A Bolívia está enfrentando há mais de três semanas fortes manifestações que já causaram bloqueios de estradas em diversas partes do país. As paralisações têm provocado falta de alimentos, combustíveis e material hospitalar na capital, La Paz, aumentando a pressão política sobre o presidente de centro-direita Rodrigo Paz, eleito para o cargo no ano passado.
As manifestações começaram com reivindicações salariais e críticas aos preços dos combustíveis. Contudo, nas últimas semanas, grande parte dos atos foi sequestrada por apoiadores do ex-presidente socialista Evo Morales, que tentam impedir que ele seja preso – Evo é alvo de um mandado de prisão.
VEJA TAMBÉM:
Início dos protestos
O estopim para os protestos foi a insatisfação popular com o alto custo de vida, baixos salários e o preço e a qualidade dos combustíveis, em meio a uma crise econômica que já pressionava a população boliviana antes mesmo da posse de Rodrigo Paz, em 8 de novembro do ano passado.
O governo antecessor, liderado pelo socialista Luis Arce, ex-aliado de Morales, deixou a Bolívia afundada num caos econômico, com inflação anual de 20,4% em 2025 e previsão de queda de até 3,3% do Produto Interno Bruto (PIB) para este ano.
“Os bolivianos elegeram Rodrigo Paz no ano passado, principalmente pela promessa de reestruturar a economia do país, ampliar o acesso a combustíveis e melhorar o funcionamento do Estado. A Bolívia já enfrentava uma grave crise econômica, com inflação elevada e dificuldades de acesso a recursos energéticos”, resume à Gazeta do Povo Bárbara Neves, doutora em Relações Internacionais e coordenadora de internacionalização da Universidade Positivo (UP).
No início deste mês, trabalhadores foram às ruas para cobrar reajustes salariais e apresentar uma lista de 16 reivindicações ao governo Paz. O documento, entregue pela Central Operária Boliviana (COB), o maior sindicato do país, incluía a redução dos salários do presidente e dos ministros, além de medidas de alívio tributário.
O governo Paz já havia enfrentado uma primeira onda de protestos entre dezembro de 2025 e janeiro deste ano, após retirar subsídios aos combustíveis durante reformas. Naquele momento, contudo, o governo conseguiu fechar acordos e conter a mobilização. Desta vez, porém, os protestos não perderam a força mesmo com negociações.
Em meio ao impasse, seguidores do ex-presidente Evo Morales começaram a se juntar aos atos espalhados pelo país, transformando o que era uma pauta trabalhista em um movimento pela queda do atual governo. Com isso, os bloqueios de estradas, inicialmente concentrados no departamento de La Paz, se espalharam rapidamente para outras regiões da Bolívia: Oruro, Potosí, Cochabamba, Chuquisaca e Santa Cruz, isolando a capital boliviana do restante do território.
“Evo Morales transformou o legítimo descontentamento social em uma tentativa organizada de asfixia política e deposição do [atual] Executivo, visando forçar um retrocesso institucional que o reconduza ao poder”, afirmou à Gazeta do Povo Marco Aurelio da Silva, consultor de empresas e negócios internacionais e professor do Centro Universitário da Serra Gaúcha.
Desde que assumiu o poder, Paz tentou enfrentar a crise boliviana herdada em várias frentes. Em novembro, semanas após tomar posse, anunciou corte de 30% nos gastos públicos para 2026 e, no mês seguinte, declarou emergência econômica, financeira, energética e social para tentar implantar mais reformas.
O interesse de Evo nos atos
Evo Morales é alvo de um mandado de prisão por tráfico humano agravado e abuso sexual de menor. Neste mês, um tribunal boliviano emitiu a ordem de captura contra o ex-presidente socialista após ele não comparecer ao julgamento do caso. Morales é acusado pelo Ministério Público boliviano de ter mantido relação sexual com uma menor de idade durante seu governo. A acusação foi enquadrada também como tráfico humano porque, de acordo com os promotores, os pais da adolescente teriam consentido e facilitado a relação.
