O PSDB foi esvaziado após a Operação Lava Jato e a eleição do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL, à época no PSL), em 2018, e desde então vem sendo ameaçado pela chamada cláusula de barreira. O partido, no entanto, ainda busca preservar espaço institucional em meio à reorganização da política brasileira.
Uma possível candidatura de Aécio Neves (PSDB-MG) ao Palácio do Planalto tem sido aventada. A movimentação, no entanto, é interpretada nos bastidores menos como um projeto presidencial competitivo e mais como uma tentativa de sobrevivência política do PSDB.
Antes disso, a eventual candidatura de Ciro Gomes, filiado ao PSDB em 2025, foi considerada pelo partido para a disputa presidencial. Mas, no último dia 16, ele anunciou a pré-candidatura ao governo do Ceará.
“Uma candidatura Aécio em 26 não tende a transformar o cenário, mas pode sim posicionar o PSDB no debate eleitoral – nas mentes e bocas – e assim, ajudar o partido a conquistar mais cadeiras, seja na Câmara, seja no Senado”, avalia a analista política na BMJ Consultores, Raquel Alves.
O movimento ganhou força especialmente após manifestações de lideranças de partidos como o Cidadania e o Solidariedade, que também são ameaçados pela cláusula de barreira. A medida estabelece exigências, como número mínimo de deputados eleitos, para que as siglas tenham acesso a benefícios como o Fundo Partidário.
As lideranças que apoiam Aécio Neves dizem defender a construção de um “campo democrático” alternativo à polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro, agora representado pelo seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que é pré-candidato à Presidência.
Entre os defensores da reconstrução desse espaço político está Roberto Freire, liderança histórica do Cidadania, que recentemente voltou a defender publicamente a reorganização de um “centro político democrático” fora dos polos ideológicos dominantes.
“Aécio construiu uma trajetória marcada pelo compromisso com as liberdades, com as instituições e com um Brasil moderno, aberto ao mundo e preparado para os desafios da nova sociedade digital, da economia do conhecimento, da inovação e das profundas transformações do século XXI”, escreveu Freire em seu perfil no X.
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Estratégia do PSDB visa sobrevivência institucional
Publicamente, os defensores da articulação pela pré-candidatura de Aécio Neves afirmam que o objetivo é reconstruir um “centro democrático” capaz de oferecer alternativa à polarização política. Esse é o discurso adotado também pelo presidente do Cidadania e vice-presidente da federação PSDB-Cidadania, deputado Alex Manente. Ele defende o nome de Neves como uma alternativa ao presidente Lula e ao campo ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
O PSDB, que durante duas décadas protagonizou a política nacional e polarizou eleições presidenciais contra o PT, enfrenta hoje um cenário impensável há poucos anos: a necessidade de ampliar bancadas para evitar o risco de perder acesso ao Fundo Partidário e ao tempo de propaganda eleitoral.
A avaliação em Brasília é de que uma candidatura nacional de Aécio Neves — mesmo sem chances de vitória — poderia aumentar a visibilidade partidária, fortalecer chapas proporcionais, puxar votos para deputados federais e ajudar legendas ameaçadas a atravessar a cláusula de desempenho.
Na avaliação de Tavares, a movimentação em torno de Aécio deve ser interpretada “menos como um projeto viável de chegada ao Planalto e muito mais como uma operação política de preservação partidária”.
“A chance de vitória é muito pequena, mas isso não significa ausência de racionalidade política”, diz. Tavares pontua que uma candidatura presidencial oferece viabilidade nacional, garantindo participação em debates, presença na imprensa e articulação regional. “Isso é vital para um partido que corre o risco de desaparecer do mapa político”, complementa.
Assim, na avaliação do cientista político, o objetivo principal não é chegar ao Planalto, mas sim impulsionar as candidaturas de deputados federais. O cálculo é estratégico para o Legislativo: a candidatura ajuda a criar palanques estaduais e a manter a marca histórica em circulação, o que atrai votos nominais necessários para o desempenho parlamentar.
Doze anos depois de quase vencer a eleição presidencial de 2014, Aécio Neves reaparece não como favorito ao Planalto, mas como peça importante de um esforço para impedir que o partido que dominou a centro-direita brasileira durante décadas seja reduzido à irrelevância política.
Para o cientista político Elias Tavares, a possível candidatura de Aécio simboliza uma transformação do sistema político brasileiro pós-2018. “Partidos que disputavam a Presidência da República agora lutam, antes de tudo, simplesmente para continuar existindo”, afirma.
Cláusula de barreira força adoção de estratégias para manutenção de partidos
A chamada cláusula de barreira — ou cláusula de desempenho — foi criada na reforma política de 2017 com o objetivo de reduzir a fragmentação partidária no país.
O sistema funciona como uma escada que ganha novos degraus a cada quatro anos. Em 2018, os partidos precisavam eleger no mínimo nove deputados federais. Em 2022, esse número subiu para 11.
A partir das eleições de 2026, as exigências ficarão mais rígidas. Os partidos precisarão eleger ao menos 13 deputados federais distribuídos em pelo menos nove estados ou alcançar 2,5% dos votos válidos nacionais para deputado federal, com ao menos 1,5% em nove unidades da federação.
