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Quem foi Milton Santos, autor de esquerda onipresente nas universidades brasileiras

Talvez você não saiba quem foi Milton Santos. Mas seus filhos e netos provavelmente o conhecem. O geógrafo baiano, que faria 100 anos neste mês de maio, é praticamente uma unanimidade na educação brasileira atual.

Um levantamento recente da Gazeta do Povo, baseado em 3 mil teses acadêmicas, apontou que Santos é um dos 20 autores mais citados nas universidades do país. Ele aparece na frente de intelectuais como o alemão Max Weber, o suíço Jean Piaget, o brasileiro Gilberto Freyre e até da americana Judith Butler — referência da turma feminista e identitária.

As ideias de Milton Santos também são presença garantida nas questões e redações do Enem. Qualquer cursinho preparatório tem uma aula baseada nele sobre como a globalização é a culpada por quase tudo que deu errado no planeta.

A economia, no entanto, é mais complexa que isso. O processo fecha postos de trabalho em alguns setores e abre em outros, desloca trabalhadores para novas áreas e reorganiza mercados inteiros. Apresentar só metade da história como correta não é ensinar, e sim doutrinar.

Escola do MST

O trabalho de Santos foi reconhecido com o maior prêmio da Geografia mundial, o Vautrin Lud, uma espécie de Nobel da área. Seus mais de 40 livros formaram gerações de professores, geógrafos e cientistas sociais.

Mas a obra do professor também influencia movimentos sociais, legendas de esquerda e qualquer lugar onde a crítica ao capitalismo explica tudo. O MST, por exemplo, tem uma escola com o nome dele no Paraná. E, não por acaso, o PT usa suas ideias como fundamento teórico na Fundação Perseu Abramo, a instituição de formação política do partido.

Diante desse histórico, o centenário de Milton Santos é uma boa oportunidade para fazer o que nem sempre é visto com bons olhos por seus admiradores: perguntar onde ele errou e acertou.

Teoria pronta

Apesar de publicar seus estudos desde 1948, Santos só virou uma febre na academia a partir do final da década de 80. A conquista do Vautrin Lud, em 1994, teve um grande impacto nas universidades e na imprensa. Mas foi a globalização que o apresentou para um público maior.

Nos anos 90, o tema tomou conta de todas as mídias e salas de aula. Estava nas capas de revistas, programas de TV e já começava a ser “cobrado” nos vestibulares. Era o cenário perfeito para Milton Santos popularizar suas ideias. Porque ele já tinha a teoria pronta para explicar o que estava acontecendo.

Mais do que isso: o professor construiu uma narrativa com heróis e vilões bem definidos. E quem não gosta de uma história assim? O próprio autor confessou ter ambição de que seus conceitos aparecessem como “verdadeiros atores de um romance”.

Oprimidos e opressores

Na visão de Milton Santos, não existe neutralidade quando o assunto é Geografia. “Não dá para falar em nada sem falar de política”, ele repetia.

Para o professor, a disciplina funcionava como uma ferramenta de dominação e da expansão capitalista. E os geógrafos clássicos apenas ajudavam a esconder o papel das elites por trás da organização da sociedade.

É uma leitura sedutora. Principalmente para quem já vê o mundo como uma disputa permanente entre opressores e oprimidos. Foi essa interpretação que Santos levou para a discussão sobre a globalização.

Enquanto muita gente tentava entender a abertura de mercados, os avanços tecnológicos e as novas oportunidades, Milton Santos preferia se concentrar em exploração, exclusão e dependência.

“A força dos lentos”

O professor descreve três formas de entender o fenômeno global. A primeira é a “fábula”: o discurso bonito e idealizado que vende a ideia de um mundo integrado onde todos ganham.

Depois vem a “perversidade”, provavelmente a palavra favorita do professor. Aqui, o processo é marcado por desigualdade, desemprego, pobreza, doenças incuráveis, manipulação da informação e competitividade. Aliás, a competição é vista por ele como uma “guerra” que destrói a solidariedade.

Por fim, há o que Santos chama de “uma outra globalização”. É uma proposta de mudança vinda de baixo, dos países subdesenvolvidos e das populações marginalizadas, dotadas de criatividade e da “força dos lentos”.

“A riqueza dos não possuidores é a prontidão dos sentidos”, afirmou — numa defesa de que os pobres são mais autênticos por viverem fora da lógica do consumo e do poder econômico.

Com Jânio em Cuba

Nascido em Brotas de Macaúbas, Milton Santos era filho de professores e começou a dar aulas ainda na adolescência — período em que já se envolvia com a militância estudantil.

Ele se formou em Direito, porém nunca trabalhou na área. Optou pelo magistério e pela carreira na imprensa. Em meados dos anos 50, cursou um doutorado em Geografia na Universidade de Estrasburgo, na França, e voltou de lá para se tornar professor da Universidade Federal da Bahia.

Em 1960, Santos acompanhou Jânio Quadros, então candidato a presidente, em uma viagem para Cuba, como editor do jornal A Tarde. Em seus artigos, o acadêmico chamou a revolução de Fidel Castro de “moralizada e moralizadora” e defendeu os tribunais que julgavam e executavam pessoas sumariamente — justificando que eles evitavam linchamentos.

