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O crime de Paulinho

Paulinho, do Palmeiras (na foto, em partida do Mundial de Clubes de 2025), pode ser punido pela forma como celebrou um gol contra o Flamengo. (Foto: Will Oliver/EFE/EPA)

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No último clássico entre Flamengo e Palmeiras, Paulinho marcou. Correu. Fez gesto de silêncio para a torcida adversária no Maracanã. Celebrou um gol diante de quem havia perdido, que é exatamente o que um gol é.

Agora responde no STJD. Porque celebrou um gol contra o Flamengo de um jeito que alguém, em algum gabinete, considerou excessivo. O STJD existe para julgar violência em campo, doping, manipulação de resultados – atos que ameaçam a integridade do jogo. Agora julga comemoração.

Comemoração e agressão diferem por estrutura, não por volume. A comemoração endereça o resultado. A agressão endereça o adversário como pessoa. O gesto de silêncio de Paulinho pertence à primeira espécie: nenhum torcedor do Flamengo foi tocado, ameaçado ou humilhado como pessoa. Foi derrotado. A diferença é a fronteira que o STJD cruzou ao abrir o processo.

A comemoração afirma a vitória diante de quem perdeu: esse é o gesto, e o gesto dói porque foi feito para doer

Hans Ulrich Gumbrecht, filósofo alemão, oferece uma teoria do esporte – não a única, mas a que melhor captura o que quem esteve numa arquibancada reconhece sem precisar de livro. O que o torcedor busca nas arquibancadas é presença: uma experiência de corpo inteiro que suspende o cotidiano e concentra a existência num único momento: o gol. Gumbrecht descreve o conceito de graça: o instante em que movimento e resultado coincidem de forma perfeita, quando o esforço desaparece e o que resta é pura forma. No futebol, o gol é o estado de graça por excelência.

A comemoração é o reconhecimento coletivo de que a graça aconteceu, o rito que sela o acontecimento, o instante em que o corpo processa o que a linguagem não consegue nomear. Sem ela, o gol é um dado no placar. Gumbrecht chama de Stimmung a atmosfera que envolve o espectador antes de qualquer interpretação consciente: o arrepio antes do pensamento, a elevação antes da análise. O estádio é um dos últimos lugares em que esse estado é socialmente sancionado. Quem retira a comemoração desfaz o rito pelo seu gesto constitutivo.

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Um futebol sem comemoração é técnica esportiva higienizada. Estamos numa era em que o sentido do jogo foi confiscado pela gramática do ressentimento e do moralismo. A imprensa esportiva, ou pelo menos a fração dela que aprendeu a falar em “narrativas” e “representatividade”, já não cobre futebol. Distribui certificados de adequação moral. Paulinho comemorou. Logo, Paulinho agrediu. Tudo o que se retira do estádio perde o contexto que o tornava inteligível.

Provocação é parte constitutiva do futebol. O rival existe para ser derrotado e, uma vez derrotado, para testemunhar a derrota com todos os seus desconfortos. A comemoração afirma a vitória diante de quem perdeu: esse é o gesto, e o gesto dói porque foi feito para doer. Para Gumbrecht, é também a expressão de uma intensidade que a vida administrada da pós-modernidade suprimiu.

O palavrão no estádio existe desde que existe estádio. O torcedor xinga o juiz, o adversário, o goleiro que errou. Xinga com convicção, com alegria, com o vocabulário que a vida regrada não permite. O estádio é o único lugar público em que a intensidade tem licença coletiva – não porque lá impere a anomia, mas porque as regras que valem lá têm outra função: proteger a integridade do jogo, não a sensibilidade de quem perdeu. A comemoração de Paulinho só tem sentido dentro da liturgia do esporte. Quem não entende isso nunca esteve numa arquibancada de verdade.

As regras que imperam no estádio e no futebol têm a função de proteger a integridade do jogo, não a sensibilidade de quem perdeu

Reprimir a comemoração esteriliza o futebol. A cultura woke desenvolveu um talento singular para transformar cultura em problema. O estádio, que era o espaço em que a intensidade tinha licença para existir com dignidade, passa a ser auditado pela mesma sensibilidade que regula os discursos nos campi das universidades federais do país. O “excessivo” e o “obsceno” são categorias cujo conteúdo é sempre fornecido pelo ofendido. Ou seja, um critério que varia com a sensibilidade do receptor e serve ao arbítrio autoritário. A linha entre comemoração legítima e provocação ilícita é traçada por quem não entende nada de futebol.

O futebol sobreviveu a guerras e ditaduras por ser impermeável à moralização. Era o espaço em que um metalúrgico do ABC e um executivo de Higienópolis podiam gritar a mesma coisa ao mesmo tempo sem que nenhum deles precisasse se justificar a ninguém. Essa imunidade era a condição de possibilidade do jogo como experiência comum. E isso significa que, ao destruí-la, não se moraliza o futebol. Transforma-se o futebol em outra coisa. Nem direi no quê.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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