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Cientistas anunciam que ave extinta há mais de 100 anos reapareceu na Caatinga

Um pássaro que havia desaparecido há mais de 100 anos voltou a nascer em liberdade no semiárido brasileiro, após um projeto de recuperação da espécie em extinção. A notícia acendeu uma nova esperança para a conservação ambiental no Brasil e surpreendeu pesquisadores da Reserva Natural Serra das Almas, na divisa entre o Ceará e o Piauí.

Os filhotes de periquito-cara-suja nasceram em vida livre no dia 17 de março de 2026 e o momento foi descrito pela equipe como histórico, resultado de anos de um trabalho silencioso pela conservação de uma das aves mais raras do Brasil.

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O que é o periquito-cara-suja?

O Pyrrhura griseipectus, popularmente chamado de periquito-cara-suja por causa da mancha escurecida no rosto, é uma ave rara da Caatinga e exclusivamente nordestina. Pequena, de plumagem predominantemente verde e peito acinzentado, ela vivia em bandos de 4 a 15 indivíduos nos fragmentos de mata serrana do Ceará.

O piriquito-cara-suja possui uma mancha escurecida no rosto, sendo uma ave rara da Caatinga e exclusivamente nordestina. (Foto: Wikimedia Commons )

Com o desmatamento, o tráfico de animais e a perda de habitat, a espécie foi sendo empurrada para fora de boa parte do território onde antes era comum até quase desaparecer por completo. Por cerca de 114 anos, quase não houve registros confiáveis da ave na Reserva Natural Serra das Almas (Reserva Particular do Patrimônio Natural).

Como o “renascimento” da espécie em extinção aconteceu?

O trabalho para que houvesse o renascimento da espécie começou em 2024, com o lançamento do projeto Refaunar Arvorar, uma iniciativa da Associação Caatinga e da ONG Aquasis, em parceria com o Parque Arvorar, do Beach Park. O objetivo era claro: devolver à Caatinga uma espécie que ela havia perdido.

Mas reintroduzir uma ave não é simplesmente soltá-la na mata. Antes de ganhar a liberdade, cada periquito passou por avaliação veterinária, quarentena e adaptação em recintos amplos.

Piriquito-cara-suja, que está sendo preservado por cientistas. (Foto: Wikimedia Commons )

Grande parte dos exemplares restantes da espécie havia sobrevivido ao tráfico ilegal de animais silvestres e, por isso, a preparação envolveu também:

  • o fortalecimento do voo;
  • o reconhecimento de alimentos nativos;
  • a reconstrução dos laços sociais dentro do bando.

Para receber as aves, a reserva também precisou ser adaptada. Um viveiro de aclimatação foi construído, guarda-parques foram treinados e 40 comunidades do entorno foram envolvidas na proteção da área. Formando, na prática, um cinturão humano de conservação.

Um nascimento histórico com 33 ovos da ave em extinção

Em fevereiro de 2026, pesquisadores encontraram os primeiros ovos nas caixas-ninho, que são estruturas de madeira instaladas estrategicamente para simular os ocos de árvores. Foram 33 ovos no total, número que superou as expectativas da equipe.

Semanas depois, os filhotes nasceram. Era a primeira reprodução natural da espécie em liberdade na Serra das Almas em mais de um século. “O fato de isso ter acontecido em menos de um ano mostra que elas estão se estabelecendo bem”, afirmou Fábio Nunes, coordenador do Projeto Cara-Suja, ao portal de notícias G1.

Hoje, cerca de 23 indivíduos adultos vivem soltos na reserva. Se as condições se mantiverem favoráveis, a população pode dobrar ainda em 2026.

Os desafios que ainda estão pela frente na preservação do periquito-cara-suja

O entusiasmo é real, mas a cautela também. Os filhotes recém-nascidos são vulneráveis à predação, às chuvas intensas que podem alagar os ninhos e à dificuldade dos pais em alimentar todos ao mesmo tempo. Por isso, a equipe monitora de perto cada etapa.

Piriquito-cara-suja, que estava em extinção na Caatinga. (Foto: Wikimedia Commons )

Há também um desafio estrutural: sem a restauração da vegetação nativa da Caatinga em larga escala, os ganhos podem não se sustentar a longo prazo. A sobrevivência da espécie depende de florestas serranas conectadas e diversas, não apenas de reservas isoladas.

Qual a importância do reaparecimento do periquito-cara-suja na Caatinga?

O reaparecimento do periquito-cara-suja na Caatinga não é só uma boa notícia para os amantes de pássaros. É uma demonstração concreta de que espécies extintas localmente podem ser recuperadas desde que haja ciência, planejamento e vontade política para isso.

Num país onde a Caatinga ainda é o bioma menos protegido do Brasil, ver uma ave símbolo dessa região renascer em liberdade é, no mínimo, um sinal de que o caminho existe.

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