A entrada do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa na corrida presidencial pelo Democracia Cristã (DC) abriu uma crise interna na legenda e trouxe de volta à cena política um personagem associado ao combate à corrupção. A troca de Aldo Rebelo por Barbosa não diminuiu, contudo, a dúvida sobre a viabilidade da aposta do DC na disputa.
O presidente nacional do partido, João Caldas, justificou a substituição de candidatos afirmando que a pré-candidatura de Rebelo não conseguiu avançar nas pesquisas nem ganhar tração política. Rebelo reagiu duramente, classificando a mudança como “afronta”, mantendo a pré-candidatura e sinalizando eventual judicialização da disputa pela legenda.
Analistas ouvidos pela Gazeta do Povo avaliam que Barbosa entra na corrida presidencial em condições mais frágeis do que nos ensaios anteriores. O cientista político Elton Gomes, da Universidade Federal do Piauí (UFPI), considera que o ex-ministro reaparece atrasado, muito após o momento político que poderia favorecer sua entrada na vida política, que ocorreu há mais de uma década. “Ele não tem musculatura partidária nem base social para sustentar a candidatura”, diz.
VEJA TAMBÉM:
Barbosa pode ficar isolado em razão das resistências de esquerda e direita
Para Gomes, Barbosa não conta com a confiança dos principais atores políticos, sobretudo os do Centrão, peça indispensável na engrenagem de governança do país. “O magistrado teria de negociar e fazer concessões incompatíveis com o seu perfil rígido, mostrado ao longo da trajetória no Judiciário. Assim, sua postulação parece guiada só por afirmação pessoal”.
Já Adriano Cerqueira, professor do Ibmec-BH, afirma que Barbosa perdeu espaço no imaginário popular após anos afastado da política institucional e de uma renovação do eleitorado. Na avaliação dele, o ex-juiz sofre resistência tanto da esquerda quanto da direita, agravada pelo seu perfil progressista, que foi assumido há anos e confirmado pelo apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições de 2022.
Relator do processo do mensalão no STF, Barbosa ganhou projeção nacional ao conduzir o julgamento que levou à prisão dirigentes históricos do PT e aliados. A atuação o transformou em símbolo de combate à corrupção e de moralização institucional, imagem que ainda sustenta sua notoriedade.
Magistrado tem histórico de recuos em ensaios de candidatura presidencial
Em 2018, Barbosa filiou-se ao PSB e o partido tentou consolidar sua candidatura presidencial como opção de centro à polarização nacional, mas o próprio ex-ministro desistiu da disputa antes do início formal da campanha, alegando desconforto com a vida política.
Em 2022, o nome do ex-presidente do STF voltou a circular como possível presidenciável em meio à polarização entre Jair Bolsonaro (PL) e Lula. Apesar de sondagens e conversas partidárias, Barbosa recuou novamente e acabou deixando o PSB, que posteriormente apoiou o petista na eleição presidencial, ocupando inclusive o posto de vice-presidente na sua chapa.
Após o primeiro turno de 2022, Barbosa declarou apoio a Lula contra Bolsonaro, afirmando que o então presidente representava ameaça às instituições. O gesto reforçou sua aproximação circunstancial com setores da esquerda, embora tenha mantido discurso de independência em relação às estruturas partidárias e feito críticas recentes a contradições do presidente.
Perfil de moralizador de Barbosa é insuficiente para superar a polarização
O DC aposta no histórico de Barbosa no STF e na imagem de independência construída durante o julgamento do mensalão para tentar ganhar espaço num cenário dominado pela polarização entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A legenda tenta reapresentar o ex-ministro como alternativa de perfil moralizador e de reconstrução da institucionalidade.
Nesse campo, Barbosa tende a disputar eleitorado semelhante ao buscado pelo ex-governador Romeu Zema (Novo-MG), associado ao discurso de rejeição à política tradicional. Ainda assim, o ex-ministro carrega resistências dos dois polos dominantes da disputa nacional: da esquerda, pelo Mensalão, e da direita, pelo alinhamento recente com Lula e pela autodefinição como homem de esquerda.
Outro fator apontado como obstáculo é o temperamento forte de Barbosa, que ficou conhecido por episódios públicos de impaciência e confrontos verbais durante a passagem pela Corte. Para analistas, a dificuldade de convivência política pode se transformar em problema numa campanha presidencial marcada por negociações permanentes e busca de alianças.
Carreira de sucesso no Judiciário esbarra na impaciência com política
Mineiro de Paracatu, Barbosa construiu carreira no Ministério Público Federal antes de chegar ao STF, onde atuou entre 2003 e 2014. Sua biografia é frequentemente apresentada por aliados como símbolo de ascensão social, formação acadêmica internacional e independência intelectual. Ainda assim, a ausência de experiência política mantém dúvidas sobre sua capacidade de adaptação ao ambiente partidário e eleitoral brasileiro.
Barbosa, caso se mantenha no páreo, precisa lidar com a realidade cotidiana das estruturas do sistema partidário. As legendas têm atuação quase sempre conduzida pelo planejamento de seus dirigentes, que são orientados pelos alvos eleitorais e composições políticas. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, chamou a candidatura do DC de “piada”.


