VILLA NEWS

Super El Niño de 2026 joga mais pressão na inflação de alimentos e no agro

As chances de formação, ainda em 2026, de um evento de um “Super El Niño”, de intensidade excepcional, aumentaram pelo terceiro mês consecutivo pelas projeções do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF).

O cenário acende o alerta no campo, onde alterações do padrão climático podem ser devastadoras por chegarem potencialmente em um momento em que o produtor já lida com perdas em suas margens de lucro, provocadas pelo encarecimento de insumos e por recordes de endividamento e, por consequência, maior dificuldade de acesso a crédito.

O impacto combinado desses desses fatores ameaça reverter o recente alívio na inflação de alimentos, além de testar os limites de uma infraestrutura de escoamento cronicamente deficitária.

“O fenômeno pode alterar padrões climáticos globais, elevando o risco de eventos como seca, chuvas excessivas e ondas de calor em importantes regiões produtoras, com impactos diretos sobre produtividade e preços agrícolas”, destaca relatório da Hedgepoint Global Markets sobre commodities no Brasil.

Um evento de El Niño ocorre a partir do aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico Equatorial, elevando as temperaturas globais, alterando a distribuição de umidade e levando mais tempestades tropicais para algumas regiões e condições mais secas para outras.

No Brasil, a dinâmica atmosférica tende a provocar chuvas intensas na região Sul e estiagem rigorosas no Norte e Nordeste, ao passo que o Centro-Oeste e o Sudeste passam a enfrentar irregularidade hídrica. Essa assimetria meteorológica compromete o calendário de plantio, exigindo adaptações rápidas e investimentos em irrigação em áreas onde a disponibilidade de água torna-se crítica.

O prognóstico mais recente do ECMWF, de 1º de maio, mostra que a temperatura da superfície do mar na chamada região Niño 3.4 (Pacífico Centro-Leste) pode atingir aumento de cerca de 3,2°C até o fim do ano, acima dos 2,8°C projetados na atualização de 1º de abril.

“Tal patamar de aquecimento colocaria o evento previsto para os próximos meses no território dos mais intensos episódios de Super El Niño da história com potencial de rivalizar ou até superar eventos históricos”, afirma Luiz F. Nachtigall, da MetSul Meteorologia.

Caso as projeções atuais se confirmem, o evento poderia figurar entre os três mais fortes desde o século 19, destaca o meteorologista. Para fins de comparação, o evento que ocorreu entre 1997 e 1998, considerado um dos mais intensos já observados em 150 anos de medição, atingiu cerca de 2,8°C na região Niño 3.4.

Nesta semana, o Centro de Previsão Climática da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA) passou a indicar de forma mais clara que um El Niño intenso já estaria em formação.

Em seu último boletim, divulgado na segunda-feira (4), a agência americana aponta 61% de probabilidade de o fenômeno surgir entre maio e junho e persistir pelo menos até o fim de 2026. Para o período que vai de novembro deste ano a janeiro de 2027, o órgão considera chances semelhantes para um evento moderado, forte ou muito forte.

Cenário tende a piorar na safra 2026/27 com seca no Norte e Nordeste e excesso de chuvas no Sul

Em um primeiro momento, o principal risco para o agro brasileiro não seria uma quebra de safra a nível nacional, mas de perdas pontuais causadas pela irregularidade na distribuição de chuvas. O cenário fica mais sensível olhando para a próxima safra, de 2026/27.

“Um El Niño mais organizado tende a elevar a instabilidade climática ao longo do desenvolvimento da próxima safra”, diz Isabella Pliego, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro.

“No Sul, isso aumenta o risco de excesso hídrico, doenças, perda de qualidade e dificuldade operacional. No centro do país, o problema deixa de ser só volume e passa a ser retomada irregular das chuvas, maior oscilação térmica e dificuldade de manter padrão produtivo uniforme. No Norte e em parte do Nordeste, o risco de estresse hídrico volta a ganhar peso.”

