O 14º Fórum de Lisboa, conhecido como “Gilmarpalooza”, por ser promovido pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), teve início nesta segunda-feira (1º) com um cenário de visível esvaziamento de autoridades em comparação ao ano anterior.
Contrariando o próprio decano, o evento parece ter sido afetado pela investigação envolvendo o Banco Master. Na semana passada, Gilmar afirmou que a organização não detectou “nenhum impacto” do caso Master no tamanho do fórum.
“O Fórum de Lisboa não tem nada a ver com nada disto. É um evento de perfil puramente acadêmico em que nós discutimos questões relevantes”, disse o decano, em entrevista à colunista Carla Araújo, do portal UOL.
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“Vamos ter as melhores cabeças do Brasil, de Portugal, da Europa. São 20 ou mais professores estrangeiros que lá estarão. O Fórum de Lisboa faz parte daquilo do Brasil que dá certo”, enfatizou.
Apesar disso, houve uma redução significativa na participação de ministros do STF, governadores e membros do primeiro escalão do governo Lula. No ano passado, cinco ministros da Corte participaram do evento, incluindo o ministro André Mendonça, atual relator do caso Master.
Neste ano, apenas dois integrantes da atual composição do STF confirmaram presença: o próprio Gilmar e o ministro Alexandre de Moraes. O ministro Flávio Dino cancelou sua participação de última hora devido a um acidente doméstico.
A investigação do caso Master abriu uma crise no Supremo. O ministro Dias Toffoli deixou a relatoria do inquérito após a Polícia Federal encontrar menções a ele no celular de Daniel Vorcaro, dono do banco.
Além disso, o escritório da família do ministro Alexandre de Moraes firmou um contrato de R$ 129 milhões com o Master por três anos. Moraes e Toffoli negam qualquer irregularidade, mas a situação fez com que o presidente do STF, Edson Fachin, anunciasse um Código de Ética para integrantes da Corte.
Primeiro escalão do governo Lula também debandou
Se em 2025 o evento atraiu seis integrantes do alto escalão do governo Lula (PT), a edição atual conta com apenas três representantes do governo federal. Participaram no ano passado:
- Ricardo Lewandowski: então ministro da Justiça e Segurança Pública;
- Alexandre Silveira: ministro de Minas e Energia;
- Márcio França: então ministro do Empreendedorismo;
- Jader Barbalho Filho: então ministro das Cidades;
- Jorge Messias: Advogado-Geral da União (AGU);
- Adriano Massuda: Secretário-Executivo do Ministério da Saúde.
Indicado pelo presidente Lula (PT) ao STF, Messias teve o nome rejeitado pelo Senado. Em 2026, confirmaram presença Silveira, o novo ministro do Empreendedorismo, Paulo Henrique Pereira, e o ministro da Justiça Wellington César Lima e Silva.
“Gilmarpalooza” com Motta, mas sem Alcolumbre
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), participou da abertura do fórum. Contudo, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), não irá a Portugal. Apesar disso, a única categoria que contrariou a tendência de esvaziamento foi a dos parlamentares.
Em 2025, o evento contou com a participação de 16 congressistas, entre eles o senador Ciro Nogueira (PP-PI), alvo da Polícia Federal por suposta ligação com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Nogueira nega qualquer irregularidade.
Neste ano, 18 parlamentares confirmaram presença, segundo levantamento divulgado pelo portal Poder360. À publicação, Gilmar minimizou as ausências e atribuiu a redução de autoridades ao ano eleitoral no Brasil.
Mesmo reduzindo o número de participantes, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) conta com 11 ministros no fórum deste ano. Em 2025, foram 17.
Apenas um governador confirmou presença no “Gilmarpalooza”
A redução também atingiu os governadores. Em 2025, os então governadores Helder Barbalho (Pará), Mauro Mendes (Mato Grosso), Ronaldo Caiado (Goiás) e Eduardo Leite (Rio Grande do Sul) foram palestrantes. Já em 2026, apenas o governador do Tocantins, Wanderlei Barbosa (Republicanos), confirmou participação.
O que Gilmar Mendes disse na abertura “Gilmarpalooza”
Na abertura do evento, Gilmar enfatizou que a regulação das plataformas e da inteligência artificial não é uma questão periférica, mas uma “condição de preservação do próprio regime democrático”.
O decano destacou que o mundo vive um “momento de inflexão na ordem global”, marcado por tensões no multilateralismo, disputas por supremacia tecnológica e o ressurgimento de nacionalismos.
Uma das teses centrais apresentadas por ele foi o conceito de “tecnofeudalismo”, citando o ex-ministro grego Yanis Varoufakis. Segundo o ministro, o capitalismo convencional estaria cedendo lugar a uma ordem onde o poder absoluto é exercido por plataformas digitais que monopolizam a atenção e ditam comportamentos.
Nesse cenário, as big techs atuariam como os “novos senhores da terra”, enquanto cidadãos assumem a condição de “servos digitais”. O ministro alertou que essa concentração de poder econômico e informacional pretende, muitas vezes, subjugar os próprios Estados.
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