Vorcaro expõe como “finanças verdes” e créditos de carbono podem virar terreno fértil para fraude, lobby e especulação. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)
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Dada a multiplicidade dos interesses e negócios escusos de Daniel Vorcaro, o encalacrado ex-dono da arapuca financeira conhecida como Banco Master, não surpreende que um dos seus tentáculos tenha se estendido aos créditos de carbono e à dita transição energética, campo das chamadas “finanças verdes”, que têm oferecido inúmeras oportunidades para ganhos fáceis embrulhados em ações para a “saúde” do planeta.
Ainda em janeiro, a Folha de S.Paulo revelou que o pai de Vorcaro, Henrique Moura Vorcaro, recém-detido pela Polícia Federal (PF), e sua irmã, Natália Bueno Vorcaro Zettel, casada com seu ex-sócio Fabiano Zettel, articularam um plano fraudulento para explorar créditos de carbono com valores hiperinflados por meio da Reag Investimentos, liquidada pelo Banco Central no ano passado, junto com o Master.
Segundo a reportagem da Folha (19/01/2026), pai e filha são sócios dos fundos de investimento controladores das empresas Global Carbon e Golden Green, que tiveram uma valorização astronômica e instantânea com créditos de carbono baseados em uma certa Fazenda Floresta Amazônica, em Apuí (AM), de 143.900 hectares (três vezes a área do município de Curitiba). Detalhe: a área pertence à União e está destinada a ações de reforma agrária.
Por meio da empresa Alliance Participações, Henrique e Natália compraram 80% dos direitos de negócios de carbono da propriedade, pagando, com pequenos percentuais da negociata, ao seu suposto dono, Marco Antônio de Melo, e ao intermediário do negócio, José Antônio Bittencourt.
Um relatório técnico elaborado pelo engenheiro florestal Iraê Amaral Guerrini, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), estimou o “estoque de carbono” da propriedade em 169 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2), usando um método nunca aplicado antes nesse mercado, já por si só bastante especulativo.
A questionável avaliação da massa de carbono usada para “precificar” os créditos correspondentes à área, como tem sido observado em vários outros casos, no Brasil e em outros países, coloca em questão não só a metodologia utilizada, como também a própria justificativa do mercado de créditos de carbono.
As operações pseudoambientais dos Vorcaro vieram à luz em 2025, com a Operação Carbono Oculto da PF, que apura a suspeita de lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC), usando os fundos da Reag.
Mas as investigações mostram que os tentáculos “verdes” da famiglia se estendem ao Congresso Nacional, atuando diretamente para influenciar a elaboração das leis referentes aos créditos de carbono e à transição energética, como mostra uma reportagem do jornal O Globo, de 10 de maio.
As suspeitas da PF apontam para uma emenda à Lei 15.042/2024, que instituiu o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE), segundo o qual empresas que emitem mais de 10 mil toneladas/ano de dióxido de carbono equivalente (CO2 eq) ficam obrigadas a seguir regras e metas de redução de suas emissões, podendo comprar créditos emitidos por empresas que fiquem abaixo do limite.
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A emenda, que resultou no artigo 56 da lei, teria sido apresentada pelo deputado federal Hugo Motta (Republicanos-PB), que ainda não era presidente da Câmara dos Deputados. Sem surpresa, ele nega, afirmando que a emenda foi “resultado de um acordo partidário”, mas, onde há fumaça, costuma haver fogo, em especial quando se trata de uma investigação tão sensível da PF.
Segundo a reportagem:
“A emenda apresentada por Motta, e que foi incorporada à versão final da lei, obriga entidades de previdência privada, sociedades de capitalização e resseguradoras a investir um percentual mínimo de suas reservas [0,5% – LC] em créditos de carbono ou em fundos ligados a esses ativos. Na prática, a medida criou um mercado cativo, beneficiando empresas que atuam no setor.
“Uma dessas empresas é a Golden Green Participações, criada para operar no mercado de carbono, e que, segundo a PF, tinha conexões com a teia de fundos do Banco Master. A Golden Green recebia recursos do fundo Jade, abastecido com aportes que tinham o banco de Vorcaro como origem. A movimentação de recursos por fundos é vista por investigadores como uma forma de dificultar a identificação dos cotistas dos fundos.
Além da Golden Green, outra empresa que atua no setor, a Global Carbon, possuía investimentos de fundos ligados à rede de Vorcaro. Esses fundos eram administrados pela Reag, que teve sua liquidação determinada pelo Banco Central por suspeita de fraude financeira.
“Após a sanção da lei, a emenda apresentada por Motta foi questionada judicialmente pela Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais, Previdência Privada e Vida, Saúde Suplementar e Capitalização (CNseg). Em ação no STF, a entidade pede a suspensão imediata do dispositivo e prevê que a obrigação imposta a empresas do setor injetará até R$ 9 bilhões ao ano, valor maior do que o mercado de carbono conseguiria absorver.”
O outro projeto de lei citado pela PF refere-se ao Programa de Aceleração da Transição Energética (Paten), que prevê a criação de um Fundo Verde administrado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), para financiar iniciativas ligadas à transição ecológica. Ainda de acordo com a reportagem:
“Na prática, o fundo permitirá que as empresas usem créditos que têm a receber da União — valores muitas vezes parados em disputas ou compensações tributárias — como uma espécie de garantia para obterem linhas de financiamento em instituições financeiras, desde que os projetos estejam ligados a agendas e iniciativas ambientais.”
Não é preciso ser especialista financeiro para perceber o vasto potencial de negociatas oferecido por tais dispositivos.
As “finanças verdes”, como demonstra qualquer análise perfunctória do assunto, têm muito pouco a ver com os problemas reais sobre o meio ambiente e o desenvolvimento, e mais com esquemas para a conversão dos biomas mundiais em “colaterais” para instrumentos financeiros especulativos, com frequência fraudulentos, como as jogadas de Daniel Vorcaro e seus cúmplices.
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