O cenário de transição climática amplia incertezas sobre a finalização da safrinha do milho, aponta relatório da StoneX. A possível intensificação da corrente de jato subtropical pode dificultar o avanço regular de frentes frias pelo interior do continente, reduzindo a umidade no Sudeste e no Centro-Oeste e antecipando o fim das chuvas em estados como São Paulo, Mato Grosso do Sul e Paraná.

O movimento pode afetar a formação de biomassa e a produtividade em fases críticas do ciclo agrícola. “O ponto-chave não é apenas quanto vai chover, mas quando e onde. A irregularidade espacial e temporal das precipitações permanece como o principal desafio para o agro no curto prazo”, diz Carolina Giraldo, analista de inteligência de mercado da StoneX.

Nota técnica do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) destaca que, na safra de verão, a redução de chuvas no Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste e Sudeste pode prejudicar o plantio e o desenvolvimento inicial de culturas como soja e milho, além de aumentar o risco de perdas em sistemas de sequeiro.

Já na região Sul, embora o aumento de precipitações na primavera e início do verão possa favorecer a disponibilidade hídrica, o excesso de chuva pode causar o encharcamento do solo, aumentar a incidência de doenças fúngicas, dificultar o plantio e os tratos culturais, bem como impactar a qualidade e a colheita, diz trecho do documento.

A frustração produtiva no campo transfere a pressão de custos diretamente para as gôndolas dos supermercados. De acordo com o mais recente boletim Focus, divulgado pelo Banco Central (BC), o mercado financeiro projeta uma inflação de 4,89% em 2026. Analistas apontam que o fator climático pode adicionar até 0,8 ponto percentual a esse índice.

“Sem a guerra [no Irã], a estimativa já era de aumento do preço dos alimentos, devido ao efeito do El Niño, que afeta o volume e distribuição das chuvas”, diz o coordenador dos Índices de Preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), André Braz.

Episódios recentes de El Niño provocaram perda de safra, mortes, inflação e prejuízos bilionários

O grande temor é da repetição de cenários trágicos como os que já ocorreram no passado, que deixaram impactos significativos no agro brasileiro.

Entre o final de 2015 e o início de 2016, o mundo enfrentou um dos fenômenos El Niño mais severos do último meio século. No Brasil, as estiagens prolongadas e as altas temperaturas castigaram as lavouras, resultando em uma queda de 9,5% na safra nacional de grãos.

O impacto foi particularmente devastador para o milho, que teve uma redução de 19,1% na produção daquele ciclo.

O El Niño de 1997/98, no entanto, continua sendo a principal referência de intensidade extrema. O episódio causou a morte de cerca de 21 mil pessoas globalmente e gerou prejuízos econômicos e de infraestrutura estimados entre US$ 35 bilhões e US$ 45 bilhões.

No Brasil, o fenômeno causou extremos climáticos que afetaram diretamente a produção de alimentos. A produção nacional de grãos, que vinha de uma alta de 6,5% na safra anterior, recuou 2,3%, puxada para baixo por prejuízos nas lavouras de milho, arroz e feijão, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

A frustração na colheita obrigou o governo federal a utilizar parte de seus estoques públicos de grãos, que caíram para o nível mais baixo em dez anos, o equivalente a 5% do consumo nacional na época.

Enquanto a região Sul sofreu com excesso de chuvas, recebendo volumes muito acima da média histórica, o Nordeste foi castigado por uma das piores secas do século. O déficit hídrico nordestino provocou o colapso da produção rural local e gerou uma crise humanitária e econômica, marcada pelo avanço da fome e por ondas de saques a depósitos públicos de alimentos, feiras e mercados.

Mais recentemente, no ciclo iniciado em 2023, as consequências do El Niño foram sentidas na infraestrutura brasileira. A seca extrema paralisou as rotas de escoamento pelos rios da Bacia Amazônica, enquanto chuvas torrenciais danificaram estradas na região Sul, uma combinação de fatores logísticos que chegou a encarecer o custo do frete agrícola em até 57%.

A quebra de produtividade gerada pelo choque climático persistiu, fazendo com que o El Niño fosse o responsável direto por adicionar 2,25 pontos percentuais à inflação dos alimentos consumidos nos lares brasileiros durante o ano de 2024.

VEJA TAMBÉM:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *