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Terrorismo, crime organizado e poder: o Brasil diante da nova estratégia contraterrorista americana

A nova Estratégia Contraterrorista (USCT 2026), lançada pelo governo americano em 6 de maio, na véspera da reunião entre o presidente Lula e Donald Trump em Washington, recebeu atenção quase inexistente no Brasil. Enquanto a agenda política e midiática brasileira se concentrava quase exclusivamente na coreografia protocolar do encontro presidencial, passou praticamente despercebido um documento muito mais relevante para o futuro estratégico do hemisfério e do próprio Brasil.

O episódio não apenas eclipsou a importância do tema no debate público nacional, mas expôs, de forma particularmente aguda, a miopia intelectual, estratégica e midiática que caracteriza a elite política brasileira diante das profundas transformações da ordem internacional.

Em qualquer potência média minimamente consciente de seus interesses nacionais, um documento diretamente conectado à National Security Strategy (NSS) 2026 e à National Defense Strategy (NDS) 2026 teria provocado intenso debate político, militar, acadêmico e diplomático. Afinal, trata-se da formalização de uma mudança profunda na maneira como os EUA enxergam poder, soberania, ameaça e estabilidade hemisférica. No Brasil, porém, o tema permaneceu praticamente invisível, como se dissesse respeito apenas à política doméstica americana. Não diz.

A nova USCT constitui mais um capítulo da grande reorientação estratégica americana já explicitada pela NSS e pela NDS: menos universalismo liberal, menos guerras ideológicas de transformação global e mais foco na proteção direta do território americano, da base industrial nacional e do Hemisfério Ocidental. O contraterrorismo deixa de ser concebido como cruzada civilizacional voltada ao Oriente Médio e passa a ser integrado a uma lógica mais ampla de competição geopolítica, defesa hemisférica, segurança de fronteiras, controle territorial e enfrentamento de ameaças híbridas transnacionais.

O ponto central, e talvez menos compreendido no Brasil, é que Washington passou a enxergar organizações criminosas transnacionais não apenas como problema de segurança pública, mas como ameaças estratégicas capazes de corroer soberania, estabilidade regional e segurança nacional americana. Não se trata apenas de semântica jurídica ou retórica diplomática, mas de uma redefinição conceitual profunda sobre a natureza contemporânea do poder coercitivo não estatal.

Durante décadas, o terrorismo foi interpretado sobretudo sob a ótica ideológica ou religiosa herdada do paradigma pós-11 de Setembro. A nova estratégia americana opera sob outra lógica e a partir de um diagnóstico duro, porém factual: cartéis, facções criminosas, redes de narcotráfico, milícias transnacionais e organizações híbridas já não se organizam apenas como estruturas criminais tradicionais voltadas ao lucro. Elas exercem controle territorial, corroem instituições, infiltram sistemas políticos, controlam fluxos econômicos, intimidam populações, desafiam monopólios estatais da força e estabelecem conexões internacionais com atores hostis aos interesses americanos. Em determinados contextos, tornam-se verdadeiros proto-atores geopolíticos.

Na prática, as fronteiras conceituais entre terrorismo, insurgência, narcotráfico, guerra irregular e crime organizado tornam-se progressivamente fluidas. A própria estratégia americana reconhece explicitamente a convergência entre ameaças estatais e não estatais, entre crime transnacional, terrorismo, guerra híbrida e degradação institucional doméstica.

Washington parece partir progressivamente do princípio de que determinados Estados latino-americanos já não possuem, isoladamente, plena capacidade de controlar integralmente seus territórios, cadeias ilícitas e estruturas coercitivas internas

O que emerge é uma concepção muito mais sofisticada de segurança hemisférica. Organizações criminosas passam a ser vistas como atores coercitivos híbridos, capazes de operar simultaneamente como redes econômicas ilícitas, estruturas paramilitares, sistemas de inteligência informal e mecanismos de governança paralela.

Autores contemporâneos da área de segurança internacional já descrevem esse fenômeno como “criminal insurgency” (“insurgência criminosa”), “networked coercive actors” (“atores coercitivos com conexões”) ou “hybrid threat ecosystems” (“ecossistemas de ameaça híbrida”). A lógica é simples: quando grupos criminosos passam a controlar territórios, impor normas, desafiar o monopólio estatal da força, infiltrar instituições e operar cadeias transnacionais sofisticadas, deixam de representar apenas problema criminal e passam a constituir ameaça estratégica. É exatamente nesse contexto que ganha força, em Washington, a discussão sobre classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras.

