(Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)
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O homem estava sentado na areia da praia quando viu o cano da arma apontado para ele. Só depois de alguns segundos é que ele ouviu a voz: “Vai comprar ou não vai?”. Era um vendedor de milho cozido. O homem segurava uma pistola de brinquedo e abria um sorriso para deixar claro que não se tratava de um assalto, mas de uma nova técnica de vendas.
Acontece no Rio de Janeiro.
É quase meio-dia de domingo e não há um centímetro quadrado de praia que não esteja ocupado. Dessa vez, o ambulante da pistola foi malsucedido em sua tentativa de venda. Mas ficou a pergunta:será que ele conseguia aumentar o faturamento apontando uma arma de brinquedo para as pessoas? Ele some na multidão em busca de uma nova vítima – digo, cliente.
Está acontecendo em Ipanema.
Um grupo de senhoras, falando espanhol, se acomoda em cadeiras perto do mar, ao lado de pratos de isopor e de restos de comida que alguém deixou na areia. Elas acomodam cuidadosamente suas sandálias e pertences ao lado da sujeira, que permanece onde estava.
As barracas e cadeiras da multidão formam corredores estreitos por onde se espremem ambulantes. Outro vendedor de milho cozido tenta passar com seu panelão de água fervente, mas um desnível na areia faz com que o carrinho se incline, jogando vapor nas senhoras e ameaçando derramar a água quente em cima delas. “Tá tudo sob controle”, diz o ambulante, puxando o carrinho com força e sem convencer as senhoras, que se levantam assustadas.
Com a ausência de nuvens, o mar reflete a luz do sol sem qualquer modulação, produzindo uma claridade incômoda. Uma névoa fina cobre a linha do horizonte, contribuindo para uma sensação de desolação. Começa um barulho de palmas que vai se espalhando pela praia. É o ritual carioca para avisar que há uma criança perdida, à procura dos pais. Mas a multidão é tão compacta que é impossível ver a criança. As palmas vão diminuindo até sumir.
As estrangeiras começam a cantar em espanhol. Uma delas se levanta e ensaia passos de uma dança que elas provavelmente acreditam que é samba. O lixo continua na areia, ao lado delas.
No final do dia, quando o sol descer entre as montanhas e a multidão voltar para casa, a praia fechará sua contabilidade: são copos plásticos, embalagens e todo o tipo de lixo
Não há sequer uma brisa e o ar está pesado com a fumaça de maconha, que parece vir de todas as direções. Ecoam os berros dos vendedores; um deles chega bem próximo das pessoas antes de gritar, em volume máximo, “A-ÇA-Í”, o que sempre assusta os banhistas e provoca risos no ambulante.
Só ele ri.
Agora, os gritos que a praia ouve vêm de uma mulher. Todos se levantam para ver uma senhora de biquini amarelo e aparência humilde, que berra desesperada, estendendo os braços na direção do mar. Ela é contida por um homem, que a segura pela cintura. Enquanto tenta se desvencilhar, a mulher, transtornada, aponta na água algo que os espectadores decidem que é a cabeça de uma criança. Muitos se levantam e correm para a beira d’água, certos de que irão testemunhar o desespero da mãe de um afogado.
A praia inteira se prepara para o drama.
Mas ninguém se afogou.
A suposta cabeça de criança não é localizada e as pessoas se dispersam. A mulher some na multidão. Logo, as palmas recomeçam; mais uma criança perdida.
Um casal muito jovem chega na praia com um bebê e todos os acessórios. O rapaz, que aparenta ter menos de vinte anos, abre o guarda-sol, instala uma cadeira para a esposa e se serve de uísque e energético. Senhoras de um grupo ao lado olham com alarme quando o rapaz tira da mochila uma caixa de som. Já há várias funcionando ao redor; apesar de oficialmente proibidas, quase todo grupo de banhistas tem sua caixa tocando alguma música – em geral, muito ruim – em volume alto. A palavra “ruim” não é uma avaliação estética ou cultural, mas a simples constatação de que a maioria das “músicas” são arranjos primitivos de percussão combinados com palavrões, expressões ofensivas e descrição de atos criminosos, tocadas em volume altíssimo.
O rapaz liga a sua caixa de som.
Entre os produtos oferecidos na praia, além do milho, do mate, do biscoito e do queijo coalho – que é assado ali mesmo, em fornos de metal cheios de brasas que os vendedores carregam com ousadia dentro da multidão, sem qualquer receio de queimar alguém – está também a maconha. Para maior eficiência das vendas, frequentemente o vendedor tem, ele mesmo, um baseado pendurado displicentemente no canto da boca. Muitos dos clientes da erva aparentam ser menores de idade; muitos desses menores também bebem.
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“Olha a p@rra do milho”, grita um rapaz, pioneiro no marketing ofensivo à beira mar. Ele é relativamente conhecido por ali. “Praia não é lugar de gente dura”, ele continua. “Não tem dinheiro, vai embora”.
É claro que é uma piada.
Claro.
Inacreditavelmente, o rapaz tem fregueses; há pessoas que compram seu produto.
No final do dia, quando o sol descer entre as montanhas e a multidão voltar para casa, a praia fechará sua contabilidade: são copos plásticos, embalagens e todo o tipo de lixo, espetos de queijo e garrafas de vidro enterradas na areia, restos de comida que alimentarão pombos e vermes e o cheiro de maconha contaminando o ar.
O Rio oferece a beleza de um paraíso e recebe de volta insultos e injúrias.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos
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