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O que Hitler e o PCC têm em comum?

A recusa em tratar PCC e CV como ameaça terrorista revela um país que ainda debate definições enquanto o crime expande seu poder. (Foto: Ney Douglas/EFE/Arquivo )

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Em novembro de 1923, Adolf Hitler liderou uma tentativa de golpe de Estado na Alemanha. Cercou autoridades em uma cervejaria de Munique, manteve reféns sob a mira de armas e mobilizou uma organização paramilitar própria para desafiar o governo. Havia ali um grupo que não reconhecia os limites do Estado, acreditava possuir legitimidade superior às instituições e estava disposto a usar a força para impor sua vontade.

A tentativa fracassou, Hitler foi preso e condenado. Mas o mais importante não foi o golpe em si, e sim o que aconteceu depois. Mesmo após demonstrar disposição para desafiar a ordem democrática e mobilizar grupos armados, Hitler foi solto e o Partido Nazista continuou operando legalmente e se reorganizando, enquanto muitos acreditavam que o problema estava resolvido.

É por isso que chama atenção o debate que surgiu após os Estados Unidos classificarem o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho como organizações terroristas.

Estamos falando de organizações que utilizam armamento de guerra em um país que não está em guerra, recrutam adolescentes para o crime, executam quem desafia sua autoridade e espalham terror em comunidades inteiras. Organizações que administram postos de combustível para lavar dinheiro, controlam bairros, impõem suas próprias regras e, em muitos lugares, já exercem mais poder sobre a vida dos moradores do que o próprio Estado.

Um em cada quatro brasileiros vive em áreas dominadas pelo crime organizado. Ainda assim, parte da discussão não se concentrou em como enfrentar essas organizações, mas em questionar se elas deveriam ou não receber essa classificação.

Para os críticos, PCC e Comando Vermelho não são organizações terroristas porque a legislação brasileira limita essa classificação a grupos movidos por motivações religiosas, étnicas ou ideológicas.

Mas isso foi uma escolha política. Ao elaborar a lei antiterrorismo, o governo preferiu olhar para ameaças que ocupavam os noticiários internacionais, como Al-Qaeda e Estado Islâmico, enquanto ignorava organizações que já cresciam dentro do Brasil. O resultado foi uma legislação capaz de reconhecer um terrorista que explode uma bomba em nome de uma religião, mas incapaz de enquadrar grupos que atuam com o mesmo grau de terror no próprio país.

Mas, já que a legislação do Brasil não classificou essas organizações como terroristas, quais as consequências de a classificação ter vindo de fora? Para isso, vale entender o que aconteceu em países da América Latina que já passaram por isso.

No México, a classificação de cartéis como organizações terroristas permitiu ampliar o rastreamento financeiro, o compartilhamento de inteligência e as operações contra suas lideranças.

Em El Salvador, a designação da MS-13 fortaleceu a cooperação internacional e acelerou ações contra integrantes dessas organizações.

Na Colômbia, a classificação das Farc serviu de base para o Plano Colômbia, parceria que ajudou o governo a recuperar territórios dominados por grupos armados.

Em todos os casos, a lógica foi a mesma: primeiro reconhecer a dimensão da ameaça, depois ampliar os instrumentos para combatê-la.

No caso brasileiro, isso significa abrir caminho para sanções financeiras, ampliar a cooperação internacional e envolver diretamente agências americanas de inteligência, incluindo a própria CIA. Foi só essa possibilidade entrar em discussão para surgirem especialistas explicando por que tudo isso seria um problema.

A preocupação, segundo eles, é que a medida atinja empresas, fundos de investimento e pessoas que mantenham algum tipo de relação com essas organizações. Mas não é exatamente para isso que servem as investigações?

Um dos especialistas chegou a afirmar que os americanos poderiam sancionar tantas pessoas ligadas ao crime que faltariam servidores públicos para ocupar os cargos deixados por elas. Confesso que tive dificuldade em entender a crítica. Se a situação chegou a esse ponto, o que assusta mais: a investigação ou o que ela pode revelar?

No fim, a discussão diz menos sobre semântica e mais sobre nossa capacidade de reconhecer ameaças quando elas ainda podem ser enfrentadas.

A pergunta não deveria ser se estamos exagerando na reação, mas se ainda estamos subestimando o tamanho do problema

Foi justamente por isso que comecei este texto falando de Hitler. O nazismo não se tornou uma ameaça da noite para o dia. Antes de chegar ao poder, já possuía uma estrutura paralela, uma liderança própria, uma ideologia própria e um projeto que colocava sua vontade acima das instituições existentes. Ainda assim, muita gente preferiu discutir limites jurídicos e definições enquanto a ameaça crescia.

PCC e Comando Vermelho também não surgiram da noite para o dia. Cresceram, se organizaram, acumularam armas, dinheiro e influência. A história não se repete exatamente da mesma forma, mas costuma deixar avisos.

A pergunta que fica é simples: vamos aprender com ela ou repetir o erro de subestimar uma ameaça enquanto ela ainda está crescendo?

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