Imagine um grupo de alunas do ensino médio que, ao iniciar uma pesquisa sobre embalagens de alimentos ultraprocessados, se depara com uma contradição: as informações que circulam nas redes sociais sobre determinado produto não correspondem ao que está impresso na embalagem, e nem ao que dizem os estudos científicos. Qual dado é confiável? De onde veio cada informação? Quem a produziu e com qual interesse? Essas perguntas estão no coração de um dos maiores desafios da educação contemporânea.
Vivemos em um tempo de abundância informacional. Nunca foi tão difícil distinguir o que é verdadeiro do que é distorção. No campo da saúde e da alimentação, essa confusão é especialmente preocupante: desinformação sobre dietas, ingredientes e rótulos alimentares se espalha rapidamente nas plataformas digitais, influenciando escolhas cotidianas de milhões de pessoas. Segundo dados do Reuters Institute (2023), o Brasil é um dos países com maior exposição a notícias falsas no mundo, e os temas de saúde figuram entre os mais afetados.
Nesse cenário, o que pode fazer a escola? A resposta não está em proibir o acesso à informação, nem às redes sociais, nem às ferramentas de inteligência artificial que os estudantes já utilizam cotidianamente. Está em ensinar a pensar sobre a informação: de onde ela vem, como foi produzida e como pode ser verificada. Cada vez mais, jovens recorrem a ferramentas de IA generativa para obter respostas rápidas, sem perceber que o conteúdo gerado pode ser impreciso ou tendencioso. Bloquear o acesso seria ingênuo, educar para o uso consciente é necessário.
É nesse ponto que a Alfabetização Midiática e Informacional (AMI), conceito promovido pela UNESCO, oferece um horizonte importante. A UNESCO define a AMI como o conjunto de competências que permite acessar, avaliar, utilizar e criar informação de forma crítica e ética, tanto em mídias tradicionais quanto digitais. Mais do que uma habilidade técnica, trata-se de uma postura intelectual: a de quem não consome informação passivamente, mas a questiona, contextualiza e relaciona com evidências.
É nesse contexto que a Iniciação Científica no ensino médio se revela uma prática pedagógica de grande potencial. Ao desenvolver um projeto de pesquisa, o estudante aprende a formular perguntas com rigor, buscar fontes confiáveis, avaliar evidências e comunicar resultados com responsabilidade, praticando o que a UNESCO descreve como fundamentos da AMI. Aprende que uma afirmação não vale pelo volume de compartilhamentos, mas pela qualidade da metodologia que a sustenta. Aprende que a dúvida não é fraqueza: é o ponto de partida de toda investigação honesta.
No Colégio SESI, unidade Boqueirão, em Curitiba, um grupo de alunas do ensino médio vive essa experiência de perto. O projeto que desenvolvem investiga a legislação sobre embalagens de produtos ultraprocessados no Brasil e em outros países, com o objetivo de propor um modelo de embalagem mais informativo e comprometido com a saúde do consumidor. Para isso, precisaram navegar por um ambiente informacional repleto de contradições: normas da ANVISA, diretrizes da OPAS, legislações de países como Chile e México, que já adotaram sistemas de advertência frontal, além de estudos sobre o impacto da rotulagem nas escolhas alimentares. Confrontar essas fontes, identificar seus propósitos e avaliar sua confiabilidade tornou-se parte essencial do processo e também uma forma concreta de exercitar a AMI na prática.
A experiência na orientação de projetos de IC permite observar uma transformação nos estudantes: de consumidores passivos de informação para leitores ativos que perguntam qual é a fonte, qual foi a metodologia e qual o interesse por trás da afirmação. Essa mudança não fica restrita ao tema pesquisado, ela se generaliza para toda informação recebida, inclusive nas interações com ferramentas de inteligência artificial. Saber pesquisar é muito mais do que uma competência acadêmica. É uma forma de se proteger da manipulação, de participar com qualidade do debate público e de tomar decisões informadas sobre a própria saúde e sobre a vida em sociedade. É, em última análise, uma condição para o exercício pleno da cidadania. E a escola, quando aposta na investigação como prática pedagógica, forma pessoas que sabem viver em um mundo onde a informação é, ao mesmo tempo, o maior recurso e o maior risco
Referências:
NEWMAN, Nic et al. Reuters Institute Digital News Report 2023. Oxford: Reuters Institute for the Study of Journalism, University of Oxford, 2023. Disponível em: https://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/digital-news-report/2023.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A EDUCAÇÃO, A CIÊNCIA E A CULTURA. Media and information literacy: policy and strategy guidelines. Paris: UNESCO, 2013. Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000225606.