No ano seguinte, o professor foi convidado para ser subchefe da Casa Civil na Bahia, cargo onde ficou até o final do curtíssimo mandato presidencial de Jânio.

Novo totalitarismo

Em 1963, Milton Santos foi nomeado presidente da Comissão de Planejamento Econômico de seu estado pelo governador Lomanto Júnior, um político com perfil tradicional e imagem de conciliador. Mas essa passagem pela gestão pública também durou pouco.

Santos foi preso no ano seguinte, após o início do regime militar, acusado de “atentar contra a segurança nacional”. Além da proximidade com Jânio, pesou contra ele algumas posturas consideradas “subversivas” durante seu trabalho no governo baiano — entre elas a defesa de mais impostos sobre patrimônio e herança.

O professor foi exilado e acabou passando 13 anos no exterior, onde lecionou ou atuou como pesquisador em universidades da França, Canadá, EUA, Peru, Venezuela e Tanzânia. Em 1984, já de volta ao Brasil, ele finalmente se estabeleceu como docente da USP.

Por ironia do destino, Milton Santos chegou a escrever que “a universidade é um exemplo formidável desse novo totalitarismo”. Ele falava do ensino pautado pelo mercado. Mas a frase também vale para o que aconteceu com sua própria obra dentro de certos departamentos: virou um pensamento que não se discute, apenas se repete.

“Totalidade do diabo”

Milton Santos morreu em 2001, aos 75 anos. Mais de duas décadas depois, as periferias brasileiras tomaram um rumo que ele não gostaria de ver quando defendeu a volta de “uma utopia que pode ser científica”.

Em vez da solidariedade coletiva, cresceu o empreendedorismo individual. A resistência ao mercado deu espaço ao desejo de entrar nele. No lugar de uma nova consciência de esquerda, veio a virada conservadora que os seguidores da sua teoria ainda não conseguem entender muito bem.

Essa distância entre o que o autor pregava nos livros e a realidade atual trouxe à tona críticas ao seu trabalho. Pesquisadores como Luis Lopes Diniz Filho e Fernando Loch, da Universidade Federal do Paraná, dizem que Santos trocou os dados e a ciência por um discurso político, além de usar conceitos vagos demais.

Ou seja: ele pintava um cenário de globalização “malvada” sem apresentar números ou provas que sustentassem esse diagnóstico. Afinal, como refutar uma “verticalidade”? Medir a “psicosfera”? Ou demonstrar a quase mística “totalidade do diabo”?

Romantização da pobreza

O autor é acusado de fazer um silêncio estratégico sobre os progressos trazidos pelo liberalismo. Ele ignorou, por exemplo, que a abertura da economia nos anos 90 derrubou a inflação e melhorou a vida dos mais pobres em várias regiões do país.

Outro ponto polêmico é a romantização da pobreza. O professor via nos excluídos uma vocação quase natural para ajudar o próximo e renunciar às promessas do capitalismo. Ele esqueceu que o morador da periferia também quer ser patrão, competir e, principalmente, consumir.

Mas, para Santos, tudo isso é fruto da manipulação da “máquina de perversidades” chamada mercado.

Nova York, China, Mato Grosso

É justo reconhecer onde o geógrafo acertou. A descrição de como as grandes empresas redesenham as cidades e regiões a seu favor é uma das contribuições interessantes de seu trabalho.

Santos ainda percebeu cedo que a globalização dependia de uma infraestrutura tecnológica para ligar o mundo — sistemas digitais conectados e funcionando em tempo real. Se no passado cada canto do planeta tinha seus próprios métodos e equipamentos, hoje um banco em Nova York, uma fábrica na China e um produtor de soja no Mato Grosso trabalham praticamente com a mesma tecnologia.

O pesquisador não foi o único a enxergar esses fenômenos, mas ajudou a estimular o debate sobre eles no Brasil.

Escrita “poética”

Também não é difícil entender o apelo de Milton Santos além das universidades. Sua escrita é considerada “poética” e “emotiva” — bem diferente da linguagem da maioria dos acadêmicos.

Além disso, seus livros são um prato cheio para quem quer se indignar com as injustiças do mundo e ao mesmo tempo ainda ter alguma esperança num futuro melhor. Com o bônus de que, só de ter um exemplar na estante, o leitor “consciente” já se sente do lado certo da história.

Ainda há o fato de Santos ser negro, nordestino e perseguido pela ditadura, o que reforça sua imagem como símbolo moral para boa parte do público progressista.

Sempre com a razão

O problema, no fim das contas, é que as teses de Milton Santos não podem ser testadas. Se a globalização traz benefícios para os pobres, Santos diz que é ilusão. Se prejudica, confirma sua teoria.

De todo jeito, ele sempre tem razão. E, na ciência, isso é um sinal de alerta.

“A predominância da geografia crítica [corrente de influência marxista da qual Santos é um dos maiores nomes] traz consequências ruinosas para a pesquisa, por ser incompatível com a ausência de questionamento”, afirma o geógrafo Luis Lopes Diniz Filho, da UFPR.

Traduzindo: uma teoria que não pode estar errada vira uma crença.

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