Desde outubro de 2024, quando o processo contra ele começou a avançar, Morales permanece “protegido” por centenas de seguidores em seu reduto eleitoral no Trópico de Cochabamba, região central da Bolívia, que é o principal bastião político e sindical do ex-presidente.
Durante os atuais protestos, os “evistas”, como são chamados os apoiadores do ex-presidente, chegaram a bloquear o aeroporto de Chimoré, na região do Trópico de Cochabamba, impedindo o fluxo de passageiros e cargas no local. A ação foi motivada pelo temor de que o governo realizasse uma operação para prender Morales. Os manifestantes espalharam pedras, galhos e outros objetos na pista para impedir pousos e decolagens no aeroporto. “As bases disseram que vamos defender o nosso líder indiscutível mesmo que custe vidas”, declarou o líder dos atos na ocasião, Teófilo Sánchez.
Segundo o analista Marco Aurelio, Morales tenta transformar o mandado de prisão contra ele em um conflito político aberto. Para sua base mais fiel, segundo o analista, a medida está sendo apresentada como “perseguição política” promovida pelo governo de centro-direita.
“Morales utiliza a técnica clássica do cerco e do bloqueio de estradas [particularmente sufocando La Paz] como um poderoso escudo político e judicial. Ao transferir seu problema jurídico para as ruas, ele tenta demonstrar ao governo de Rodrigo Paz que o custo social e econômico de sua prisão será a completa ingovernabilidade do país”, disse Marco Aurelio.
Para Bárbara Neves, Morales ainda exerce forte influência política no país, e as ações judiciais contra o ex-presidente aumentam a tensão entre seus apoiadores.
O governo Paz acusa Morales de estar usando os protestos para escapar da Justiça e tentar retomar o poder pela força. O ministro das Relações Exteriores da Bolívia, Fernando Aramayo, afirmou que as manifestações e o caos gerado por elas têm um “responsável claro”: Evo Morales. Aramayo acusou o ex-presidente socialista de estar liderando uma tentativa de golpe contra o governo Paz financiada pelo narcotráfico.
Morales nega as acusações. De seu reduto no Trópico de Cochabamba, o ex-presidente se apresenta como “líder da oposição” e afirma que Paz tem apenas dois caminhos para resolver a atual crise: colocar as forças armadas nas ruas ou convocar novas eleições em até 90 dias.
Para Arturo McFields, dissidente nicaraguense mestre em Relações Internacionais, nem Morales nem os sindicatos estão lutando por melhorias para a população boliviana. “Ambos lutam para escapar da Justiça. Não querem diálogo com o governo, querem imunidade para seus crimes”, escreveu McFields em artigo publicado pelo portal Infobae.
EUA apoiam governo Paz e aliados enviam ajuda
As acusações do chanceler Aramayo contra Morales encontraram eco em Washington. O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, afirmou na semana passada que o governo Trump “não permitirá que criminosos e traficantes de drogas derrubem líderes eleitos democraticamente”, um sinal de apoio da Casa Branca ao governo Paz.
Neste final de semana, o governo do presidente Donald Trump enviou à Bolívia assistência alimentar de emergência, suprimentos médicos e apoio logístico para aliviar o desabastecimento provocado pelos bloqueios.
A coalizão “Escudo das Américas”, criada por Trump, também se manifestou em defesa do governo Paz, condenando os protestos que “buscam subverter a ordem constitucional” e “desestabilizar um governo democraticamente eleito”. O “Escudo das Américas” conta com a participação de 12 países latino-americanos, entre eles Argentina, Chile, Equador e Paraguai.
No mesmo sentido, o Grupo Ideia, que reúne ex-presidentes de direita da América Latina e da Espanha, também cobrou uma resposta internacional mais firme à crise boliviana. Em carta aberta assinada por 31 ex-chefes de Estado, o grupo pediu à Organização dos Estados Americanos (OEA) que se mantivesse vigilante diante dos protestos e adotasse medidas para preservar a ordem democrática na Bolívia.