No Brasil, grande parte da reação ao tema permanece intelectualmente superficial e politicamente enviesada. Muitos analistas e atores políticos descartam imediatamente essa possibilidade alegando que PCC e CV não possuem motivação ideológica explícita. Esse argumento, contudo, parte de uma concepção ultrapassada de terrorismo e ignora a transformação conceitual em curso.

Para a nova doutrina americana, o foco desloca-se menos da motivação ideológica formal e mais da capacidade objetiva de produzir coerção sistemática, terror social, captura territorial e desestabilização institucional em escala transnacional. Ou seja, o ponto decisivo não é apenas “por que” esses grupos atuam, mas “o que” efetivamente fazem e quais efeitos estratégicos produzem, o que se alinha às políticas antiterroristas mais modernas em todo o mundo. Menos no Brasil, claro.

E não há como negar que os efeitos dessa visão deturpada são cada vez mais evidentes. O PCC e o Comando Vermelho já não operam como facções criminais convencionais. Estruturaram cadeias logísticas transnacionais, controlam corredores continentais de cocaína, infiltram sistemas financeiros, aparelham sistemas políticos, utilizam armamento militar, expandem presença sobre portos e fronteiras e exercem crescente influência sobre economias lícitas e ilícitas na Amazônia, no Paraguai, na Bolívia e em áreas estratégicas do Atlântico Sul.

Em diversas regiões urbanas brasileiras, essas organizações impõem normas, monopolizam coercitivamente territórios, regulam mercados clandestinos, arbitram conflitos e controlam fluxos econômicos locais. Não se trata mais apenas de criminalidade, mas da manutenção da prerrogativa estatal de empregar seus recursos de poder para preservar a ordem, aplicar as leis e garantir a soberania – na clássica concepção de Max Weber –, a qual vem sendo gradualmente erodida.

O problema brasileiro, sob essa ótica, deixa de ser apenas policial. Torna-se geopolítico. E isso ajuda a explicar por que o Brasil passou a ser observado com crescente preocupação estratégica

A percepção americana é que organizações dessa natureza já produzem efeitos estratégicos comparáveis aos de movimentos insurgentes clássicos, não representando apenas problema policial doméstico brasileiro, mas fator crescente de instabilidade hemisférica. Nesse contexto, a analogia com a Colômbia dos anos 1990 é inevitável, não porque PCC e CV sejam idênticos às Farc, mas porque narcotráfico, controle territorial, fragilidade institucional e violência organizada voltam a convergir como problema hemisférico de segurança.

É precisamente aqui que a conexão entre a nova estratégia contraterrorista, a NSS e a NDS se torna determinante. A NSS 2026 redefine explicitamente o Hemisfério Ocidental como espaço prioritário de interesse vital dos Estados Unidos. Já a NDS operacionaliza essa visão ao integrar narcotráfico, crime organizado, segurança marítima, defesa de fronteiras, infraestrutura crítica, cibersegurança e dissuasão regional dentro de um mesmo quadro estratégico.

O pressuposto implícito é inequívoco: fragilidade institucional no entorno hemisférico deixou de ser mero problema doméstico e passou a ser variável direta de segurança nacional norte-americana. Essa talvez seja a premissa oculta mais importante, e menos discutida, de todo o novo documento americano. Washington parece partir progressivamente do princípio de que determinados Estados latino-americanos já não possuem, isoladamente, plena capacidade de controlar integralmente seus territórios, cadeias ilícitas e estruturas coercitivas internas.

O problema brasileiro, sob essa ótica, deixa de ser apenas policial. Torna-se geopolítico. E isso ajuda a explicar por que o Brasil passou a ser observado com crescente preocupação estratégica. O problema não é apenas o avanço material das facções, mas a percepção de insuficiência estrutural do Estado brasileiro para enfrentá-las, ou seja, não apenas a escala das atividades criminosas se avoluma, mas isso ocorre simultaneamente à deterioração da capacidade estatal de resposta.

Nessa percepção, falta integração entre inteligência, defesa, polícia, sistema financeiro, controle de fronteiras e coordenação interestatal. A legislação permanece fragmentada. O sistema prisional opera como vetor de expansão criminosa. As fronteiras amazônicas permanecem altamente permeáveis. O Atlântico Sul segue subprotegido. A coordenação regional sul-americana em segurança é praticamente inexistente.

Sob a ótica americana, isso produz um cenário potencialmente explosivo, com uma potência regional continental, detentora de vastos recursos naturais, posição geográfica central e importância estratégica crescente convivendo com erosão progressiva de capacidades estatais coercitivas.

