A maternidade é como o voo do albatroz, que só é alto porque as asas são pesadas. (Foto: Imagem criada utilizando ChatGPT/Gazeta do Povo)
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Será tarde demais para desejar feliz Dia das Mães? É claro que não… Agora, enquanto escrevo, sei que os olhos do público só pousarão sobre estas linhas no domingo que vem, mas adianto-me a traçá-las ainda sob a gostosa influência do domingo recém passado, em que recebi o carinho dos meus filhos. Digamos que hoje seja, com o perdão da brincadeira, a “oitava” do Dia das Mães. E não é o mês de maio inteiro, segundo o costume católico, dedicado à Virgem Maria, a Mãe das mães? No mês de maio, não são poucas as crianças, pelos colégios e paróquias, que se vestem como anjos e, com sua candura infantil, representam o que deve ser cortejo celeste. Tomam pétalas de rosas e outras flores – é a primavera do Hemisfério Norte a origem mais remota dessas comemorações –, e louvam a mãe bendita do Cristo Senhor, por meio de quem nos veio a salvação. Coroam-na, enfim, com uma coroa simbólica, que representa aquela verdadeira que o mesmo Jesus pôs em sua cabeça, lá no Céu, cumprindo as profecias e os salmos. E a Mãe das mães faz todo o mês de maio ser, se quisermos, um prolongado Dia das Mães – se quisermos, sobretudo, lembrar do seu exemplo, das suas alegrias, mas principalmente das suas dores, e do amor que teve e tem por Deus e por todos.
É como diz aquela velha oração oriental, tão linda: “O Céu disse à Terra: – Bem-aventurada sois! Como sois feliz, porque possuís o que há de mais precioso: as mães. Dai-me uma mãe e, em troca, eu vos darei Deus! – E então Deus desceu do Céu e tomou para si uma mãe; com ela habitou na Terra, e com ela depois regressou ao Céu, e ali a fez assentar-se ao seu lado…”
Somos, nós mães, segundo a oração, o que há de mais precioso, e a Terra é chamada de bem-aventurada por nos possuir em seu território! Somos assim preciosas mesmo? Boa parte, quiçá a maioria de nós, tem, por nossas próprias mães, um amor e um carinho imensos, tão grandes que nos fazem de fato compreender essas afirmações. Mas, e quando olhamos para nós próprias? Para a nossa maternidade que, comparada à das mães de algumas de nós, ou, se não, comparada à daquelas mães que temos como modelares, como exemplos de dedicação, entrega, cuidado e afeto, parece coisa pouca, parece tão imperfeita?…
Somos, nós mães, segundo a oração, o que há de mais precioso, e a Terra é chamada de bem-aventurada por nos possuir em seu território
Olhamos para o conjunto dos nossos dias, arrastados uns após os outros, emendados por noites mal dormidas, noites claras às vezes, e o que vemos? Quanta dificuldade… Um serviço invisível, na calada da noite, de oferecer no peito o leite que sustenta a vida, que robustece o corpo daquele que há pouco chegou ao mundo. De balançar, para cá e para lá, o futuro da nação, para que durma outra vez. E cantar outra canção, e afagar uns cabelos, ou dar tapinhas no bumbum daquele que precisa disso para engatar no sono. E contar outra história, e conversar sobre um dia cheio de novidades, enquanto nos aguarda, bem distante, o descanso e o conforto do banho quente e da cama macia.
E durante os dias, após essa noite que não dormimos? É preciso paciência, para preparar todas as coisas, objetos, roupas, alimentos, das quais nossos filhos precisam, não só para viver, mas para aprender a viver. É preciso paciência, para arrumar a bagunça que nossos filhos ainda não são capazes de arrumar sozinhos – e também ensiná-los a fazê-lo, fazer contando com sua “ajuda”. E devemos, com nossa paciência, ensinar-lhes a ter paciência, a amar o seu próximo, os seus irmãos, seus colegas; nós os ensinamos até mesmo a nos amar…! Para ensiná-los, repetimos a mesma coisa, as mesmas frases, os mesmos ensinamentos uma vez e outra, e outra vez, e mais uma, todos os dias. E, enquanto isso, vemos nos ultrapassarem todas aquelas (para falar só das mulheres mesmo) que se dedicam integralmente à carreira e à profissão, a acumularem mais experiência e prestígio, a galgarem posições, sucessos, e alçarem altos voos profissionais. E nós, que voos alçamos?
