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O resultado da Copa do Mundo pode afetar as eleições?

Juscelino Kubitschek, João Goulart, Emílio Garrastazu Médici, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso eram os presidentes da República nos momentos em que o Brasil venceu uma Copa do Mundo de futebol em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. Todos eles receberam os jogadores em cerimônias amplamente divulgadas pela imprensa.

Poucos chefes de Estado se reúnem com as equipes que perdem a Copa (com exceção de Fernando Henrique Cardoso em 1998). Entretanto, todos costumam se reunir com os atletas antes do início das competições – quem iniciou essa tradição foi Getúlio Vargas, em 1938, antes do embarque da seleção para a França, onde o time terminaria o torneio em terceiro lugar.

Mas, fora o aspecto simbólico, o desempenho do Brasil na Copa tem impacto direto na política? As informações a respeito desse assunto são conflitantes, e a amostragem é limitada. Se Itamar elegeu seu candidato, FHC, em 1994, em 2002, ano do pentacampeonato, o oposicionista Luís Inácio Lula da Silva superou José Serra. Dois anos depois do primeiro título, JK tampouco emplacou seu sucessor, o marechal Henrique Teixeira Lott, em 1960. Nas duas ocasiões em que o Brasil recebeu o torneio, os resultados das urnas também se mostraram díspares: em 1950, pouco mais de dois meses depois do Maracanazzo contra o Uruguai, o candidato do presidente Dutra, Cristiano Machado, foi derrotado; em 2014, apesar da derrota vexatória para a Alemanha por 7 a 1, Dilma Rousseff foi reeleita.

Recorrente a cada quatro anos, quando a Copa do Mundo e as eleições presidenciais se sucedem, a discussão sobre o impacto político do desempenho esportivo deve voltar à tona neste ano.

E essa não é uma questão exclusiva do Brasil: em 18 de julho de 1970, na Inglaterra, o Partido Conservador elegeu Edward Heath, contrariando todas as pesquisas que davam a vitória ao Partido Trabalhista do então primeiro-ministro Harold Wilson.

Apenas quatro dias antes, a seleção havia sido derrotada pela Alemanha Ocidental nas quartas de final da Copa do Mundo do México, por 3 a 2, depois de sair vencendo por 2 a 0. Ainda hoje se debate no país o impacto político do gol de Gerd Müller, na prorrogação, sobre o resultado das urnas. Da mesma forma, é alvo de análises o que aconteceu na França, em 1998, ano da primeira vitória do país numa Copa, precisamente contra o Brasil. Na época, a popularidade do presidente Jacques Chirac saltou 18 pontos percentuais.

Por outro lado, apesar do desempenho ruim da seleção canarinho na final de 1998, FHC se reelegeu no mesmo ano, sem sequer precisar do segundo turno, assim como Lula se reelegeu em 2006 e o PT se manteve no poder com Dilma em 2010, anos de derrotas em Copas. Um levantamento realizado pelo banco suíço UBS em 2014 comparou a oscilação na avaliação positiva do governo de plantão, a cada Copa. E também não chegou a conclusões definitivas: em 2002, ano de título, caiu 2%. Levando em conta os anos de derrota, o índice subiu 7% em 1998, caiu 1% em 2006 e cresceu 1% em 2010.

Efeito de curto prazo

Em democracias mais antigas do que a brasileira, como a americana, o assunto é alvo de pesquisas de longo prazo, que coletam e cruzam dados de várias décadas para chegar a conclusões estatisticamente válidas sobre o assunto. Algumas parecem apontar para um efeito tímido e de curto prazo – ainda que, em alguns cenários, possa ser suficiente para impactar o resultado de uma votação.

Um levantamento liderado pela economista Neil Malhotra, da Universidade de Stanford, e publicado em 2010, analisou o desempenho político em 62 eleições, entre 1964 e 2008, em locais onde o time local de futebol americano universitário venceu um campeonato na mesma época da votação. Constatou: “Uma vitória nos 10 dias que antecedem o dia da eleição faz com que o candidato incumbente receba 1,61 ponto percentual adicional de votos nas eleições para o Senado, para governador e para presidente, sendo o efeito maior para times com maior apoio da torcida”.

O trabalho cita ainda outro levantamento, realizado durante o torneio de basquete universitário masculino de 2009, que atestou que vitórias e derrotas surpreendentes afetam a aprovação presidencial. “A pesquisa também indica que o bem-estar pessoal pode influenciar as decisões de voto em um nível subconsciente”, dizem os autores.