O Itamaraty continua operando sob pressupostos intelectuais profundamente anacrônicos, como se segurança pública, defesa nacional, desenvolvimento econômico, infraestrutura crítica e política externa fossem compartimentos estanques. Não são

Há ainda outra dimensão raramente discutida publicamente no Brasil, que é a intersecção entre criminalidade organizada, competição geopolítica e geoeconomia. A NSS e a NDS deixam claro que Washington passou a enxergar infraestrutura crítica, fluxos financeiros, telecomunicações, energia, portos, minerais estratégicos, rotas marítimas e cadeias logísticas como elementos inseparáveis da competição sistêmica global entre grandes potências. Em um ambiente assim, organizações criminosas deixam de representar meras ameaças à ordem pública e passam a integrar o cálculo geopolítico mais amplo sobre vulnerabilidades hemisféricas.

As consequências econômicas potenciais disso não são desprezíveis. Em um cenário de ausência de cooperação bilateral, a eventual classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras poderia produzir ampliação de sanções financeiras; maior escrutínio bancário internacional; restrições operacionais; aumento de custos de compliance; pressões sobre sistemas portuários; dificuldades de financiamento externo; encarecimento de seguros marítimos; aumento do risco-país; e ampliação da presença operacional americana no entorno regional.

Em outras palavras, segurança pública, geopolítica e geoeconomia tornaram-se inseparáveis. E é exatamente nesse ponto que o contraste com o Brasil assume contornos assustadores. Enquanto Washington reorganiza sua arquitetura estratégica em torno de poder nacional integrado, articulando defesa, economia, indústria, tecnologia, infraestrutura, segurança interna e política externa, o governo Lula permanece intelectualmente aprisionado em categorias mentais típicas dos anos 1990.

Verdade seja dita, o problema não começou com Lula. Entretanto, não apenas o lulopetismo representa, sobretudo, a radicalização de uma deficiência estratégica histórica brasileira, consistente na incapacidade estrutural de formular uma verdadeira grande estratégia nacional, mas também o atual governo elevou essa limitação a um novo patamar de improvisação, confusão conceitual e voluntarismo ideológico.

A política externa lulopetista confunde projeção internacional com ativismo retórico, soberania com discurso protocolar e autonomia estratégica com ambiguidade oportunista. Trata fóruns multilaterais esvaziados como se ainda fossem centros organizadores da ordem internacional, enquanto o sistema global retorna abertamente à lógica clássica da competição de poder.

O Itamaraty continua operando sob pressupostos intelectuais profundamente anacrônicos, como se segurança pública, defesa nacional, desenvolvimento econômico, infraestrutura crítica e política externa fossem compartimentos estanques. Não são. Nunca foram.

Organizações como o PCC e o Comando Vermelho, assim como os ecossistemas híbridos que orbitam ao seu redor, não constituem mero problema de segurança pública, mas ameaça estratégica de primeira ordem

O mundo estratégico contemporâneo opera exatamente na direção oposta, com integração crescente entre economia, tecnologia, segurança, defesa e controle territorial. Washington compreendeu isso. Pequim compreendeu isso. Moscou compreendeu isso. O Brasil, não. O país não apenas enfrenta vulnerabilidades crescentes; ele sequer parece compreender plenamente a natureza dessas vulnerabilidades. O resultado é um país cada vez mais vulnerável exatamente nas áreas que a nova estratégia americana considera prioritárias.

É justamente nesse vácuo, doutrinário antes que operacional, que a política externa de um futuro governo conservador de direita encontrará a oportunidade histórica de inscrever, sem rodeios e sem desculpas adicionais, uma verdadeira inflexão no enfrentamento ao narcoterrorismo internacional. Trata-se de assumir, com a clareza que faltou ao Brasil por décadas, que organizações como o PCC e o Comando Vermelho, assim como os ecossistemas híbridos que orbitam ao seu redor, não constituem mero problema de segurança pública, mas ameaça estratégica de primeira ordem aos interesses vitais nacionais.

Nesse sentido, a designação formal dessas estruturas como organizações terroristas, no plano doméstico e internacional, fornecerá a base jurídica indispensável a uma diplomacia coercitiva inteligente, articulada com defesa, inteligência, finanças e Justiça, sob coordenação política unificada da Presidência da República. O Itamaraty deixará de operar como repartição de protocolo e passará a funcionar como vetor ativo dessa nova arquitetura de poder integrado.

No plano regional, o futuro governo se veria legitimado a liderar a construção de um sistema sul-americano de segurança coletiva contra o narcoterrorismo, capaz de fazer aquilo que Unasul e Celac jamais sequer ensaiaram. Isso implicará três frentes operacionais simultâneas. Primeiro, a constituição de uma Iniciativa Sul-Americana de Combate ao Narcoterrorismo (Insac), articulando Brasil, Argentina, Paraguai, Equador, Peru, Colômbia, Uruguai e, na hipótese de cooperação possível, Bolívia, com mecanismo permanente de compartilhamento de inteligência, força-tarefa marítima integrada para o Atlântico Sul e arquitetura financeira regional de bloqueio de ativos ilícitos.