Tudo isso me faz lembrar daquele famoso poema de Charles Baudelaire (1821-1867), O albatroz. A Baudelaire, apesar de ter ganhado mais tarde a alcunha de “poeta maldito”, por causa de sua vida marginal e dos temas pesados recorrentes em sua poesia, não se pode negar a dignidade de ser, de algum modo, o fundador da poesia moderna. Isso quer dizer que a sua sensibilidade era muito rara, e a sua capacidade de plasmar nos versos aquilo que via da vida, dos sentimentos humanos e da sociedade ao seu redor, ímpar.
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Nesse belo poema, que saiu em seu importante livro As flores do mal, de 1857, o poeta pinta um quadro em que os marujos de um navio, grosseirões e maldosos, pegam um albatroz para dele zombar. Aquele que, quando está no céu, é a ave mais bela, com suas asas imensas e poderosas abraçando o oceano infindo, quando decai sobre o convés, é alvo fácil da humilhação. Os homens da equipagem sopram na sua cara a fumaça espessa do cachimbo, só para fazer troça, e imitam o seu caminhar desengonçado, entre gargalhadas. Leiamos juntos, porque merece, a tradução de Ivan Junqueira (ainda que haja muitas traduções diferentes desse poema, e várias igualmente boas – e os que sabem francês podem com gosto apreciar os versos originais).
Às vezes, por prazer, os homens da equipagemPegam um albatroz, imensa ave dos mares,Que acompanha, indolente parceiro de viagem,O navio a singrar por glaucos patamares.
Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés,O monarca do azul, canhestro e envergonhado,Deixa pender, qual par de remos junto aos pés,As asas em que fulge um branco imaculado.
Antes tão belo, como é feio na desgraçaEsse viajante agora flácido e acanhado!Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado!
O Poeta se compara ao príncipe da alturaQue enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;Exilado no chão, em meio à turba obscura,As asas de gigante impedem-no de andar.
Baudelaire, como veem, compara o albatroz, esse “príncipe da altura”, à própria figura do poeta, que se sente exilado entre o vaivém da vida terrena, no chão, entre os homens comuns e rasos, sem espírito. Suas asas enormes, que o tornam apto a grandes alturas e distâncias, capaz de abarcar com o olhar o azul infinito do horizonte, ali no chão fazem dele um pobre coitado, digno de pena e alvo da zombaria. Com aquelas asas gigantes, não consegue andar. Eu, por minha vez, lembrei do poema, e da imagem poética que ele carrega, por comparar a grande ave das alturas… conosco, mães.
A maternidade é um par de asas pesadas como as do albatroz. A nós estão reservados voos majestosos num reino que não é visível aos olhos da marujada
Não é lícito compararmos a maternidade a esses pássaros que fazem voos majestosos? Quando estão no alto, ganhando para si o gosto do infinito, eles nem sequer sentem o peso das asas enormes – embora elas sejam, sim, verdadeiramente pesadas. No alto, a sua grandeza e o seu peso são diretamente proporcionais à altura e à amplidão do voo. E se essas asas lhe fossem cortadas? O albatroz poderia andar altivamente pelos conveses dos navios, e por onde mais quisesse. Não seria chacota dos marujos, não lhes meteriam a fumaça do cachimbo no bico e na cara. Do mesmo modo nós, se não fôssemos mães, não teríamos todo o tempo do mundo para vencermos neste mundo, inteiramente dedicadas à profissão? Ademais teríamos tempo livre, tempo para nós, como se diz, para cuidarmos sem preocupação da saúde, da beleza, dos nossos gostos, hobbies, diversões. Nossa vida seria todinha nossa, só para nós. E então? Então não voaríamos alto, e não seríamos as mais belas e majestosas aves a singrar os ares, como um albatroz.
