Em sociedades minimamente saudáveis, os momentos decisivos da existência humana são acompanhados por figuras associadas à construção, ao cuidado e à esperança. No nascimento, médicos. No casamento, sacerdotes ou celebrantes. Na casa nova, arquitetos e engenheiros. Esses encontros existem porque há um ideal a ser perseguido: vida, união, projeto, futuro.
O advogado aparece em outro momento. Ele não é chamado quando tudo começa, mas quando algo termina, falha ou se rompe. Quando há morte, separação, divisão patrimonial, frustração contratual ou conflito incontornável, entra em cena o direito. Não para criar, mas para administrar perdas; não para projetar sonhos, mas para lidar com consequências. A advocacia nasce da fratura do ideal, não da sua realização.
Isso não diminui o advogado. Ao contrário, o dignifica. Advogados existem porque o mundo é imperfeito. São necessários quando a realidade se impõe de forma dura e exige defesa, contenção e reparação. Por isso mesmo, raramente são bem-vindos. Ainda que bem-sucedidos, são convocados quando algo deu errado ou quando se quer prevenir que isso aconteça.
O problema começa quando essa exceção vira regra. Quando o advogado deixa de ser chamado apenas nos momentos de ruptura e passa a ocupar o centro da vida social, política e institucional, algo saiu do eixo. A presença constante do direito como mediador de todas as relações humanas não revela maturidade civilizatória, mas incapacidade coletiva de resolver conflitos antes que eles se transformem em litígios.
Quando tudo vira processo, o problema já não é jurídico. É cultural, político e, em certa medida, existencial. Estamos diante de uma sociedade exausta, que já não sabe resolver seus conflitos antes que eles cheguem ao tribunal
No Brasil, isso deixou de ser impressão subjetiva e tornou-se dado concreto, um verdadeiro sintoma nacional. O país – um dos mais contenciosos do mundo – reúne mais de 1,4 milhão de advogados regularmente inscritos na Ordem dos Advogados do Brasil, número que cresce ano após ano, e cerca de 84 milhões de processos em tramitação no Poder Judiciário, segundo dados oficiais do Conselho Nacional de Justiça. Isso significa, em termos práticos, que uma parcela expressiva da população litiga contra a outra, permanentemente, sob a mediação do Estado.
Esse cenário produz um efeito colateral inquietante: o advogado passou a ser intérprete da realidade cotidiana. Questões que antes seriam compreendidas em termos políticos, culturais ou morais agora exigem tradução jurídica. Advogados – inclusive eu – passaram a explicar o noticiário, a decifrar decisões judiciais, a ocupar espaços que antes pertenciam a jornalistas, educadores e líderes públicos. Não por ambição, mas por necessidade. Não foi o povo que se apaixonou pelo direito; foi a realidade que passou a falar a língua do processo.
Em condições normais, poucos cidadãos fora do meio jurídico reconheceriam como protagonistas do debate público advogados constitucionalistas, penalistas e professores de direito. São profissionais respeitáveis e tecnicamente qualificados, cuja atuação tradicionalmente se daria nos autos, nas salas de aula ou nos tribunais – não no centro do debate público. Se hoje esse tipo de voz ocupa espaço permanente na interpretação do noticiário nacional, isso não revela avanço cívico, mas uma anomalia institucional: o direito deixou de ser instrumento e passou a ser linguagem dominante da realidade.
Quando uma sociedade precisa ser explicada quase exclusivamente por advogados, o conflito já não é exceção – tornou-se norma. E, quando o litígio passa a organizar a vida coletiva, o próximo passo não é a pacificação, mas a medicalização do próprio tecido social. O que não conseguimos mais resolver passamos a tratar – como se divergências exigissem diagnóstico médico.
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Dito de outro modo, a proliferação do discurso jurídico não é sinal de avanço; é sintoma. O direito existe para garantir a paz social, não para substituir o ideal de convivência. Quando tudo vira processo, o problema já não é jurídico. É cultural, político e, em certa medida, existencial. Estamos diante de uma sociedade exausta, que já não sabe resolver seus conflitos antes que eles cheguem ao tribunal.
Hudson Alves da Silva Lima, advogado, é pós-graduado em Processo Civil.


