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Paixão pela guerra: a direita americana está traindo a prudência conservadora?

Parece que a guerra une a direita americana. É comum ouvir que a guerra com o Irã causou uma fissura na “coalizão MAGA” (seja lá o que isso signifique). Mas as pesquisas indicam que, principalmente, quem está dividido são os influenciadores online. Uma supermaioria de republicanos apoiou a guerra o tempo todo, e a maioria dos críticos republicanos se identifica como “não MAGA”. Dado que a ala não MAGA do Partido Republicano tende a ter uma coloração neoconservadora, há razões para acreditar que parte da oposição seja movida mais por animosidade contra Trump do que por um ceticismo principiado em relação à guerra.

A ampla aceitação, por parte dos autoproclamados conservadores, de uma guerra casual, iniciada sem a aprovação da clara autoridade constitucional do Congresso, contrasta fortemente com a cautela e a prudência que estão no coração da disposição conservadora. Embora talvez não devesse surpreender que a direita americana, cada vez mais encantada com o governo dos homens fortes, aceite também guerras conduzidas por homens fortes, a crítica distintamente conservadora à guerra desnecessária e à política externa agressiva não deveria desaparecer sem resistência.

A disposição conservadora é caracterizada por humildade, cautela e ceticismo diante de projetos políticos transformadores e planejados. Uma das melhores e mais concisas exposições das razões para isso é The Uses of Pessimism, de Roger Scruton, publicado há pouco mais de quinze anos. Mirando sobretudo a política doméstica de esquerda, Scruton descreveu várias “falácias” em que a retórica e a política contemporâneas tendem a cair. Trata-se de um diagnóstico perspicaz do que se poderia chamar de vírus ideológico da mente, que impede sua vítima de apreciar as lições da história ou aprender com a própria experiência. Entre essas falácias estão:

A falácia do melhor caso: “Ao ser chamada a escolher em condições de incerteza, imagina o melhor resultado e presume que não precisa considerar nenhum outro.”

A falácia do nascido livre: a ideia de que a liberdade é obtida simplesmente pela remoção de obstáculos e não exige instituições, tradições ou restrições morais.

A falácia utópica: uma indiferença a qualquer refutação dos próprios objetivos; uma tendência a aceitar esperanças absurdamente otimistas não apesar das objeções, mas por causa delas. Ela inverte qualquer objeção, transformando-a em um desrespeito moral contra quem a apresenta. Toda cautela ou contenção é vista como incapacidade de corresponder às exigências morais do momento.

A falácia de soma zero: a crença de que quaisquer “perdedores” na sociedade só estão perdendo porque estão sendo explorados por alguém que está vencendo; ela ignora a realidade de que há condições benéficas para todos, e que prejudicar os “vilões” não traz necessariamente benefício algum aos “bons”.

A falácia do planejamento: a crença “de que podemos avançar coletivamente em direção às nossas metas adotando um plano comum e trabalhando para realizá-lo, sob a liderança de alguma autoridade central, como o Estado”. Ela deixa de “reconhecer que soluções consentidas para problemas coletivos, em regra, não são impostas, mas descobertas, e descobertas ao longo do tempo”.

A falácia do espírito do tempo: a assimilação de “tudo o que está acontecendo no mundo em que você vive, incluindo seus próprios projetos, ao ‘espírito da época’”.

A falácia da agregação: a tendência de reunir todas as coisas boas e não considerar que a relação entre os bens pode ser complicada. Em particular, ela significa que não é preciso pensar em termos de trade-offs: ao buscar um bem, presumimos que outros virão junto.

Scruton explorou essas tendências principalmente no contexto da política doméstica, mas não é nada difícil ver como a política externa americana — e especialmente a justificativa e a retórica sobre decidir entrar em guerra — tem caído repetidamente nessas armadilhas.

Comentários que defendem a guerra quase sempre apresentam o melhor resultado possível e depois raciocinam como se a única questão fosse saber se devemos ou não realizá-lo. Podem reconhecer que há uma gravidade moral na guerra — afinal, pessoas podem morrer. Mas sempre se trata de saber se o melhor cenário possível (levar liberdade a tal população, ou derrubar tal inimigo dos EUA) vale os custos em vidas e recursos. Raramente se levanta a questão: o melhor cenário é realmente atingível? E, se for, ele provavelmente virá acompanhado de outros resultados, imprevistos, que não são tão desejáveis? A falácia da agregação e a falácia do melhor caso caminham facilmente juntas.

O pensamento de soma zero, claro, surge naturalmente na política externa. É uma área da ação governamental em que é mais fácil apagar da mente a complexa teia social, pensando em vez disso em países unificados colidindo como bolas de bilhar. Também é muito mais fácil encobrir consequências não intencionais. Os efeitos dessas ações do outro lado do mundo podem não aparecer de imediato. De fato, podem levar anos ou até décadas para repercutir de volta aos Estados Unidos. Quando George W. Bush ergueu a faixa “Missão cumprida”, parecia que o Iraque havia sido uma vitória limpa, planejada e executada. Não sabíamos, naquele momento, que horrores ainda estavam por vir, tanto para os militares americanos quanto para os iraquianos, nem quais efeitos em cascata um conflito prolongado teria em toda a região.

Os americanos também sempre foram fascinados pela ideia de que a História marcha junto com seus exércitos — que “um evangelho ardente” está “escrito em fileiras reluzentes de aço” — e de que suas conquistas no mundo conduzirão ao fim da história ou a uma era de ouro. Isso costuma vir acompanhado da falácia do nascido livre: uma coisa que nossos exércitos fazem especialmente bem é derrotar os exércitos de governos ditatoriais. Assim, tendemos a acreditar que derrubar estátuas equivale à difusão da liberdade.

