Brasil já sofre com informalidade e baixo crescimento; ignorar isso por slogans políticos põe em risco renda e emprego de milhões. (Foto: wal_172619/Pixabay)
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O governador de Tarcísio de Freitas decidiu entrar, esta semana, em um dos debates mais sensíveis do país: o fim da escala 6×1. E fez isso com uma frase que rapidamente ganhou repercussão por destoar do clima emocional que domina a discussão. “Não pode enganar o trabalhador”, afirmou, ao comentar propostas de redução da jornada semanal.
A declaração, feita durante a APAS Show, principal evento do setor supermercadista brasileiro, expôs um problema frequente no debate público nacional: a conversão de temas econômicos complexos em slogans eleitorais simplificados. Segundo Tarcísio, não basta defender mudanças trabalhistas apelando apenas para o discurso da qualidade de vida, sem discutir os efeitos reais sobre empresas, empregos, salários e informalidade.
O alerta incomodou, porque o fim da escala 6×1 se tornou uma pauta valiosa do ponto de vista eleitoral. A imagem do trabalhador exausto, preso a jornadas desgastantes e sem tempo para viver, tem enorme força simbólica. É fácil de comunicar, altamente popular e difícil de questionar publicamente sem correr o risco de ser imediatamente rotulado como “anti-trabalhador”.
E é exatamente aí que mora o perigo.
Quando reformas estruturais são conduzidas pela lógica eleitoral, o debate técnico desaparece. O governo federal percebeu o potencial político da pauta neste momento de pré-campanha, porque ela mobiliza trabalhadores urbanos, jovens empregados no setor de serviços e sindicatos.
O fim da escala 6×1 virou um símbolo moral. Quem apoia está “do lado do trabalhador”. Quem questiona custos, impactos ou a velocidade da implementação é automaticamente tratado como defensor de empresários.
Reformas trabalhistas sérias exigem estudos técnicos, planejamento gradual, análise setorial e avaliação honesta dos efeitos colaterais.
Nada disso vem acontecendo de forma consistente. Qualquer ponderação virou motivo para demonização pública. Se alguém alerta para aumento da informalidade, é acusado de alarmismo. Se menciona o impacto sobre pequenos negócios, é tratado como porta-voz do empresariado. Se questiona a tramitação acelerada, vira inimigo do trabalhador.
O Brasil já conhece bem essa dinâmica. A própria reforma tributária foi aprovada sob enorme pressão política, com forte discurso emocional sobre “modernização” e “simplificação”, enquanto especialistas apresentavam diversas dúvidas. Prevaleceu a lógica do “precisa aprovar logo!”. Agora, algo semelhante ocorre no debate trabalhista.
O país já convive com enorme informalidade, baixa produtividade, excesso de encargos e baixo crescimento econômico. Ignorar isso em nome de slogans politicamente atraentes é brincar com a renda e o emprego de milhões de pessoas
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O problema central é que o Brasil não é uma economia rica, altamente produtiva e preparada para absorver aumentos bruscos de custo trabalhista sem efeitos colaterais relevantes. O país convive há décadas com baixa produtividade, crescimento econômico fraco, elevada carga tributária e enorme informalidade. Ignorar esse cenário em nome de slogans politicamente atraentes pode produzir consequências graves para milhões de trabalhadores.
Na teoria, a proposta é sedutora. Menos dias de trabalho significam mais descanso, mais convivência familiar e melhor qualidade de vida. Pouca gente discorda. A questão nunca esteve na intenção da proposta, mas em sua execução prática.
Setores como supermercados, farmácias, restaurantes, bares, hotelaria e varejo dependem de funcionamento contínuo. Se a escala 6×1 for desmontada de maneira abrupta, empresas terão, basicamente, três caminhos: contratar mais funcionários, reduzir horários de funcionamento ou cortar custos em outras áreas.
Grandes empresas talvez consigam absorver parte do impacto operacional. Mas pequenos negócios frequentemente trabalham com margens apertadas e baixa capacidade de adaptação. Quando a conta deixa de fechar, a reação costuma seguir um roteiro conhecido: menos contratação formal, mais informalidade, avanço da pejotização, substituição por automação e redução de renda.
Muitos trabalhadores já dependem de horas extras e jornadas ampliadas para complementar salários insuficientes. É nesse contexto que surge o alerta levantado por Tarcísio — e que muitos preferem ignorar: existe o risco de o fim da escala 6×1 produzir, na prática, algo próximo de uma “escala 7×0”.
O trabalhador ganha um dia livre no papel, mas precisa gastar esse tempo dirigindo por aplicativo, fazendo entregas, vendendo produtos online ou buscando algum tipo de renda extra para compensar perdas financeiras. O descanso vira segundo emprego.
Isso não acontece porque empresários são perversos. Acontece porque a realidade econômica brasileira é extremamente dura com quem ganha menos. Qualidade de vida depende também de renda. Tempo livre sem estabilidade financeira pode se transformar apenas em tempo disponível para lutar pela sobrevivência de outras maneiras.
Países desenvolvidos reduziram jornadas ao longo de décadas, sustentados por aumentos consistentes de produtividade, inovação tecnológica e crescimento econômico. O Brasil quer fazer o movimento inverso: aprovar primeiro a redução por pressão política e torcer, depois, para que a economia consiga absorver os impactos.
Mas torcida não substitui planejamento.
É fácil transformar o “fim da escala desumana” em peça de marketing eleitoral. Difícil é lidar com os efeitos concretos. Porque, depois das eleições, quem continuará convivendo com desemprego, informalidade ou perda de renda não serão marqueteiros, dirigentes partidários ou políticos em palanque. Será, mais uma vez, o trabalhador.
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