Trata-se de uma reação intuitiva e emocional, sem nenhuma relação com o desempenho do governo em financiar ou apoiar as atividades esportivas. “Não se espera nenhuma resposta do governo aos resultados dos jogos. Ainda assim, os eleitores reagem ao resultado aleatório e inesperado dos jogos. Eles parecem estar respondendo a estímulos emocionais de curto prazo”, lê-se no estudo.

A hipótese de que alguns cidadãos simplesmente optem pelo status quo quando se sentem felizes também é investigada por Michael K. Miller, professor de ciência política e relações internacionais da George Washington University, em artigo de 2013.

A análise realizada por ele leva em consideração o desempenho dos times locais profissionais de beisebol, basquete ou futebol americano durante as eleições para prefeito em 39 cidades americanas, de 1948 a 2009. E conclui: “Registros esportivos vitoriosos aumentam o total de votos dos titulares de cargos e as probabilidades de reeleição. Em contraste, os registros esportivos após as eleições não apresentam tal relação”. Em outras palavras, “o voto é parcialmente impulsionado por sentimentos de felicidade não relacionados à avaliação política”.

Modelos diferentes

Miller menciona o chamado Modelo de Avaliação, tradicional, em que eleitores medem o desempenho dos candidatos de acordo com seu histórico pessoal e profissional e, caso busquem reeleição, os resultados alcançados no cargo, em termos de avanços concretos para a comunidade, na economia, na qualidade de vida, na saúde, na segurança ou na educação.

E o diferencia do Modelo de Prosperidade – nome dado ao aspecto psicológico da votação, influenciado pelo humor de momento, este sim mediado por fenômenos que escapam ao controle do governante, como os resultados no esporte. Ele conclui que o segundo fator está presente, ainda que seja menos relevante do que o primeiro.

Em geral, os dois se superpõem, de forma que a análise racional é parcialmente impactada pela emocional. “Embora eventos irrelevantes possam influenciar o cálculo do eleitor, o voto continua sendo um método eficaz para selecionar e disciplinar líderes”, afirma o autor.

Na Finlândia, dois pesquisadores da Universidade Åbo Akademi realizaram análise com base em pressupostos semelhantes.Publicada em 2022, com base nas avaliações mensais do governo publicadas entre janeiro de 1994 e dezembro de 2021, ela lembra que vitórias no esporte podem aumentar o sentimento positivo em relação à nação como um tudo, e por isso pode se projetar para outras esferas da vida, como a política.

Impacto da estrutura partidária

“O esporte tem sido uma das formas mais importantes para as sociedades construírem e fortalecerem o orgulho nacional e a coesão social”, constatam os autores, que lembram que o desempenho em competições internacionais é um alicerce importante para a consolidação da identidade nacional dos finlandeses desde, pelo menos, as primeiras décadas do século 20.

Ainda assim, o levantamento não encontrou impactos diretos dos resultados dos atletas na política. “O apoio ao governo diminui quando o desemprego aumenta, e há um notável efeito de união nacional durante a pandemia. Isso nos dá confiança para afirmar que nossos dados capturam efeitos da vida real no apoio ao governo, mas que o sucesso esportivo não está entre eles”.

Em resumo, “as descobertas sugerem que o eleitorado finlandês se comporta racionalmente. Reage (negativamente) ao desemprego, mas não a eventos exógenos à política”. No entanto, os pesquisadores apontam uma causa para este comportamento: “Embora as descobertas apoiem a ideia de um eleitorado racional, especulamos que a razão não seja em si que os eleitores em países multipartidários sejam mais racionais, mas sim que sua expressão de apoio ao governo difere da dos eleitores em sistemas bipartidários”.

A hipótese é a de que, em sistemas multipartidários, existe uma racionalidade induzida pelo próprio sistema eleitoral. Em situações de maior polarização, em que dois grupos políticos centralizam as escolhas, haveria maior espaço para o impacto emocional de curto prazo provocado pelo prazer de ver a seleção local ganhar um campeonato importante. Neste sentido, diante de um cenário polarizado como o do Brasil da atualidade, o desempenho na Copa poderia provocar algum impacto, especialmente se o torneio terminasse mais próximo do dia da votação.

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