Segundo principal parceiro comercial do Brasil na América do Sul, atrás apenas da Argentina, o Chile quer ser mais do que um fornecedor de salmão e vinho para o mercado brasileiro. A intenção do país andino é reforçar a complementariedade produtiva entre as duas nações para reduzir a dependência das exportações de commodities minerais e agropecuárias destinadas ao Hemisfério Norte.
A estratégia inclui o esforço de alcançar o interior do Brasil e regiões mais distantes, como o Nordeste, além de introduzir novos produtos, como o pisco, destilado produzido a partir da uva. Todos os anos, cerca de 800 mil brasileiros visitam o Chile e entram em contato com a bebida.
As cerejas chilenas também estão entre as apostas. Devido à proximidade geográfica entre os dois países, as frutas conseguem chegar frescas ao mercado brasileiro em poucos dias.
“Com certeza temos hoje o melhor momento do relacionamento comercial entre Chile e Brasil”, afirma Hugo Corales, diretor comercial do ProChile, instituição vinculada ao Ministério das Relações Exteriores chileno responsável pela promoção de bens e serviços do país.
Nesta semana, uma comitiva formada por representantes do governo e de 22 empresas exportadoras chilenas está em São Paulo para participar da APAS Show, considerada a maior feira supermercadista do mundo.
No evento, autoridades e empresários apresentam ao varejo brasileiro produtos com identidade regional, como frutas frescas e secas, azeite de oliva, queijos, além de vinhos, cervejas e pisco.
O Brasil é o principal destino das exportações chilenas na América Latina. No ranking global, aparece atrás apenas de China, Estados Unidos, Japão e Índia. Entre janeiro e abril de 2026, as vendas chilenas ao mercado brasileiro alcançaram US$ 897 milhões, o equivalente a 4,72% do total exportado pelo país, segundo dados do ProChile.
Salmão e truta lideram o ranking, com US$ 359 milhões embarcados — 40% do total — e crescimento de 3,6% nos quatro primeiros meses do ano em relação ao mesmo período de 2025. “Hoje, praticamente 100% do salmão consumido no Brasil é chileno”, diz Corales.
Na sequência aparecem os vinhos, que registraram US$ 64 milhões em vendas ao Brasil no período, alta de 17,6%. Atualmente, 44% dos vinhos importados vendidos no mercado brasileiro têm origem chilena.
Com crescimento anual próximo de 10% nas exportações gerais de alimentos, o foco do governo chileno passou a ser a diversificação.
Segundo Corales, a ideia é aproveitar o crescimento do turismo e a expansão do varejo regional para ampliar a distribuição dos produtos chilenos no Brasil.
“O desafio é comercial e de promoção. Nosso objetivo é promover uma oferta mais premium e atingir outros estados do país, além de Rio e São Paulo, fazendo a conectividade com redes de supermercados regionais’, diz.
A meta é inserir queijos artesanais, azeites e destilados nas redes hoteleiras e supermercadistas do Nordeste, aproveitando a ascensão de uma classe média mais disposta a consumir produtos de gastronomia refinada.
Agronegócio chileno não compete com brasileiro, diz diretor do ProChile
Corales explica que o avanço chileno no mercado brasileiro não representa ameaça aos produtores nacionais, uma vez que as balanças comerciais dos dois países operam de forma complementar.
Enquanto o agronegócio brasileiro atua em larga escala na exportação de commodities como milho, suco de laranja e carne bovina, a vocação chilena está concentrada em nichos de maior valor agregado e em produtos de clima temperado.
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Isso se reflete no avanço das exportações de frutas frescas e secas. Entre janeiro e abril, o Chile exportou mais de US$ 56 milhões em itens da categoria para o Brasil. O destaque ficou para as cerejas, cujos embarques cresceram 47,8%, somando US$ 7 milhões.
A diferença climática e os custos logísticos ajudam a explicar o fenômeno, mas a aceitação do consumidor brasileiro também contribui para a tendência.
“A fruta é muito apreciada por seus atributos, como textura, doçura e tamanho. Ela tem sido muito bem recebida pelos brasileiros, consumidores mais acostumados a outros tipos de frutas tropicais, com características diferentes”, analisa o diretor do ProChile.
Também houve crescimento relevante nas exportações de kiwis frescos, que alcançaram US$ 7 milhões (+26,4%), e de tomates processados — como conservas, purês e sucos —, com US$ 5 milhões (+125,3%).
A tendência de consumo voltada à saudabilidade e às chamadas superfoods impulsionou ainda as vendas chilenas de nozes (US$ 3 milhões, alta de 89,5%), amêndoas (US$ 1 milhão, crescimento de 426,4%) e avelãs (US$ 2 milhões, avanço de 957,1%). Já as exportações de azeite de oliva somaram US$ 9 milhões, aumento de 42,5%.
No sentido oposto, o Chile consolidou-se como o terceiro principal destino global da carne bovina brasileira, atrás apenas de China e Estados Unidos.
Em um momento em que a proteína brasileira enfrenta cotas no mercado chinês e ameaças de restrições por parte da União Europeia, a manutenção de um fluxo comercial garantido para o país sul-americano — respaldado por um acordo de livre comércio atualizado em 2022 — serve como um alento para a pecuária brasileira.
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Corredor bioceânico deve garantir sustentabilidade do comércio entre Brasil e Chile
A sustentação desse novo portfólio comercial no longo prazo depende de uma transformação logística em fase de implementação. Atualmente, as exportações se concentram no transporte marítimo e no frete aéreo, modalidades de alto custo e viáveis sobretudo para produtos de maior valor agregado.
O escoamento deverá ser facilitado pelo chamado Corredor Rodoviário Bioceânico de Capricórnio, malha viária desenhada para conectar o estado de Mato Grosso do Sul aos portos do norte do Chile, como Iquique, Antofagasta e Mejillones, atravessando o Paraguai e a província argentina de Jujuy.
Do ponto de vista burocrático, a logística ganhou impulso no fim do ano passado, quando o governo federal ratificou a Convenção de Transportes Internacionais Rodoviários (TIR).
A adesão funciona como uma espécie de “passaporte universal de carga”: um caminhão inspecionado e lacrado na origem pode cruzar as aduanas de Argentina, Paraguai e Brasil sem necessidade de aberturas sucessivas ou fiscalizações fitossanitárias repetidas nas fronteiras.
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