Jornalismo tem de ir atrás de todos os que têm relação com Daniel Vorcaro, sem poupar ninguém. (Foto: Imagem criada utilizando ChatGPT/Gazeta do Povo)
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Confesso que tomei um susto quando vi gente “de direita” cobrando de jornalistas de verdade um comportamento adotado há muitos anos pela imprensa que desistiu de ser imprensa. A ideia era calar sobre os contatos entre Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Cobrar o quê? Para quê? Deixa isso para lá. Era uma ideia mais ou menos como a lançada em 2020, em plena eleição para presidente dos Estados Unidos. Donald Trump tentava a reeleição contra Joe Biden, quando vazou a história do laptop de Hunter Biden, filho do adversário de Trump… Falcatruas à décima potência. E o que fez uma turma que incluía o “genial” Felipe Neto? Partiu para o mesmo “deixa isso para lá”, “estamos em plena campanha, e isso pode beneficiar o Trump”.
Não estou fazendo equivalência entre o bandido Hunter Biden e o senador Flávio Bolsonaro. Estou explicando apenas que um jornalista não pode enterrar uma pré-pauta, sem uma avaliação mínima, preocupado com as possíveis consequências do tema. Não é jornalista aquele que aposta numa história e engaveta outra com o intuito de prejudicar alguém – ou um grupo político – e beneficiar outro. Jornalista que se rende a isso, que tem uma causa, é refém de si mesmo e, inevitavelmente, se anula. Não dá para chamar de imprensa veículos movidos por interesses que não sejam os jornalísticos. E não me venham com essa história de “tornar o mundo melhor”, de agir como um educador, um tutor, um “consertador” do planeta, em todas as áreas, todas. Esse é um pensamento infantiloide, de alguém que não tem a menor ideia da importância de ser humilde. E a vaidade, como dizia o professor Olavo de Carvalho, é um erro de inteligência. Infelizmente, há alguns anos já, a arrogância e a prepotência tomaram conta do jornalismo.
A lista de pessoas com relações suspeitas com o ex-dono do Master é longa, mas jornalista que é jornalista deve cobrar de todos
Não tentem florear, inventar causas primeiras para o jornalismo. Os objetivos de um jornalista não deveriam variar: encontrar as histórias reais e em movimento mais importantes, mais relevantes e contá-las do melhor jeito possível, da forma mais clara, objetiva, direta e atraente. Se houver efeitos positivos, a partir da veiculação dos conteúdos, para uma comunidade, para um bairro, uma cidade, um estado, um país, para o mundo, ótimo, mas esse não deve ser o resultado buscado, apenas uma consequência natural de um trabalho bem feito, de uma boa escolha de pautas e do correto tratamento dado a elas.
Na época da Covid, reunido em “consórcio”, o jornalismo se matou. Era proibido questionar, era proibido debater, só havia um lado da história. A apuração equilibrada e profunda foi exterminada. E até hoje, de certa forma, não nos recuperamos. Jornalista que é jornalista não pode abrir mão da curiosidade, da desconfiança, em relação a tudo e a todos. Jornalista que é jornalista não lida com dúvidas, com lacunas. Há sempre perguntas que se impõem, necessárias, e elas devem ser endereçadas, seguindo, de novo, critérios jornalísticos. Não podem ser silenciadas para poupar alguém, ou entregues de modo cúmplice, complacente. Da mesma forma que não dá para usá-las carregadas de artimanha, de olho em algo que possa ser traduzido como combate a um inimigo.
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Falar em jornalismo investigativo é redundância, todo jornalismo é investigativo. Nosso dever será sempre buscar a verdade, trabalhar com fatos, apurar. Em qualquer situação, em relação a qualquer pessoa, grupo político, empresa, não importa. E é inadmissível um comportamento da imprensa como na época do caso da suspeita de “rachadinhas” na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. No total, 27 deputados tiveram movimentações suspeitas identificadas pelo Coaf. Em termos de volume, Flávio Bolsonaro era o 17.º na lista, com R$ 1,2 milhão. O primeiro era o então presidente da Alerj, André Ceciliano, do PT, com o montante de R$ 50 milhões. E o que fez a imprensa? Avançou como um chacal contra Flávio. Os outros não importavam…
O atual senador e pré-candidato a presidente pode, sim, ser perguntado sobre sua relação com Daniel Vorcaro. E isso deve ser entendido como jornalismo. Mas aqueles que correm apenas atrás dele, deixando de lado Alexandre de Moraes, Dona Vivi, Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Kassio Nunes Marques, Paulo Gonet, Andrei Rodrigues, Ricardo Lewandowski, Guido Mantega, Jaques Wagner, Jerônimo Rodrigues, Ibaneis Rocha, Ciro Nogueira, Hugo Motta, Davi Alcolumbre, Silvio Costa Filho, Aécio Neves, Antônio Rueda e o próprio Lula, esses não fazem jornalismo, com certeza. A lista de pessoas com relações suspeitas com o ex-dono do Master é longa, mas jornalista que é jornalista deve cobrar de todos, começando pelos já sabidamente mais enrolados.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos
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