Trump e Xi tentam conter a rivalidade global, mas encontro em Pequim deve servir mais para evitar crises do que resolvê-las. (Foto: Kent Nishimura/Sergei Bobylev/EFE/EPA/POOL)
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Nos próximos dias, observadores e analistas de todo o mundo estarão prestando atenção a um encontro que acontecerá em Pequim: o presidente Trump viajará à China para se encontrar com o presidente Xi Jinping. A reunião entre os dois chefes de Estado mais poderosos da atualidade, que ocorre com um atraso de algumas semanas em razão do envolvimento norte-americano na guerra com o Irã, transcorrerá em um momento de elevadas tensões geopolíticas, mas o que se espera é um esforço de ambos os presidentes no sentido de alcançarem pontos de acordo que ajudem a estabilizar as relações entre os dois países.
As relações entre China e EUA já passaram por muitos altos e baixos ao longo da história. De aliados na Segunda Guerra Mundial a inimigos na Guerra da Coreia, os dois países chegaram a se aproximar entre o final dos anos 1980 e a primeira década do século 21, para finalmente entrarem em um novo momento de disputa a partir dos anos 2010, momento em que a China se alçou ao grande protagonismo econômico e geopolítico atual, passando a desafiar a hegemonia norte-americana no Sistema Internacional.
O último encontro entre Trump e Xi, ocorrido na Coreia do Sul em outubro do ano passado, selou um acordo para pôr fim à guerra comercial lançada pelos EUA, que chegaram a impor tarifas de 145% aos produtos chineses, medida que foi respondida com uma forte restrição, por parte da China, no fornecimento de produtos de Terras Raras, vitais para a indústria dos EUA. Com o acordo, as tarifas sobre produtos chineses foram reduzidas substancialmente e, em contrapartida, a China garantiu o acesso dos EUA a seus minerais críticos.
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Contudo, do último encontro entre os dois presidentes até os dias atuais, a situação geopolítica no mundo se complicou ainda mais com a crise no Golfo Pérsico e o ataque israelo-americano ao Irã. A China anseia por uma solução da crise em curto prazo por várias razões.
Em primeiro lugar, por razões estratégicas: o Irã é visto por Pequim como uma plataforma para a expansão dos interesses chineses no Oriente Médio, e a China tem investido bastante na relação com o regime dos aiatolás. Os dois países possuem um acordo de parceria estratégica, e foi graças ao apoio decisivo da China que o Irã ingressou nos BRICS.
Em segundo lugar, por razões econômicas: o Irã representa uma parcela relevante nas importações de petróleo da China. Além disso, é bom lembrar que a desaceleração da economia global provocada pelo bloqueio do Estreito de Ormuz afeta especialmente a China, cuja economia depende de mercados pujantes, com países ávidos e economicamente capazes de importar seus produtos.
O presidente Trump, por sua vez, chegará à China com uma agenda pragmática. Tentará obter acordos comerciais vantajosos, especialmente envolvendo o aumento das exportações de soja, de aviões da Boeing e de carne bovina. Trump certamente também tentará fazer com que a China aumente a pressão sobre o Irã para pôr fim à crise no Estreito de Ormuz.
Um assunto particularmente espinhoso deverá também estar sobre a mesa: a questão de Taiwan. Em uma ligação telefônica feita em fevereiro, cujo conteúdo foi oficialmente divulgado pelo Ministério das Relações Exteriores da China, Xi Jinping disse a Trump que a questão de Taiwan, a ilha autogovernada que é considerada por Pequim uma “província rebelde”, é o tema mais importante nas relações China-EUA e que “os EUA devem lidar com a questão da venda de armas a Taiwan com prudência”.
Nesse sentido, chama atenção o fato de que, na última sexta-feira, o Congresso taiwanês tenha aprovado uma compra de armas dos EUA no valor de 25 bilhões de dólares, o que certamente desagradou Xi Jinping.
No final das contas, a reunião desta semana entre Trump e Xi Jinping dificilmente abrirá um “novo capítulo” na relação entre os dois países. Servirá, entretanto, como uma administração de crise: evitar que a rivalidade sistêmica descambe para um conflito que seja prejudicial para os dois lados.
Para o restante do mundo, o pas de deux protagonizado pelos dois líderes representa muito mais do que um simples exercício de diplomacia bilateral: é uma oportunidade para que as duas maiores potências globais consigam, ao menos, gerenciar as crises em curso e impeçam que a rivalidade sistêmica fragmente ainda mais o sistema internacional. Torçamos, portanto, que os dois bailarinos evitem pisar nos pés um do outro — e que a coreografia não termine em desastre para os demais atores no palco global.
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