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Teologia natural tomista: unindo a primeira via e a terceira via de Santo Tomás

“As coisas invisíveis de Deus são vistas pelo conhecimento que temos das coisas criadas” (Rm 1, 20). “Donde também fica evidenciado que, embora Deus transcenda as coisas sensíveis e os sentidos, contudo os seus efeitos, dos quais é assumida a demonstração para provar que Deus é, são sensíveis” (Suma Contra os gentios – São Tomás de Aquino).

A demonstração da existência de Deus não é feita somente pela fé, mas também pela boa filosofia. Percebemos à nossa volta um fato evidente e inquestionável: há mudança. Uma coisa muda quando deixa de poder ser e passa a ser. Por exemplo: este caderno mudou, pois era potencialmente possível que algo fosse escrito nele e agora foi escrito.

A grande questão que o leitor deve se fazer neste instante é: como é que se deu essa mudança? Ou seja, qual a causa daquilo que pode ser passar ao ser?

Olhemos para o estatuto ontológico do caderno. Ora, é preciso notar que, para mudar, o caderno não era autossuficiente e não bastava-se a si mesmo. Pois, como todos podemos experimentar, ele não tinha o escrito em si e nem podia escrever em si, por si mesmo. Dado que, caso ele tivesse em si essas perfeições, não estaria em potência e nem mudaria, estaria, em verdade, em ato. Não há mudança quando já se tem a perfeição. Notem como a ideia de ato está relacionada à ideia de ser, pois essa é uma premissa central para entender a relação entre a primeira e a terceira via. Neste ponto, eu gostaria de salientar ainda mais essas verdades elementares que o leitor deveria compreender bem:

a) para mudar, o caderno precisava receber de outro essa perfeição, este ser;

b) o outro, ou alguém, ou algo, precisa ter em ato essa perfeição, este ser, para comunicá-la ao caderno e ele mudar, tornando-se partícipe da perfeição que ele não tinha.

Para São Tomás, o único ser que possa possuir esse estatuto ontológico é aquele que todos chamam de Deus

Nessas ideias básicas, estão contidas duas vias das cinco propostas por São Tomás na Summa Theologiae. Prestemos atenção no seguinte exemplo: se todas as coisas que existem no mundo, pensando nelas individualmente, mas também em conjunto, possuíssem potência para ser – seguindo o argumento anterior –, elas poderiam ter vindo a ser por si mesmas? Poderiam ter causado a si mesmas sob qualquer aspecto, sobretudo com relação ao ser?

Além disso, se no universo só existem coisas que não possuem em ato a sua existência, mas receberam o ato de ser de outro e por outro, elas podem ser consideradas a razão do seu ser? E mais, conhecendo apenas coisas assim, nossa mente encontraria resposta para a pergunta: por que há o ser e não há o nada? Potência (pode ser). Ato (aquilo que é). Potência para ser (ainda não é). Ato de ser (é).

Ora, para essas perguntas existem duas possibilidades de resposta:

a) Ou as coisas que não têm o ser por si, mas podem ser, geraram-se a si mesmas, ao menos uma, a primeira. Por consequência, sendo o motor de si mesmo, passando-se a si mesma da potência ao ato, comunicaram esse ato a todas as demais;.

b) Ou há um ser que é ato puro com relação ao ser, não tendo nenhum tipo de potência passiva para ser, pois ele é o ser sem receber de ninguém o ser. Portanto, nele nossa mente encontraria a resposta para a pergunta: “Por que há o ser e não há o nada?”. Com qual das duas hipóteses o leitor ficaria?

Para São Tomás, a primeira parece ser absurda e irracional, pois, se não é possível um ente gerar a si mesmo naquilo que é acidental, muito menos poderia gerar em si mesmo o ser que não possui, que é a perfeição das perfeições.

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Neste caso, se o leitor refletir bem, verá que a hipótese (1) defende algo mais ou menos assim: aquilo que era nada gerou o ser.

Concluímos este pequeno artigo dizendo que, a saber, não se trata de saber se o universo é eterno ou se há infinitos movimentos ou mudanças; trata-se, antes, de explicar por que existe algo, de onde veio o ser, de onde veio o primeiro ato. E mais, de experimentarmos com as luzes de nossa inteligência que a potência, o nada, a imperfeição não podem ser causa suficiente do ser.

Ora, o ser potencial não é nada e, sendo nada, não pode causar nada. Sendo assim, o nada, a potência, não podem explicar nada. Ora, se é impossível que tenha havido um nada de onde se gerou tudo, seguindo a hipótese (2) chegamos a outra conclusão, agora positiva: sempre houve o ser.

Nesse sentido, a primeira e a terceira vias, seguindo e destrinchando essa verdade, defendem que há um Esse subsistens (ser subsistente) que, por ser o próprio ser, é ato puro, pois não tem potência passiva nenhuma para ser ou para mudar e, por essa mesma razão, todo ser que pode existir ou mudar existirá ou mudará, em última instância, por participar dele.

Além disso, se aceitamos essa verdade, deveremos aceitar que todas as perfeições, bondade, atos, radicam, em última instância, neste primeiro, neste ser, e que ao universo, à nossa alma, não é permitido nada mais que apenas participar dessa suma Bondade. Para São Tomás, o único ser que possa possuir esse estatuto ontológico é aquele que todos chamam de Deus.

Willian Kalinowski, graduado, mestre e doutorando em Filosofia, é professor, membro pesquisador da Sociedade Brasileira para o Estudo da Filosofia Medieval; membro do Conselho Científico do Instituto De anima. É autor do livro “O intelecto e as virtudes intelectuais em Santo Tomás de Aquino”.

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