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Beber detergente virou o mais novo ato de resistência

A reação de apoio à marca de detergentes guarda semelhança com o negacionismo visto na pandemia. (Foto: Imagem produzida por Gemini IA/Gazeta do Povo)

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O grafiteiro britânico Banksy, famoso pelas pinturas inventivas em murais na cidade de Bristol, ainda fará um desenho de um cidadão tomando uma garrafa de detergente. A simulação de beber o líquido, replicada em inúmeros vídeos nas redes sociais, tornou-se um verdadeiro ato de resistência ao que muitos entendem ser o “estado policial” comandado por Lula. A marca Ypê e, claro, o indefectível senador Ciro Nogueira seriam apenas as derradeiras vítimas de uma perseguição ideológica movida pelo aparato burocrático infectado pelo petismo.

Anvisa e Polícia Federal seriam órgãos distintos a operar em nome do mesmo fim: destruir o bolsonarismo e todos os seus representantes, seja no Congresso, seja no corredor de produtos higiênicos no supermercado. Ciro Nogueira, por óbvio, não desfruta do mesmo prestígio do famoso detergente e, por isso, a ele não foi dedicada qualquer mesura, ato de solidariedade ou manifestação pública de apoio. Ao contrário, até Flávio Bolsonaro, que o considerava “o vice dos sonhos”, lhe virou as costas, publicando um vídeo defendendo a investigação do escândalo do Master. Com o Ypê, entretanto, o tratamento dispensado foi outro.

Apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro começaram uma verdadeira campanha de apoio ao produto, um movimento com participação da fina flor da microbiologia. Influenciadores como a cantora Jojo Todynho e políticos como o vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo, e o senador Cleitinho (favorito ao governo de Minas Gerais) saíram em defesa da marca. Cleitinho chegou até mesmo a questionar se a Anvisa fiscalizaria “a bucha de cada brasileiro”. Até mesmo a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro resolveu se posicionar sobre o assunto, postando uma foto de uma garrafa de detergente em suas redes sociais.

Parafraseando Karl Marx, a história se repete: primeiro como tragédia, depois como piada. Há, no caso, uma comicidade inequívoca, já que personagens do mesmo grupo, outrora, já foram flagrados prestando continência a pneus e requisitando intervenção extrassensorial de alienígenas. Não se pode ignorar, entretanto, o aspecto trágico da reação, uma vez que esta guarda semelhança perigosa com o que se viu na pandemia de Covid-19, quando a Anvisa também foi acusada de atuação política — daí para a suposta implementação do que estes chamavam de “ditadura sanitária”.

Se, no passado, negacionistas estimulavam a população a se expor ao vírus da Covid, aqui o estímulo é ao potencial de contaminação por bactérias. A ideologização do detergente é apenas a reciclagem, em modo circense, da ideologização das vacinas. Subsiste, entretanto, a mesma irresponsabilidade, travestida com o discurso da resistência.

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