Mas talvez a conexão mais direta entre as falácias de Scruton e o debate sobre a política externa americana seja a falácia utópica: existe uma tendência disseminada de descartar objeções práticas à guerra transformando-as em falhas morais de quem as apresenta. Quem quer que levante preocupações sobre os resultados da guerra vira uma espécie de Neville Chamberlain vendendo a alma ao diabo nazista. Todo alerta de críticos “antipatrióticos” sobre os perigos da guerra apenas reforça o senso de “coragem moral” que seus defensores sentem, certos de que não irão “recuar diante do momento”.

Reconhecer essas falácias deveria nos deixar mais cautelosos diante da arrogância ao avaliar nosso próprio conhecimento e nossa capacidade de manipular o mundo com força militar, assim como a disposição conservadora nos adverte contra a arrogância em empreendimentos de política doméstica.

O fato de recaímos tão frequentemente nessas inclinações ao decidir entrar em guerra é ainda mais lamentável porque a guerra em si só as amplifica. “As falácias que diagnostiquei neste livro”, escreveu Scruton, “não surgem porque o pensamento que elas exemplificam seja absurdo, mas porque envolve aplicar, em tempos de paz e cooperação social, a atitude da guerra.”

Com isso, é claro, Scruton não queria dizer que um estado de guerra torne magicamente as falácias razoáveis. Pelo contrário, a guerra — ao menos na compreensão tradicional — exige uma forma simplificada de pensar. Um estado de guerra exige foco quase exclusivo em um objetivo identificável. Os desastres implicados na derrota fazem com que a maioria dos objetivos normais de uma sociedade civil precise ser suspensa ou subordinada ao da vitória. O planejamento se torna mais possível quando não precisa levar em conta interesses além de um só; o pensamento de soma zero se aproxima mais da verdade quando há uma luta de vida ou morte contra um rival identificável.

Uma complicação no nosso contexto contemporâneo é a transformação da guerra em uma escolha política casual.

A distinção que Scruton e outros conservadores traçavam entre o estado de paz e o estado de guerra sugere dois contextos completamente diferentes em que as decisões são tomadas. O primeiro é um contexto civil, voltado ao ajustamento mútuo; o segundo é um contexto de antagonismo em que a vitória sobre o oponente é da mais alta importância. É por isso que a guerra é tão perigosa para uma sociedade livre e uma escolha tão tola se empreendida voluntariamente, fora da compulsão da necessidade: ela incentiva uma maneira de pensar sobre o governo e o poder político que é antitética às formas da paz civil.

Uma complicação no nosso contexto contemporâneo, porém, é a transformação da guerra em uma escolha política casual. Ultimamente, em parte graças à dominância militar dos Estados Unidos no mundo, as guerras deixaram de ser apresentadas como crises existenciais que exigem nossa atenção e compromisso totais. Podemos fingir que a decisão de ir à guerra não é diferente da decisão de enviar cheques de estímulo ou iniciar projetos de infraestrutura. Mas a farsa só vai até certo ponto: os mesmos políticos que dizem que suas guerras são apenas pequenas “operações militares”, que não precisam ser cuidadosamente deliberadas em público nem declaradas pelo Congresso, ainda exigem o tipo de deferência e os poderes prerrogativos associados à guerra em escala total. Não é coincidência que, à medida que permitimos que presidentes travem guerras voluntárias por conta própria, eles também tenham passado a abordar questões rotineiras de política doméstica com a mesma mentalidade da guerra.

A guerra casual oferece aos políticos — hoje, principalmente aos presidentes — o melhor de todos os mundos: eles não precisam construir, com cuidado e deliberação, um caso de que a guerra é necessária e justificada; podem obter toda a deferência e o poder irrestrito que vêm com o tempo de guerra, mesmo quando as questões imediatas não são existenciais; e podem continuar usando todos os atalhos lógicos que Scruton identificou para justificar qualquer impulso que lhes passe pela cabeça.

Os prejuízos são muitos: os soldados americanos enviados para lutar e possivelmente morrer; a vida política americana, que se acomoda ainda mais ao presidencialismo autocrático; e as gerações futuras, que terão de colher os possíveis vendavais, no país e no exterior, que a guerra caprichosa semeia hoje.

Cassandra advertiu seu irmão Paris, quando ele partiu para roubar Helena e antagonizar os gregos: “Quão grandes são as chamas que buscas sobre estas águas, tu não o sabes!” Nem nós sabemos. Não sabemos se podemos alcançar o melhor resultado possível. Não sabemos se derrubar um regime não resultará em uma condição ainda pior ou em nova conflagração. Não sabemos que efeitos imprevistos nossos planos bem traçados poderão produzir, seja no exterior ou em casa, agora ou no futuro. Sabemos, sim, o valor das vidas americanas, do dinheiro e da reputação. Cientes desses limites e dos erros de pensamento que nos levam a ignorá-los, a disposição conservadora deveria ser uma barreira contra tamanha insensatez. A direita americana, porém, com frequência demais, age como torcedora.

John G. Grove é o editor da Law & Liberty, uma revista online que publica ensaios, resenhas de livros, podcasts e debates sobre direito, política, teoria política, economia, educação e cultura, com foco na tradição do liberalismo clássico

©2026 The Public Discourse. Publicado com permissão. Original em inglês: Pessimism Abroad 

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