisa valer mais do que um celular (que, talvez, seja passível de punição com um ano em regime fechado). Nós não temos de viver em constante pânico uns dos outros. Não temos de enterrar inocentes porque bandidos acham mais fácil arrumar uma arma e destruir famílias, simplesmente porque algum juiz afirmou que o Brasil “prende demais”.

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