Segundo, uma diplomacia ativa de fronteiras, que converta postos consulares na faixa amazônica e no arco platino em verdadeiras antenas operacionais, integradas à Polícia Federal, às Forças Armadas e aos serviços de inteligência aliados. Terceiro, o tratamento da Venezuela como caso prioritário, haja vista a simbiose entre organizações narcoterroristas e as instituições bolivarianas operar, na prática, como retaguarda logística do narcotráfico continental, exigindo postura inequívoca de não reconhecimento e de pressão coordenada.

No plano hemisférico, a integração à iniciativa “Escudo das Américas” poderia ser conduzida sem mimetismo nem subserviência, mas com a clareza histórica de que o Brasil, como potência geográfica do Atlântico Sul e do entorno amazônico, é interlocutor indispensável, não satélite. Caberá a esse futuro governo brasileiro propor, e não apenas aderir, oferecendo aos Estados Unidos plataforma de cooperação naval no Atlântico Sul, base jurídica para designação coordenada de organizações terroristas estrangeiras, intercâmbio sistemático de inteligência financeira nos moldes de um Five Eyes adaptado à realidade hemisférica e participação operacional em exercícios conjuntos de interdição.

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A Marinha do Brasil, historicamente vocacionada à Amazônia Azul, reencontraria nesse arranjo missão estratégica renovada, vinculada não apenas à proteção das águas interiores, mas à proteção das rotas marítimas do Atlântico Sul, à interdição de fluxos ilícitos transoceânicos, à segurança de infraestruturas críticas offshore e à consolidação do Brasil como potência naval regional capaz de operar em coordenação com parceiros hemisféricos sem abdicar de autonomia decisória.

O Exército Brasileiro, por sua vez, recuperaria centralidade na defesa efetiva das fronteiras terrestres amazônicas e platinas, hoje crescentemente permeáveis ao narcotráfico, ao contrabando de armas, à mineração ilegal e à atuação de redes criminosas transnacionais. Mais do que simples presença territorial simbólica, isso exigiria reconstrução doutrinária orientada à guerra irregular, ao controle de vastos espaços desassistidos, à integração entre inteligência, operações especiais, cibernética, monitoramento de fronteiras e capacidade de resposta rápida em ambientes híbridos, em cenário no qual a Amazônia reassume sua dimensão clássica de espaço estratégico.

Já a Força Aérea Brasileira assumiria papel decisivo na reconstrução da capacidade nacional de vigilância, mobilidade estratégica e superioridade informacional sobre o território continental. O controle efetivo do espaço aéreo amazônico, a interdição de aeronaves vinculadas ao narcotráfico, a integração de sistemas ISR, satélites, radares, guerra eletrônica e plataformas remotamente pilotadas passariam a constituir elementos centrais de uma arquitetura nacional de dissuasão e soberania. Em um ambiente no qual logística, velocidade de resposta e domínio da informação tornam-se fatores críticos de poder, a FAB reassumiria função estruturante na integração territorial e na projeção estratégica brasileira.

Em paralelo, será preciso desativar diplomaticamente as redes de cumplicidade institucional erguidas pelo lulopetismo com regimes autoritários do continente, que funcionam, na prática, como zonas francas para o crime transnacional. A grande estratégia subjacente é simples de enunciar, mas menos simples de executar, tendo em vista os imensos danos à nação impostos pela destrambelhada e perniciosa diplomacia lulopetista: reconstituir o Brasil como potência efetiva no seu próprio entorno, capaz de exercer soberania material, e não apenas declamatória, e de resgatar sua capacidade e seu espírito de liderança, pragmatismo, proatividade e prestígio.

Em um sistema internacional que voltou a funcionar segundo hierarquias explícitas de poder, controle territorial e coerção estratégica, soberania deixou de ser apenas conceito jurídico. Tornou-se variável material dependente de capacidade coercitiva, resiliência institucional, autonomia tecnológica e controle efetivo do território.

Países que perdem progressivamente essas capacidades acabam descobrindo, tarde demais, que soberania raramente desaparece de forma abrupta. Ela se dissolve lentamente, até que outros passem, gradualmente, a administrar suas vulnerabilidades por eles.

Marcos Degaut, ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa e ex-secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior do Brasil (Camex), é doutor em Segurança Internacional.

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