Logo quando os bloqueios começaram a se intensificar na Bolívia, a Argentina enviou aviões militares com carne para as cidades bloqueadas. O Chile, por sua vez, enviou 480 caixas de alimentos, enquanto o Peru doou quatro toneladas de mantimentos e repatriou bolivianos que estavam retidos em território peruano por causa das barreiras nas fronteiras. O governo Lula também manifestou apoio a Paz, expressando solidariedade e ordenando o envio de ajuda humanitária.
Até o momento, o único ruído diplomático veio da Colômbia. O presidente de esquerda Gustavo Petro classificou os protestos como uma “insurreição popular”, em uma sinalização vista pelo governo boliviano como apoio político às manifestações contra Paz. A declaração levou La Paz a expulsar a embaixadora colombiana por interferência em assuntos internos, embora o governo boliviano tenha afirmado que a medida não representa ruptura diplomática entre os dois países.
Crise humanitária
O impacto dos bloqueios sobre a população é grave. La Paz e El Alto, as cidades mais afetadas neste momento, enfrentam escassez de alimentos, combustível e insumos médicos, incluindo oxigênio hospitalar, o que levou hospitais a suspender cirurgias e a racionar o produto. Ao menos quatro pessoas morreram por não conseguir atendimento médico a tempo, entre elas uma criança de 12 anos.
No último final de semana, o governo tentou abrir um corredor humanitário entre El Alto e a cidade de Oruro – distantes 227 quilômetros – com um comboio de cerca de 150 veículos militares e policiais portando bandeiras brancas. A operação fracassou após confrontos com manifestantes armados com cargas de dinamite e pedras. Um civil identificado como Víctor Cruz Quispe morreu após ser alvejado durante o embate.
Seis organizações internacionais de defesa da infância, entre elas a Save the Children, alertaram para o impacto da atual crise sobre crianças e adolescentes, citando as restrições ao acesso à saúde, alimentação e educação, além de efeitos graves na saúde mental pela exposição contínua à violência.
Sem saída à vista
Com o país entrando na quarta semana de crise, o diálogo para o fim dos bloqueios e dos atos segue travado. O governo Paz tem dito que não vai negociar com quem não respeita “a vontade popular expressa nas urnas”. Os atuais líderes dos bloqueios rejeitam neste momento qualquer acordo que não passe pela renúncia do presidente.
O Senado boliviano aprovou recentemente um projeto de lei que revoga restrições legais para a declaração de estado de exceção, uma demanda de setores da direita que querem dar a Paz respaldo legal para ampliar o uso das forças de segurança nas ruas para desbloquear vias. A proposta ainda precisa passar pela Câmara dos Deputados e foi criticada pelos líderes dos protestos.
Na avaliação de Bárbara Neves, a decretação de um estado de exceção pode ampliar ainda mais a tensão social na Bolívia. Segundo a especialista, embora a medida seja apresentada pelo governo como uma tentativa de restabelecer a ordem, ela também concentra mais poder nas mãos do Executivo e pode ser interpretada por parte da população como uma resposta autoritária aos protestos.
Paz está tentando mostrar a disposição do governo ao diálogo. Nesta segunda-feira, o presidente anunciou a redução de 50% em seu salário e no de seus ministros, convocou o Conselho Econômico e Social para uma primeira sessão em La Paz para discutir novas medidas econômicas e se reuniu com cerca de 40 organizações sociais do Norte do departamento de La Paz.
“Com base no diálogo, avançamos em uma agenda de trabalho. Não podemos seguir nos olhando pela cor da pele, pelo sobrenome ou pela região de onde somos”, afirmou o presidente após o encontro. Apesar dos esforços, organizações ligadas a Evo anunciaram que vão manter os bloqueios contra a capital boliviana.
Para McFields, a disposição do governo Paz ao diálogo não será suficiente enquanto Morales permanecer livre na Bolívia.
“Rodrigo Paz tem que ser firme. A esquerda radical da Bolívia não entende de diálogos”, escreveu o analista.