Caso não atinjam os critérios, as legendas não deixam de existir formalmente, mas perdem estrutura política e financeira fundamental para continuar competitivas.
Para o cientista político Elias Tavares, a cláusula de barreira alterou profundamente a lógica dos partidos médios e pequenos. “O debate deixou de ser apenas ideológico e passou a ser matemático”, afirma.
Na prática, partidos que fracassam na cláusula têm redução drástica de recursos do Fundo Partidário e perdem tempo de TV e de rádio nas propagandas gratuitas. Além disso, com o esvaziamento de bancadas, eles perdem força e passam a sofrer pressão por fusões, incorporações ou federações.
O cientista político afirma que federações partidárias passaram a funcionar como “estratégias mínimas de manutenção de relevância”. Na avaliação de Tavares, partidos como PSDB, Cidadania e Solidariedade vivem hoje uma “lógica de sobrevivência coletiva”.
Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, o PSDB tem cerca de 1,2 milhão de filiados; o Solidariedade possui aproximadamente 370 mil filiados; e o Cidadania conta com cerca de 410 mil filiados.
Apesar da estrutura ainda relevante em número de filiados, as legendas perderam musculatura eleitoral e presença institucional nos últimos anos. O PSDB, por exemplo, ficou sem governadores e viu parte expressiva de seus quadros migrar para legendas como PSD, União Brasil e PL.
Hoje, a federação PSDB-Cidadania tem 19 deputados federais. A bancada tucana reúne atualmente 17 parlamentares.
O Cidadania, por sua vez, conta apenas com os deputados Alex Manente (SP) e Arnaldo Jardim (SP) nesta legislatura. Assim, o partido depende da federação com o PSDB para manter relevância parlamentar.
A aproximação de partidos como o Solidariedade ao projeto tucano é vista por analistas também sob a ótica da sobrevivência política. A avaliação é de que a cláusula de barreira acelerou a necessidade de alianças amplas entre partidos médios e pequenos que perderam espaço na polarização nacional.
O Solidariedade conta com seis deputados federais: Aureo Ribeiro (RJ), Paulinho da Força (SP), Eduardo Velloso (AC), Vanderlan Alves (CE), Márcio Honaiser (MA) e Ribeiro Neto (MA).
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PSDB tenta sobreviver após colapso político
O caso tucano é considerado o mais simbólico da transformação política após as eleições de 2018. O partido que governou o Brasil com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e foi o principal antagonista do PT durante anos perdeu espaço rapidamente após o avanço da Lava Jato, o desgaste da política tradicional e a ascensão de Jair Bolsonaro e seus aliados.
Para o cientista político Elias Tavares, o caso tucano talvez seja “uma das maiores transformações políticas da Nova República”. “O PSDB dominou o maior colégio eleitoral do país [São Paulo], disputou sucessivos segundos turnos presidenciais e hoje discute sobrevivência por cláusula de barreira”, afirma.
Neste contexto, segundo Tavares, o avanço de Bolsonaro e seus aliados desestruturou o espaço político historicamente ocupado pelos tucanos.
“Durante anos, o PSDB representou a principal força de oposição ao PT. Com a ascensão de Bolsonaro, esse eleitorado migrou para uma direita mais ideológica, mais polarizada e mais assertiva”, afirma. Para ele, o partido acabou ficando sem identidade clara em um ambiente político dominado por discursos mais contundentes.
O cientista político também aponta a derrota em 2022 do ex-governador Rodrigo Garcia em São Paulo como marco simbólico da crise tucana. “Muitos enxergaram ali a verdadeira derrota do projeto nacional do PSDB”, afirma.
O próprio PSDB reconheceu publicamente as dificuldades impostas, dentre outras razões, pela cláusula de desempenho. Em entrevista concedida para o portal Uol na segunda-feira (25), o deputado Aécio Neves afirmou que o “PSDB quase acabou”.
“Vamos ser realistas, os nossos governadores eleitos pelo PSDB saíram do partido […] Nós estamos lutando contra a maré, mas eu posso dizer com muita segurança que, a partir dessas eleições de 2026, independente de nós termos uma candidatura presidencial ou não, o PSDB voltou para o jogo e voltou para influenciar positivamente a política brasileira”, disse Neves.
Em nota oficial, o partido também destacou que “o PSDB não vai desaparecer” e admitiu que busca “chapas fortes” e alianças para superar os obstáculos eleitorais de 2026.
Na avaliação da analista política na BMJ Consultores Raquel Alves, no entanto, não há ambiente para o PSDB resgatar o protagonismo perdido. Na opinião dela, não há espaço real para uma terceira via na eleição de 2026.
“Então, se confirmada uma candidatura [presidencial do PSDB], ela não teria potencial de mudar o ambiente de polarização nacional, mas eventualmente a candidatura poderia ajudar o partido a conquistar mais assentos no Legislativo e dar alguma relevância aos tucanos na próxima legislatura”, pondera a analista.


