A relação econômica da China com o Níger está se tornando mais profunda e complexa. Em maio de 2026, Pequim estendeu o tratamento de tarifa zero às importações de 53 países africanos com relações diplomáticas com a China, excluindo apenas Eswatini, que reconhece Taiwan. Para o Níger, um Estado sem litoral governado por uma junta militar que precisa tanto de financiamento externo quanto de receitas de exportação, essa oferta chega em um momento crucial.
Essa política tarifária não é um simples gesto comercial. Essa política comercial mais ampla de Pequim não se concentra apenas na maximização do lucro. Seus objetivos incluem abrir o acesso ao mercado de recursos essenciais, como o petróleo, financiar a infraestrutura de oleodutos e o refino desses recursos, além de integrar as empresas estatais chinesas nesse setor crucial.
O financiamento do setor petrolífero do Níger por Pequim é de extrema importância para os formuladores de políticas. O Banco Mundial estima que as receitas relacionadas ao petróleo representam 3,9% do Produto Interno Bruto do Níger — o equivalente a cerca de um quarto da receita total do governo e um terço da receita tributária. Isso torna o petróleo fundamental não apenas para o crescimento do Níger, mas também para sua situação fiscal.
Grande parte desse petróleo só se tornou acessível porque a China National Petroleum Corporation investiu mais de US$ 5 bilhões no Níger como parte da Iniciativa Cinturão e Rota da China. Isso incluiu o desenvolvimento de campos de petróleo e refinarias, bem como um oleoduto de exportação de quase 2.000 quilômetros que liga o campo petrolífero de Agadem, no Níger, ao litoral do Benim.
Para o Níger, país sem litoral, esse oleoduto representa uma rota direta para os mercados internacionais por meio do porto de Seme-Kpodji, no Benim. Esse oleoduto já exportou mais de US$ 2 bilhões em petróleo de baixo teor de enxofre da variedade Meleck para os mercados globais, provenientes do campo petrolífero expandido de Agadem.
Contudo, a infraestrutura não elimina a política. O Benim restringiu o oleoduto do Níger em 2023, após o golpe de Estado no país, e rebeldes anti-junta atacaram a estrutura. Essa interrupção abalou as finanças do Níger e demonstrou a importância crucial que o corredor construído pela China havia adquirido para a economia nigerina. No entanto, a China mediou com sucesso a disputa e restabeleceu a operação normal do oleoduto, evidenciando o papel de Pequim não apenas como contratante, mas também como parte interessada de grande influência.
Mas essa relação não está isenta de dinâmicas próprias. Em março de 2025, o Níger expulsou três executivos chineses da China National Petroleum Corporation (CNPC) em meio a disputas sobre a diferença salarial entre trabalhadores expatriados e locais. Posteriormente, a demanda chinesa pelo petróleo de Meleck, no Níger, enfraqueceu devido ao desgaste das relações com a junta militar e ao aumento dos custos de frete, deixando o Níger com compradores predominantemente do mercado europeu.
A abordagem da junta reflete uma tendência mais ampla de nacionalismo de recursos em partes do Sahel, onde governos militares buscam recuperar o controle sobre os investidores estrangeiros, embora ainda dependam de seu capital e expertise.
No entanto, essa perda de recursos provenientes das compras chinesas gerou tensões fiscais. Em março de 2026, o Banco Mundial aprovou uma doação de US$ 250 milhões para fortalecer o setor financeiro do Níger e expandir o crédito para micro, pequenas e médias empresas. No dia seguinte, o FMI aprovou um desembolso imediato de US$ 90 milhões, alertando, porém, para novos déficits no financiamento da balança de pagamentos e no orçamento em 2026, em parte devido à insuficiência da receita petrolífera.
O governo do Níger pode desejar maior controle, mas sua situação econômica limita suas opções. Embora o FMI projete um crescimento de 6,7% em 2026, alerta para os riscos potenciais decorrentes de choques de segurança, volatilidade das commodities e menor assistência externa. O novo apoio do Banco Mundial ao sistema bancário do Níger confirma essa tendência. O Níger pode estar crescendo, mas sua dependência do petróleo significa que não é resiliente.
As instituições do Níger representam mais uma restrição. O Índice de Liberdade Econômica de 2026 da Heritage Foundation, centro de pesquisa dos EUA, atribui ao país uma pontuação de 51, classificando-o em 140º lugar no mundo. Um Estado de Direito frágil, um quadro regulatório incerto e um desempenho insatisfatório em áreas políticas essenciais estão entre os aspectos críticos considerados pelo índice na avaliação do país.
As mesmas métricas da Heritage Foundation apontam para uma dívida pública de 47% do PIB, aproximadamente US$ 9,5 bilhões. Considerando que o PIB do Níger é de US$ 20 bilhões, essa situação não é facilmente contornável sem financiamento externo substancial e a reconstrução da logística de exportação no curto prazo.
O novo acordo de livre comércio da China com a África pode recolocar o petróleo do Níger na mesa de negociações para um mercado chinês ávido por ele, em meio à atual guerra com o Irã
Mas, mesmo que a relação comercial se amenize, a infraestrutura, o financiamento e os impactos políticos permanecem. Uma vez que a extração de recursos de um país esteja atrelada ao capital e à logística de um parceiro estrangeiro, desvincular-se desse parceiro torna-se muito mais difícil do que assinar o acordo original.
A lição mais ampla é simples. As empresas estatais chinesas financiam um projeto, desenvolvem a rota de exportação, intermediam quando disputas regionais ameaçam sua infraestrutura e permanecem em posição de lucrar exatamente quando o país anfitrião mais precisa de receita. Embora as localidades possam, e de fato o façam, exercer sua própria vontade em certos momentos, a China adota uma estratégia de longo prazo com sua Iniciativa Cinturão e Rota.
Os formuladores de políticas ocidentais não devem tratar a influência chinesa no Níger como um caso periférico. Trata-se de um Estado do Sahel rico em recursos naturais, onde a instabilidade e a necessidade econômica permitem que Pequim se torne um financiador, provedor de infraestrutura e mediador diplomático comprovado.
Miles Pollard é analista de política econômica no Centro de Análise de Dados da Heritage Foundation.
Payton Kleidon é ex-integrante do Programa de Jovens Líderes da Heritage Foundation.
©2026 The Daily Signal. Publicado com permissão. Original em inglês: China’s Complex Economic Ties With Niger
VEJA TAMBÉM:


