A morte da imperatriz ensinou ao Duque de Gandía a inutilidade da idolatria humana: nenhum poder vence a decadência do tempo. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)
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Em 1º de maio de 1539, Isabel de Portugal, Rainha da Espanha e Imperatriz do Sacro Império Romano-Germânico, morreu 11 dias depois de dar à luz um filho natimorto. Isabel tinha 35 anos, era casada com o Rei Carlos V e considerada a mulher mais bela de seu tempo. Um dos principais nomes da corte espanhola, o Duque de Gandía, foi encarregado de conduzir o caixão com o corpo da imperatriz de Toledo até Granada, onde se faria o sepultamento.
Embora se estivesse na primavera, as temperaturas nas regiões de Toledo e Granada foram altas naquele ano; a viagem a cavalo de 360 quilômetros, ao que tudo indica, fez-se em condições penosas.
Ao chegar a Granada, o Duque de Gandía ordenou que o caixão de Isabel fosse aberto para que se pudesse fazer o reconhecimento da identidade régia. Ao contemplar a imagem do cadáver, em adiantado estado de putrefação, o duque ficou especialmente devastado e pronunciou uma frase que se tornaria célebre:
“Nunca mais servirei a senhor que me possa morrer!”
Quatrocentos anos depois, a autora portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (1909-2004) escreveu um poema intitulado “Meditação do Duque de Gandía sobre a morte de Isabel de Portugal”, cujos versos reproduzirei em parte aqui:
“Nunca maisA tua face será pura, limpa e viva,Nem o teu andar, como onda fugitiva,Se poderá nos passos do tempo tecer.E nunca mais darei ao tempo a minha vida.
Nunca mais servirei senhor que possa morrer.A luz da tarde mostra-me os destroçosDo teu ser. Em breve a podridãoBeberá os teus olhos e os teus ossos,Tomando a tua mão na sua mão”.
Para o Duque de Gandía, o impacto da morte da Rainha Isabel foi tão grande que ele prometeu a si mesmo nunca mais servir a nenhum ser humano. Se a beleza da mulher mais bela do mundo poderia ser extinta e transformada em podridão no espaço de alguns dias de viagem, ele se dedicaria, a partir dali, a procurar a beleza que o tempo não é capaz de destruir: a face de Deus.
De fato, tempos depois, o Duque de Gandía renunciou aos seus títulos mundanos e se tornou padre da Companhia de Jesus. Com seu nome de batismo, Francisco, fez parte da primeira geração de religiosos formada por Santo Inácio de Loyola. Foi um grande incentivador das missões jesuíticas e dedicou-se à vida religiosa até sua morte, em 1572. Canonizado em 1620, passou à história como São Francisco de Borja.
A essa altura, um de meus sete leitores pode perguntar: “Por que você está contando essa história, Briguet?”. Um dos meus dezessete críticos poderia ser mais incisivo: “Ué, não vai falar nada sobre o Flávio Bolsonaro?”
Pois eu responderia ao meu leitor e ao meu crítico: a história que acabei de contar tem tudo a ver com aquilo que estamos vivendo hoje. Ela nos ensina que jamais podemos servir a pessoas e idolatrias deste mundo; que jamais podemos depositar nossas esperanças de salvação em figuras humanas, muito menos em personagens políticos.
Repito o que já disse inúmeras vezes: quem vai salvar o Brasil não é a política, é o Espírito. E o Espírito não se fecha ao conhecimento da realidade, por mais dura e desoladora que ela seja.
“Nunca mais servirei senhor que possa morrer.”
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