As obrigações da maternidade, que envolvem muitos desafios e dificuldades, como os que listamos há pouco, não são um peso, não são algo negativo – perdas, limites, mutilações. São isto, é claro, se forem olhados desde o ponto de vista errado: se forem interpretadas pelos marujos do convés. Mas, vistas por quem quer voar, ao contrário, são uma afirmação contínua, quase ininterrupta, de um amor que se constitui de obras, de realidade, e não apenas de palavras e desejos de intenções. As obrigações da maternidade são asas: só fazem sentido quando nos lançamos a voar, e só assim têm seu peso transmutado em glória.
Algumas pessoas, muito equivocadamente, repetem a frase: “Esta ou aquela tem o dom da maternidade!”, como se a ela tivesse sido dado algum dom especial que a isentasse das dores. Como se a ela custasse menos a privação do sono, do descanso, da tranquilidade, o privar-se de dispor do próprio tempo como bem entende, o ficar acima do peso, as agruras de um puerpério, e todo o esforço e todo o empenho. E aquelas que sofrem, que choram desesperadas, que quase se racham de medo por não saber o que farão no futuro próximo, dado o peso das dificuldades? A essas não foi concedido o tal “dom da maternidade”? Não pode ser verdade. O dom da maternidade é nada mais que o filho que nos foi confiado e, com ele, a possibilidade de alçarmos um voo único. Junto com o filho, vem de Deus certamente a graça, a força de cuidarmos bem dele, se a acolhermos. A Virgem Maria, por acaso, não é chamada a Senhora das Dores? E é ao mesmo tempo chamada a Mãe de Deus e da Igreja.
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Não é verdade que não custe, às mães, nem mesmo àquelas que parecem ter recebido o tal “dom”, todos esses sacrifícios. Custa a elas como a todas nós. Entregar-se é custoso para todas as mães – entregar-se é custoso a todos os seres humanos, também às mulheres que não são mães biológicas, e aos homens, de outro modo. Amar mais e mais aos nossos filhos, e principalmente, amá-los mais do que amamos a nós mesmas, é custoso, exigente, difícil. E entregar tudo aquilo que antes chamávamos de “nossa vida” por eles – ou, dito de outro modo, é atualizar totalmente aquilo que entendemos pela expressão “nossa vida”, que agora será preenchida pela memória de seus rostos pequeninos e alegres, por seus cabelos, seus sorrisos, pela vida deles –, isto é verdadeiramente magnânimo e belo. É preciso escolhê-lo deliberadamente, porém. É preciso querer as asas maiores, que nos atrapalham “cá embaixo”, mas nos sustentarão “lá em cima”, como ao albatroz.
E nisso consiste todo o diferencial: inverter o próprio critério do nosso pertencimento, da terra para o céu, do convés do navio para o azul esperançoso do horizonte sobre o mar. Devemos inverter a lógica humana, que só vê naqueles apuros a negação, o sofrimento e a dor, para uma lógica de conquista, de missão, de voo largo. E essa mudança de percepção, que nos faz viver de modo diferente, é não só possível como desejável para todas nós. Se não operarmos essa transformação, essa transmutação do nosso coração, direcionado para uma felicidade maior e mais duradoura, será como tentar fazer voos majestosos… sem asas.
Eu não sei, queridas mães, onde vocês passaram o último Dia das Mães, se puderam estar com seus filhos, ou se só passaram saudades; se celebraram bem, ou se foram, na verdade, atormentadas por dúvidas e dores que nem a roseira ou a azaleia mais linda poderiam curar. Mas, para seu consolo, e para boa memória desse inteiro mês de maio, mês maternal, mês das mães porque mês da Mãe das mães, deixo-lhes esta comparação e este apelo. O albatroz, nas tábuas do convés, é um rei destronado, humilde e constrangido – como era Jesus, protegido no estábulo pelos braços amenos da Virgem Mãe. Era dominador do espaço, e agora… exilado no chão. Assim somos nós, mãezinhas: a maternidade é um par de asas pesadas. A nós estão reservados voos majestosos num reino que não é visível aos olhos da marujada, voos de amor e entrega que nos rendem verdadeira riqueza de espírito, nesta vida e no seu desfecho eterno. A maternidade é mesmo uma espécie de poesia. E haverá poema mais lindo do que aquele filho que, a quatro mãos com Deus, escrevemos para a eternidade?
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos
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